The past is malleable and flexible, changing as our recollection interprets and re-explains what has happened.... Peter Berger
2015/09/25
Descodificando
A mensagem anterior terá sido pouco explícita? Talvez.
Descodificando: ao votar nas próximas eleições legislativas não posso deixar de lembrar as anteriores, o que as provocou, e o que se seguiu. Mas não devo votar como se estivesse nesse passado: o presente é bem diferente, e as diferenças, para o bem e para o mal, constituem o adquirido para que possa julgar estes quatro anos. O meu voto (o de todos) visa o futuro, não o passado e nem sequer o presente. A aposta no futuro tem sempre alguns riscos; em qualquer caso, vale sempre a pena corrê-los se as nossas convicções em relação às propostas dos partidos são fortes, cortando com o constante recurso ao passado para envenenar o presente.
2015/09/22
Apenas uma breve reflexão...
Neste tempo de eleições é sempre importante ter memória. Memória completa, não flutuante como a que me fez criar este blog. Memória ancorada num passado que se procure explicar mas que não cristalize aí: afinal, não se vota pelo passado mas pelo futuro. Um pouco difícil de entender? Talvez.
2014/03/27
E de repente...
... senti desejo em rever o meu blog, há mais de um ano sem qualquer entrada. Primeiro que o encontrasse foi uma tarefa complicada, porque a associação do blog à conta do Google alterou o usual login. Depois, foi mais uma vez o espanto de verificar que, apesar de praticamente desactivado, todas as semanas há leitores que por aqui passam. E resolvi dar uma prova de vida, escrevendo algumas palavras, saindo um pouco da invisibilidade em que a minha situação de "reformado" (que termo horroroso!) me impôs. E que palavras escreverei? Amargas, sem dúvida, porque não há razões para que não sejam: os tempos que correm, praticamente em qualquer dos campos que queiramos considerar, são sombrios. O mundo está perigoso - dizia-se há uns anos, por causa do terrorismo; ele continua perigoso, por vezes com um terrorismo mais refinado porque mudou de armas... Sim, porque até no nosso pacífico Portugal detectamos, aqui e além, verdadeiros actos de terrorismo!
Não sei se este impulso que em trouxe à Memória se repetirá ou não. Oscilo entre ter e não ter vontade de continuar. A ver vamos.
Não sei se este impulso que em trouxe à Memória se repetirá ou não. Oscilo entre ter e não ter vontade de continuar. A ver vamos.
2012/07/23
LICENCIADOS E PROFISSIONAIS
Deixem-me contar como descobri que ser licenciado tem um valor limitado. Em Julho de 1959 obtive a minha licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e dispus-me a concorrer para professor eventual dos liceus, o que efectivamente concretizei (em Agosto ou Setembro, não me recordo bem). Entretanto recebo um telefonema de uma colega de curso perguntando-me se teria interesse, ainda nessas férias, em trabalhar na Junta de Investigações do Ultramar (JIU), numa situação de “tarefeiro” (nesses recuados tempos não havia recibos verdes…).
Claro que disse que sim e dentro de alguns dias fui convocado a comparecer na Junqueira, no palácio Burnay, onde estava sediada a JIU. Foi-me explicado o que me seria pedido: organizar um ficheiro dos mapas referenciados em diversas obras (incluindo leilões) para a secção de cartografia antiga. Trabalho sem complicações.
Entretanto, apareceu o responsável pelo sector (o “posto” nunca cheguei a perceber bem qual era), o Dr. Zeferino Ferreira Paulo, e a primeira pergunta que me fez foi: “Então, o que é que sabe fazer?” E eu, muito ancho da recente licenciatura, obtida ao cabo de quatro anos de estudos e de mais um para elaborar uma tese de 300 páginas e um volume com mais de cem fotografias e desenhos, respondi: “Sou licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas!” Creio que vi nele uma cara de gozo quando retorquiu “Isso não prova que saiba fazer alguma coisa! Ser licenciado não é um modo de vida!”
Aí ruiu a minha jactância e devo ter titubeado qualquer coisa que, de facto, não posso reconstituir. Tinham-me dado uma lição – e aprendi-a. Quando em Outubro fui colocado no Liceu de Santarém, assumi que ia ter a minha profissão a sério e como profissional me comportei.
2012/07/20
JOSÉ HERMANO SARAIVA (1919-2012)
Entre 1947 e 1952 frequentei o Liceu de Passos Manuel, em Lisboa. Nessa altura, o Reitor (Dr. José Saraiva) residia com a família numa moradia dentro do vasto recinto do Liceu, distante do edifício central, ao qual se acedia ao longo de uma rua larga, arborizada. Recordo-me perfeitamente de mais de uma vez ter visto o então jovem filho do Reitor, José, a descer essa rua em direcção à saída. Teria, então, à volta de 30 anos. Lembro também, no meu 4º ano (actual 8º) de o Dr. José Hermano nos ter aparecido para uma aula de substituição de História (sim, havia ao tempo aulas de substituição…).
Mais tarde, em 1969, estava então como professor efectivo no Liceu do Funchal, o Ministro da Educação fez uma visita à ilha da Madeira e, claro, foi ao Liceu, onde encontrou os professores (uma reunião sui generis, todos de pé numa sala que creio ter sido a própria reitoria, que era ampla). O Ministro era o Dr. Saraiva, que nessa altura andava em cruzada em favor da criação de salas de História em todos os Liceus do país. Recordo-me de ter ficado na última fila e de ter tido imensa dificuldade em ver o Ministro (dada a sua altura). Na altura, estava muito satisfeito por ter um ministro que era professor liceal (para além de ter o curso de Direito).
Depois, a figura de José Hermano Saraiva passou à televisão e, de vez em quando, cruzei-me com ele, admirando a qualidade do seu verbo fluente e, mais tarde, a sua longevidade mantendo uma mente viva e aberta. Contudo, nunca tive oportunidade de estar com ele.
Costuma dizer-se, nestas alturas, que o país sofreu uma grande perda – e é verdade, mas uma verdade naturalmente esperada. Quem viveu 92 anos da maneira como ele viveu deu à sociedade o que era curial esperar-se da sua inteligência. Vai ficar a memória do que ele foi e a sua obra, extensa e difundida.
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