2006/07/03

A educação em debate (2)


Uma semana antecipadora de férias – um conceito que certamente vou ter de rever, dada a situação de descartado de serviço efectivo me permitir sentir-me em férias sempre que eu queira – serviu para prolongar a reflexão sobre o momento por que passa a discussão acerca da educação que temos. Alguns dos meus leitores deram-me razões para pensar que vale a pena, serenamente, ir preparando o futuro.

Nada do que se passa aqui é diferente do que se passou noutros países (e ainda hoje passa): às perguntas “para que serve a escola?” ou “para onde vai a educação?” podem existir várias respostas, que reflectem, necessariamente, posições pessoais, construídas sobre pressupostos que eu designarei abrangentemente como filosóficos, já que derivam de concepções acerca da natureza humana, da sociedade, da vida.

Há assim quem pretenda que a educação seja um benefício para todas as crianças (restrinjo-me agora a este grupo etário) e quem defenda princípios de selectividade logo nesta fase básica do desenvolvimento.

Há quem pense que o essencial da educação básica é fornecer à criança os instrumentos para que possa aprender (as linguagens: ler, escrever, fazer contas) e quem pense que o essencial é ensinar matérias que constem de programas claramente definidos.

Há quem pense que é necessário que as crianças aprendam na escola como trabalhar em grupo, no sentido de desde muito cedo adquirirem competências sociais, e quem pense que esse tipo de actividade é inútil e até prejudicial.

Há quem pense que os exames periódicos, universais, são indispensáveis porque só assim as crianças são levadas a aprender, e quem pense que os exames são provas pouco credíveis e que por isso devem ser evitados.

Estas posições existem entre nós, e existem em qualquer país do mundo, que ninguém duvide…
Felizmente, a pouco e pouco o desenvolvimento científico alargou o campo de contribuições válidas para pensar a educação: a psicologia por um lado, a sociologia por outro, alargaram o conhecimento das crianças, adolescentes e adultos enquanto estudantes, dos seus comportamentos individuais e em sociedade.

Foi então possível que a educação, como um todo complexo no qual coexistem várias disciplinas, emergisse como uma área científica, acolhida nas Universidades dos países mais evoluídos relativamente cedo: o Instituto de Educação da Universidade de Londres festejou há quatro anos o seu centenário, e nos Estados Unidos a Universidade de Colúmbia desde 1898 publica a revista Teachers College Record, que tem, pois, a provecta idade de 106 anos!

Entre nós, gorados alguns esforços para termos o passo acertado, aceitou-se que as Faculdades de Letras oferecessem cursos de ciências pedagógicas para quem queria ser professor, mas só nos anos 70 a educação entrou a sério na Universidade. Não foi fácil a sua aceitação, mas passados 30 anos creio que a comunidade científica deixou de ter dúvidas acerca do seu interesse e mérito. Não toda, é verdade: mas deixemos democraticamente que quem quiser se expresse, e se sujeite, claro, ao contraditório…

Por isso eu espero pelos tais fóruns de discussão que não quero restritos a quem se dedica à educação. Com uma ressalva: que os que neles entrem não combatam factos com opiniões!

Como modesta contribuição para o debate, vou tentar em futuros posts evidenciar alguns pontos quentes da discussão actual.

2006/06/25

A educação em debate (1)


Imprensa, rádio, televisão, blogs, têm nas últimas semanas acolhido um número invulgar de notícias e comentários sobre educação. Esta enxurrada de ideias pode vir a ter o mérito de, passadas as primeiras ondas de choque, provocar reflexões menos apaixonadas que sirvam para a elaboração de uma agenda que contribua para uma renovação do processo educativo em Portugal.

Neste momento, pode ser difícil aos professores serem serenos – mas nunca deveria ter sido ou ser ocasião para perderem a dignidade. Ainda há poucos anos recordo-me que num inquérito à escala nacional os professores apareciam muito bem cotados na opinião pública entre diferentes profissionais. Às referências infelizes da Ministra da Educação deveriam ter sabido responder com altivez e não com as armas do arsenal sindicalista e da má criação. Costuma dizer-se que quem não deve, não teme: pessoalmente, sempre me incomodei muito pouco com o que potencialmente pudesse ser argumentado contra mim, profissionalmente ou em qualquer outra área, se tivesse a minha consciência tranquila.

Mas regresso ao período inicial. Pode acontecer que todo este alarido venha a ter como feliz consequência que os reais problemas da educação possam vir a ser discutidos não na praça pública, como agora são, mas nos fóruns próprios – e onde, quer queiram os comentadores iluminados quer não queiram, têm de estar os que se têm dedicado às ciências da educação. Não para proclamarem as suas verdades como únicas, mas para fundamentarem o que sabem ser certo ou o que pensam dever ser melhor para a escola portuguesa. E, de algum modo também, para terem o direito de defesa!

Seria insensato dizer que tudo o que tem sido escrito, mesmo sob a influência de uma espécie de ódio incompreensível, é errado ou não merece consideração. Tão insensato como aceitar que esse tudo é integralmente correcto.

Deixemos pois assentar as águas. Esperemos que as decisões a ser tomadas pela Ministra acabem por ser aceites por quem tem de as executar – e para isso a própria Ministra não deve deixar de escutar razões e interrogar-se sobre elas.

Os próximos meses vão ser cruciais, mas as coisas hão-de melhorar. Preparemo-nos para, nessa altura, arrumar ideias e se possível a própria casa.

2006/06/20

Fraude, copianço…


O estudo que foi divulgado no domingo pelo Diário de Notícias não é muito surpreendente, se bem que “copiar nos exames” implique que quem elabora os exames “colabore”, de algum modo, com quem use o processo para ter uma classificação aceitável. De facto, um exame pode ser sempre elaborado de tal forma que minimize o “copianço”…

Mas esta notícia fez-me recuar uns quarenta e tal anos, quando o país soube com espanto de uma fraude cometida nos exames (julgo que do então 7º ano) no Liceu de Lamego, uma fraude que deu brado pelo seu ineditismo e, ao mesmo tempo, por que não dizê-lo, pela engenho revelado.

Tanto quanto a minha memória guarda, apareceu em Lamego um jovem, acompanhado por um irmão, para fazer alguns exames. Instalaram-se ambos numa Pensão. O rapaz trazia um enorme penso a cobrir um dos ouvidos, esclarecendo a toda a gente, sobretudo os colegas, que tivera um acidente, o que, evidentemente, até lhe terá valido uma dose grande de simpatia…

Ora bem, na altura de um dos exames, creio que de Matemática, um rádio-amador local detectou uma conversa estranha que momentos depois depreendeu ser a propósito da resolução de problemas de um exame. Tirando-se dos seus cuidados, foi ao Liceu, contou o que ouvira e não foi difícil ao Reitor (creio) perceber, ainda que espantado, o que se passava.

O jovem não tivera acidente algum, simplesmente o ouvido entrapado ocultava um emissor-receptor rádio; em casa, a algumas centenas de metros, o irmão do jovem tinha sido posto ao corrente do enunciado do exercício e, mais conhecedor da matéria, resolvia os exercícios e comunicava as soluções ao examinando.

Claro que descoberto o estratagema foi tudo por água abaixo, não me recordando agora se para além da perda do ano houve sanções mais graves para o prevaricador.

De qualquer modo, e tendo em atenção que tudo isto se passou há mais de quarenta anos, não se pode dizer que estávamos tecnologicamente muito atrasados…

Tenho mais um episódio de exames e de fraudes para contar, mas fica para depois…

O nosso feitio …


Quanto mais leio Eça maior respeito tenho pela sua argúcia na leitura do país e na maneira como nos transmitiu, com uma ironia fina, o seu pensamento. Recordo com frequência trechos que quase sei de cor quando os posso aplicar ao que vai acontecendo agora neste país. E ontem, dei por mim a recordar um trecho de Os Maias, uma troca de palavras entre Carlos e Cruges quando se dirigiam a Sintra. É este:

- Ninguém faz nada, disse Carlos espreguiçando-se. Tu, por exemplo, que fazes?
Cruges, depois de um silêncio, rosnou encolhendo os ombros:
- Se eu fizesse uma boa ópera, quem é que ma representava?
- E se o Ega fizesse um belo livro, quem é que lho lia?
O maestro terminou por dizer:
- Isto é um país impossível...


Esta ideia de que vivemos num país impossível é muito actual. Cultivamos com esmero a ideia de que caminhamos (e alegremente!) para o abismo, e qualquer sinal de mudança é desvalorizado, qualquer pequeno êxito é escamoteado. Temos sido inconscientes, sim, mas parece que se começou a perceber que se tinha chegado ao ponto de não evitar mais as decisões difíceis. Não seria tempo também de procurar ser mais optimista do que pessimista? Não seria tempo de deixarmos de pensar que este país é impossível?

2006/06/16

Para pensar


Não vi imagens da manifestação dos professores na televisão. Mas na minha visita quotidiana aos Marretas deparei com esta informação, por uma vez mais séria que brincadeira (título “Belos Exemplos”).
E procurando não cair em demagogia: são estes os professores que se incomodam com a grosseria dos alunos? Que pena mereceriam no elenco daquelas que gostariam que a escola aplicasse aos alunos "execráveis"?