Há dias lembrei um meu Natal diferente.
Hoje posso lembrar um 31 de Dezembro igualmente diferente – e, sobretudo, de desilusão.
Curiosamente, ocorreu um ano depois: foi em 1968.
The past is malleable and flexible, changing as our recollection interprets and re-explains what has happened.... Peter Berger
2015/12/31
2015/12/25
Um Natal diferente
Quem tem muitos anos de vida tem memórias
de muitos Natais. De quando se era criança e se aguardava o momento de, pela
manhã do dia 25, ir à chaminé ver o sapatinho que lá se tinha posto na véspera
(eu testemunho: fi-lo, e até fui por vezes generosamente compensado…), e
depois, de muitos outros em que, havendo diferenças, se repetiam – e repetem –
umas quase formalidades, no fundo rituais que é difícil romper, ainda que
possam mudar. Quem não se lembra das resmas de cartões de boas festas a enviar
pelos correios, hoje substituídos por mensagens de e-mail ou sms?
Não sou diferente de outras pessoas, mas
tenho na minha vida um Natal muito especial, e é esse o motivo deste post. Em
1967 eu tinha sido colocado como professor efectivo no então Liceu Nacional da
Horta, na ilha açoriana do Faial, para onde viajei em Outubro. Porque fora
sozinho queria vir no Natal ao continente, pelo que atempadamente marquei a
viagem de ida (via marítima, porque nessa altura era complicado usar a via
aérea) no navio Funchal, um dos mais
rápidos em serviço, que tinha como dia da chegada a Lisboa precisamente o dia
24 de Dezembro. Não me recordo bem do dia da partida, mas não deveria andar
muito longe de 19. Tenho uma vaga ideia de por minha causa se ter antecipado
uma reunião de professores para lançar as classificações do período.
Aconteceu, no entanto, que o dia da chegada
do Funchal coincidiu com um violento
temporal que quase impediu a entrada no navio no porto e tornou completamente
impossível a sua saída. Durante dois dias de chuva intensa, mar de vagas
alterosas que varriam o cais, tornaram-me prisioneiro na ilha. E quando o tempo
acalmou, havia uma certeza: o meu Natal ia ser passado no Atlântico! E assim
foi: véspera e dia de Natal passei-os num navio em que os tripulantes eram
muitos mais do que os passageiros, felizmente com um mar razoável para a época,
e com porventura refeições melhoradas (mas sinceramente não recordo as
ementas).
Por isso eu sei com toda a certeza o que
foi o meu Natal de 1967, e não serei capaz de ter qualquer certeza se quiser
lembrar, por exemplo, o Natal de 1985.
Para todos, um bom Natal! E um feliz 2016.
2015/12/20
O Secretário de Estado da Educação
Em post anterior, analisando o perfil do Ministro
da Educação, que acolhi favoravelmente, disse no entanto que seria importante
para ele ter como Secretários de Estado elementos com qualidade e conhecedores
do terreno que pisam.
Tive agora a oportunidade, por mão amiga,
de ter acesso a uma curta intervenção feita na Assembleia da República pelo
Prof. João Costa, Secretário de Estado da Educação, a qual pode ser vista e ouvida
aqui. Não só porque esclarece bem a posição correcta acerca dos rankings das
escolas, mas porque dá pistas sobre como deve o Ministério da Educação actuar no futuro,
apoiando-se em quem sabe e não em quem apenas opina, fiquei bem impressionado
e, em certa medida, mais tranquilo.
2015/12/16
Dos consensos em educação
Ontem, pelas 10 e
20 da manhã, tomei um táxi perto da minha casa para ir para o Palácio Ceia, sede
da Universidade Aberta, onde ia decorrer a posse do meu Amigo, o Reitor Paulo
Dias. (Não é esse o tema deste post,
mas não posso deixar de dizer que o Paulo Dias foi meu parceiro em muitas iniciativas
nos últimos anos da minha vida académica no Minho, entre as quais o Centro de
Competência Nónio Século XXI, e sobretudo as conferências Challenges, com início
em 1999 e que ainda hoje se mantêm, com periodicidade bi-anual).
Mas vamos ao
ponto que quero desenvolver. O taxista tinha o rádio sintonizado na TSF e
entrei a tempo de ouvir qual o tema do fórum: “Estabilidade na Educação: os partidos devem assumir um compromisso de
médio prazo?” Segundo o apresentador, o Manuel Acácio, esta pergunta estava no site da estação e até essa altura havia
100% de respostas “sim” e, obviamente, 0% de respostas “não”. Ainda tive tempo
de ouvir o ex-ministro David Justino, actual Presidente do Conselho Nacional de
Educação, expor o que o referido Conselho tem definido sobre exames e provas de
aferição.
Parece que o resultado final da
questão colocada no site foi 96%-4%,
o que revela que uma grande maioria apoia a estabilidade. Não posso estar mais
de acordo, mas reconheço dificuldades, sobretudo desde que se rompeu uma ideia
básica que, creio poder dizê-lo sem errar, era comum à maior parte dos
responsáveis pela educação, em diferentes sectores, e que era transversal mesmo
em relação a partidos políticos. Essa ideia básica privilegiava a educação,
sem menorizar a instrução (já mencionei este aspecto em anterior post). Se atentarmos bem, a política
seguida pelo ministério Crato era o inverso: a instrução sobrepunha-se à educação.
No final do século XX o Ministro Marçal Grilo propôs um pacto educativo, salvo
erro em 1996. Era um documento muito sólido e nada complexo, mas como o PS não
tinha maioria, os outros partidos não responderam como se desejava, e a ideia
perdeu-se. Foi pena, porque na altura não havia o tipo de divergências que hoje
existem.
Por isso, o grande problema
para que seja possível um amplo consenso é definir de uma maneira cabal que
educação queremos neste país. Ter em atenção a célebre afirmação de Montaigne e
decidir sobre ela: “Mieux vaut une tête bien faite qu'une tête bien pleine”. Interrogar-se se
depois da Internet e das redes sociais a escola pode ficar como era. Discutir
se a verdadeira aprendizagem não deveria ser o aprender a aprender. Questionar
se querer que a escola proporcione bem-estar aos seus alunos é incompatível com
a aprendizagem.
E muito mais, que a inteligência de cada um poderá elencar.
Etiquetas:
Consensos,
Pacto educativo
2015/12/14
Agora, os “rankings”
Os rankings das escolas portuguesas não
universitárias já não são uma novidade: existem desde 2001. Há opiniões
contraditórias sobre a sua oportunidade. O Ministério da Educação (ME) tinha
até então resistido à divulgação dos resultados escolares, mas cedeu à pressão
da comunicação social, que os exigia. Tanto quanto penso, as reticências do ME
teriam a ver com a disparidade de resultados entre escolas públicas e privadas,
que, interpretadas de um modo linear, levantariam dúvidas sobre a eficácia do
ensino público.
O conhecimento
dos resultados das escolas, em termos de aproveitamento dos seus alunos, é
evidentemente importante. O problema, percebido desde um primeiro momento, é
que os dados que serviam para organizar as escalas eram insuficientes para
explicar os resultados: classificações internas ou de exames, dados brutos, não
podiam reflectir senão uma parte da realidade. Por isso a ordenação das escolas
só fazia sentido se se tentasse adivinhar o que não a suportava: por exemplo, a
razão porque no topo apareciam sempre escolas privadas.
Para o comum dos
mortais, no entanto, essas listagens configuravam uma verdade que nem sempre
correspondia à realidade. Muitas escolas (sobretudo da rede pública) apareciam
mal colocadas, mas quem as conhecia por dentro sabia que elas tinham
virtualidades que os resultados iludiam. Faltavam outros dados complementares.
Como referi em post anterior, os serviços de
estatística do Ministério da Educação passaram a disponibilizar esses dados,
que permitem uma abordagem diferente, para bem melhor, dos rankings. Definiram-se as chamadas variáveis de contexto (por
exemplo, escolaridade das mães e dos pais, proporção de alunos que beneficiam
de apoio de ASE – acção social escolar - em cada um dos escalões, distribuição
dos alunos pelos níveis e modalidades de ensino). Partindo do princípio que
essas variáveis poderiam explicar os diferentes resultados escolares,
utilizaram-se modelos de regressão linear múltipla aos indicadores desses resultados,
permitindo chegar ao chamado “valor esperado” para cada uma das variáveis.
Temos assim um
quadro que, teoricamente, permite uma interpretação mais confiável da realidade
das diferentes escolas do país. No entanto sou dos que pensam que continua a
ser necessário algum cuidado na interpretação dos resultados, porque nem tudo é
redutível a números e, a menos que se aceite que a única função da escola é
garantir o êxito académico (o que me parece redutor), há outros elementos que devem
ser considerados quando se avalia o trabalho da instituição.
Para além do
conhecimento que tive, como professor, de muitas escolas, entre 2010 e 2013 fiz
parte de equipas que conduziram a avaliação externa de escolas do ensino básico
e secundário, as quais, para além de considerarem esses elementos objectivos, procediam a
visitas às instituições e entrevistavam membros da comunidade escolar. Esse
contacto directo mostrou, mais do que uma vez, que em termos de acção educativa
plena, ou seja, esforço de integração social de alunos com dificuldades,
respeito pelas diferenças, e até práticas inovadoras nos processos de
ensino-aprendizagem, escolas mediocremente classificadas nos rankings mereciam maior louvor do que
outras no topo.
Por isso quase
sempre senti um certo desconforto no momento da decisão, por não poder
equilibrar, nos pratos da balança, os dados objectivos e os subjectivos (ainda
que razoavelmente explicados) de uma escola.
Isto não
significa que não considere a importância dos dados estatísticos, que podem
agora ser trabalhados na tentativa de compreender o que se passa realmente nas
escolas em termos de rendimento escolar. Os investigadores têm agora à sua disposição
muitos mais dados do que em passado recente para poderem trabalhar.
No entanto, em
meu entendimento, mais do que hierarquizar escolas é importante encontrar meios
de ajuda às que lutam com dificuldades e cumprem deficientemente a sua missão –
ou parte dela. Esta vertente vai muito para além dos rankings. Felizmente,
tanto quanto sei, a Inspecção-Geral de Educação desenvolve um programa com essa
intenção.
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