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2021/02/23

CARTAS ABERTAS…

Foram disponibilizadas hoje duas, na imprensa. Uma dirigida ao Governo e ao Presidente da República (por esta ordem, pouco hierárquica), no sentido de terminar gradativamente o confinamento das escolas, assinada por “um grupo de cidadãos e cidadãs, pais, professores, epidemiologistas, psiquiatras, pediatras e outros médicos, psicólogos, cientistas e profissionais de diferentes áreas”. Outra, dirigida às televisões generalistas nacionais, “exige uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção”, criticando os critérios jornalísticos que têm sido usados nas notícias sobre a pandemia. Assinam quarenta e duas personalidades, mais ou menos conhecidas, de diferentes sectores da sociedade.

Uma carta aberta revela sempre alguma coragem, maior ou menor consoante o seu conteúdo. Podem ser mais ou menos justificáveis. Em relação às hoje divulgadas, pergunto-me o que podem esperar os seus autores como resultado da acção empreendida.

Vejamos: tendo em conta tudo o que aconteceu na evolução da pandemia, vale a pena um grupo de cidadãos pressionar o poder político para tomar uma decisão que é crucial seja a correcta, para não “andarmos para trás”? Não houve cartas abertas para a abertura no Natal, mas houve uma concordância evidente de quase toda a gente: correu mal. Muito mal. E depois culpou-se o governo! E agora? Se se aceitassem as propostas dos proponentes da carta aberta e voltasse a correr mal, assumiriam eles as culpas? Num momento tão delicado não faz sentido haver pressões, venham de onde vierem: quem tem de decidir que decida com a convicção que tiver formado.

Quanto à segunda carta aberta, subscrevê-la-ia na íntegra: ela expressa o que estou certo muitos pensam, que tem havido um exagero no modo e no tom da informação e alguma distorção quando se interpretam os factos. Mas não espero consequências…  

2021/02/15

DEBATER O DIGITAL NA ESCOLA

Não há duas opiniões para este dado: a escola, e tudo o que a ela está ligado, desde a cúpula do governo à comunidade educativa lato sensu, sofreu por causa da pandemia um severo desafio, não à sua existência, mas à sua configuração tradicional.

Não que a discussão sobre a necessidade de uma “nova” escola não seja recorrente e que não tenham existido numerosas tentativas de a reformular, algumas bem antigas (e algumas bem interessantes). Desde há uns anos, a evolução rapidíssima das tecnologias digitais tem determinado um incremento da sua aplicação à educação e começou a pensar-se mais em termos de uma “escola digital” (designação que, pessoalmente, não me agrada).

A Covid-19 veio, subitamente, colocar no centro das preocupações de todos os interessados. e são muitos, o problema de como continuar a ensinar os nossos alunos se as escolas tinham de ser encerradas, para evitar os contactos pessoais. A resposta foi rápida e geral: uma vez que não constituía segredo que era possível haver um ensino a distância – que há dezenas de anos existe em todo o mundo – tentou-se universalizar o método.

No caso português, fez-se o que se podia, na expectativa de que pudesse correr melhor do que pior. Dado, por um lado, os equipamentos disponíveis nas escolas e também por parte dos alunos, e ainda os constrangimentos familiares que o estudo em casa implica, e por outro o tempo de que se dispôs para a organização do modelo e os professores que temos, muitos sem grande informação e formação na área do digital, eu diria que correu melhor do que se poderia esperar.

Quando se julgou possível e sem risco para a saúde pública as escolas reabriram, e o ensino presencial regressou. Esperava que, apesar disso, estivesse previsto e preparado um plano para regresso ao ensino a distância, uma vez que a evolução da pandemia não parecia augurar melhorias significativas. Mas não foi assim; e por isso, quando se tornou necessário voltar a fechar as escolas, verificou-se que o governo não cumprira o que prometera em relação a equipamentos para alunos e escolas (e Internet de alta velocidade) e, na prática, voltou a improvisar-se.

O que me confunde, no entanto, nem é a situação de incumprimento, são as afirmações de responsáveis (incluindo o Ministro da Educação) acerca da imprescindibilidade do ensino presencial, quando, de acordo com o Plano de Recuperação e Resiliência 2021-2026 (PRR), cuja discussão está em curso, um dos roteiros propostos é intitulado Reforma para a Educação Digital! Que outros afirmem que o ensino a distância “é uma porcaria” (sic), é uma opinião; que sejam os responsáveis a minimizar uma das ferramentas que mais contribuirá para o futuro da nossa educação custa mais a admitir.

O que me preocupa é que se possa estar a perder uma oportunidade para a mudança da escola. Porque ninguém quer que a escola desapareça. Quer-se é outra escola. Que terá de ser compatível com o digital, ou não será. E para essa escola é necessário, para além de equipamentos, que existam professores preparados para assumirem a sua profissão, que não muda de essência, mas de modo de actuar.

Que não se hesite mais em começar um debate sério sobre este tema. 


2021/02/07

 

AMANHÃ…

… regressa o ensino a distância em Portugal. Como em Março, regressa por uma emergência e não por ter sido definido um plano em que a sua implementação tivesse um enquadramento em que escolas, professores, alunos, e comunidade escolar, tivessem uma informação clara e sobretudo atempada.

Os dados estão lançados, e por isso, resta-nos estar atentos ao que vai acontecer, principalmente as decisões do poder central e ao modo como as escolas vão interpretar a sua autonomia para gerir este novo período de um ensino a distância.

Pela minha parte, confinado e apenas informado pelo que oiço, vejo e leio, estarei atento e sempre que possível darei conta do que penso.

2021/02/06

 

EM TEMPO…

Depois de ter publicado o texto de ontem, soube que a Direcção-Geral de Educação divulgara, no passado dia 3, o documento “Contributos para a implementação do ensino a distância nas escolas” (ver aqui), no qual são dadas orientações para a preparação das actividades lectivas a distância das próximas semanas.

Não é, propriamente, o plano a que me referia ontem, mas considero ser um elemento importante para as escolas e professores, na medida em que, apelando à sua autonomia, caracteriza o que são (ou podem ser) actividades síncronas e assíncronas, fornecendo indicações pertinentes sobre a construção dessas actividades.  

Salientem-se dois aspectos, um mais relevante do que outro: a consideração do papel do professor titular/director de turma/coordenador de Curso em todo o processo; e a manutenção da forma correcta de grafar (e dizer) “ensino a distância” e não “ensino à distância”.

2021/02/05

 

ENTENDO AS DIFICULDADES, MAS…

Desde o verão que não comento o que está acontecendo no campo da educação. É muito complicado ter de tomar decisões quando se enfrenta a incerteza e existem pressões várias em direcções opostas. Mas a situação em que a pandemia colocou o sector, e que num primeiro momento até foi relativamente bem resolvida, tem agora um outro desenvolvimento e importa reflectir sobre ele.

Praticamente em todo o mundo a Covid-19 fechou escolas e ensaiaram-se modelos de ensino a distância. Seria espantoso que de um momento para o outro tudo funcionasse muito bem. Centrando-nos no caso português, apesar de há mais de trinta anos os nossos professores estarem familiarizados com as tecnologias de comunicação e de existirem centros onde se têm desenvolvido experiências importantes, não se poderia esperar que, como num acto de mágica, todas as escolas e todos os professores dessem a resposta adequada ao desafio lançado. E temos de acrescentar a falta de computadores, quer nas escolas, quer em muitos alunos, e os problemas da rede. E muitos outros – dos quais, porque muito debatido, avulta o problema dos alunos mais carenciados, que continuariam a ver agravadas as desigualdades em relação aos colegas mais protegidos.

As promessas explícitas de Abril de 2020 de fornecimento de equipamentos para ao alunos e de condições de acesso favoráveis à rede de alto desempenho para este ano lectivo foram feitas em vão. Lamentavelmente. Eu entendo as dificuldades, mas…

Disse na altura que não perdoaria ao Primeiro Ministro se falhasse esse objectivo. Isto porque eu pensava que, numa previsão de continuidade da pandemia no novo ano lectivo, o Ministério da Educação desenvolvesse um plano, no qual as escolas e professores teriam certamente um papel central, com duas ou mais alternativas, claramente enunciadas, em que o ensino a distância, não como substituto do ensino presencial mas como seu adjuvante, fosse contemplado. Respeitando a autonomia e a flexibilidade curricular desejadas e que neste caso se justificariam redobradamente.

Foi com perplexidade que percebi que tal plano não existia. A insistência em manter as escolas abertas quando parecia que tal estava a contribuir para piorar a pandemia avolumou a minha suspeita. Ninguém defende que o ensino a distância seja mais eficaz do que o presencial, em especial nas primeiras idades. Mas ignorar as suas virtualidades se integrado num plano adequado parece-me desajustado.

E agora? Vamos ver como corre esta segunda fase. Será que dela se poderá partir para um repensar de uma escola diferente?

   

2020/05/04

De desconfinado a desconfiado: reflexões de um velho


Há quarenta e sete dias que não saía de casa. Saí hoje, uma vez que disciplinadamente me foi permitido fazê-lo: fui desconfinado! Não o digo com azedume. Compreendi muito bem que o que me pediam tinha fundamento e abdiquei, com pena mas sem esforço, do hábito que há uns três anos criara de caminhar, todos os dias, perto de cinco quilómetros. Isto a bem da minha saúde futura. Porque, apesar dos meus 84 anos, continuo a pensar que tenho futuro. É evidente que eu sou um privilegiado: estou na minha casa, suficientemente ampla e confortável, com todos os meios de comunicação actualmente disponíveis, com a minha Mulher, e com a assistência da Filha que, embora a distância, continua diariamente connosco, partilhando até, via Skype, as refeições festivas das datas que calharam neste tempo esquisito, os dias do Pai e da Mãe e o dia dos meus anos. Penso muitas vezes em quem não tem esta sorte, os que vivem em lares ou sozinhos, sem família, em condições precárias. Reconheço a dificuldade em tentar resolver o problema, mas esse teria de ter tido, porventura, maior atenção.

2020/04/08

Consequências do Covid-19 na educação: que fazer do resto do ano lectivo?


Tenho pensado em como se pode (ou, talvez com mais propriedade, como se deve) decidir o complicado problema do presente ano lectivo, interrompido pelo surto do Covid-19. Algumas vezes, faço-o como se partilhasse alguma responsabilidade como quadro do Ministério da Educação (situação em que estive no passado durante uns anos); outras como professor, que fui durante muito tempo: cerca de nove anos no ensino secundário, dois numa escola do magistério primário, e mais de vinte no ensino superior (politécnico e universitário), neste último caso como docente, tendo exercido alguns cargos de gestão.

É verdade que há praticamente catorze anos estou afastado das lides escolares, mas acredito que apesar das mudanças – ou, talvez, por causa delas – o meu pensamento não terá perdido a vertente de coerência que sempre quis manter. Por isso senti-me hoje tentado a pôr por escrito o que tenho pensado. Previno que o que vou dizer aplica-se quer ao ensino dispensado pela escola pública quer ao privado. E ainda que não faço qualquer referência aos alunos que na escola inclusiva (que se deseja) tenham dificuldades de aprendizagem.  

2020/03/25

Apontamento para memória futura


São nove horas. Há um silêncio de domingo. E é quarta-feira. Há cinco anos que moro aqui – numa avenida onde há trânsito intenso às horas de ponta, que, apesar das janelas com vidro duplo, se apercebe claramente dentro de casa. E hoje, como há dias, não. Fui há pouco à janela: a avenida está praticamente sem trânsito (descem três ou quatro carros, sobem um ou dois). No passeio que posso ver ninguém sobe ou desce. Pensava, nestes últimos dias, que quase não passavam ambulâncias. Mas não é verdade: elas continuam a passar, que este é caminho natural para Santa Maria; só que não precisam de sirene porque têm a via desimpedida. No céu, nada de aviões que demandam o aeroporto, que dista escassos quilómetros da minha casa: desde há dias tem sido um sossego. De algum modo poderia dizer que a vida, se não parou, está em pausa, em Lisboa. É estranho.
A esta hora eu costumava sair para fazer a minha caminhada diária, mais ou menos cinco quilómetros, pelas redondezas: Campo Grande, Alvalade, Avenidas do Brasil, de Roma, da República, Saldanha… faço isto há quase cinco anos, para não enferrujar. Pois é. Há uma semana pus de parte este hábito que me ajudava a equilibrar o peso. Compreendi que o devia fazer, sou um dos cidadãos com risco elevado face à epidemia, e ainda que não me pareça que as minhas caminhadas fossem muito susceptíveis, por si só, de serem perigosas, senti que devia aceitar o “mais vale prevenir…”
Para além dessa hora, hora e pouco, de caminhada, eu estava em casa. Por isso esta clausura, que sinto e aceito agora obrigatória, não me custa muito. Tenho sempre com que me entreter, há muito tempo que ando a organizar papéis, transformando-os em pdf, e continuo a escrever. Passo os olhos por alguns jornais na Net e visito dois ou três blogs que estimo. Vejo alguns programas de televisão e, recentemente, recomecei a usar o leitor de DVDs, revendo alguns que há muito estavam em pousio.
Estou preocupado? Como diria o nosso Primeiro Ministro, “vamos lá ver…” Nem eu nem ninguém teve uma experiência igual, porque a grande epidemia mundial, a “nossa” pneumónica, ou febre espanhola para a maior parte, foi há cem anos, e mesmo os centenários existentes seriam muito crianças para terem memória directa desses tempos. Eu tive relatos dos meus pais, que eram jovens na altura e, felizmente, não foram afectados pela doença – e contaram-me coisas terríveis. Esta pandemia, a Covid-19, é na verdade algo muito sério, e que, penso, só não será ainda mais sério por ter surgido quando a humanidade já dispõe não só de conhecimento prévio como de condições científicas e técnicas de eleição. Por isso, apesar do ritmo assustador a que a doença se espalha e das situações tão graves e tão próximas da Itália, da Espanha, e de outros países, creio que iremos vencer a crise – e por isso estou apenas moderadamente preocupado.
Contudo, talvez levado pelas análises de economistas, que têm a obrigação de saber do que falam ou escrevem, o que me preocupa verdadeiramente é o “depois” da pandemia. E não só em termos económicos, que podem de facto ser muito, mas muito sérios, mas pelo que eles podem trazer a reboque – desestabilização social e política a diversos níveis. Ninguém quererá regressar a tempos bem próximos. A incerteza agrava a preocupação. Como estaremos nós, que seremos nós, daqui a três meses? No Natal?
Por isso deixei aqui estas linhas, para memória futura.