Há quarenta e sete dias que não
saía de casa. Saí hoje, uma vez que disciplinadamente me foi permitido fazê-lo:
fui desconfinado! Não o digo com azedume. Compreendi muito bem que o que me
pediam tinha fundamento e abdiquei, com pena mas sem esforço, do hábito que há uns
três anos criara de caminhar, todos os dias, perto de cinco quilómetros. Isto a
bem da minha saúde futura. Porque, apesar dos meus 84 anos, continuo a pensar
que tenho futuro. É evidente que eu sou um privilegiado: estou na minha casa,
suficientemente ampla e confortável, com todos os meios de comunicação
actualmente disponíveis, com a minha Mulher, e com a assistência da Filha que,
embora a distância, continua diariamente connosco, partilhando até, via Skype,
as refeições festivas das datas que calharam neste tempo esquisito, os dias do
Pai e da Mãe e o dia dos meus anos. Penso muitas vezes em quem não tem esta
sorte, os que vivem em lares ou sozinhos, sem família, em condições precárias.
Reconheço a dificuldade em tentar resolver o problema, mas esse teria de ter tido,
porventura, maior atenção.