2015/10/05

A República

Bem sei que ontem foi dia de eleições e por isso os jornais de hoje (Público, Diário de Notícias, os que "folheei" via Internet) dedicam páginas e páginas ao evento. Já esperava. Mas lamento que pouca ou nenhuma atenção tenham prestado ao aniversário do movimento que originou a República portuguesa. Desde que tenho lembranças sólidas o 5 de Outubro foi sempre um dia especial. O termo do feriado, uma das maldades do governo que cessa agora funções (sim, porque o próximo vai ser muito diferente), representou já uma ameaça à memória colectiva dos portugueses. Mas o insólito acontece quando o actual Presidente da República decide não comparecer à sessão solene que a Câmara Municipal de Lisboa promove para lembrar a data. Essa decisão desqualifica-o como chefe do Estado. Bem: desqualificado já ele está há muito tempo...

2015/09/25

Descodificando


A mensagem anterior terá sido pouco explícita? Talvez.

Descodificando: ao votar nas próximas eleições legislativas não posso deixar de lembrar as anteriores, o que as provocou, e o que se seguiu. Mas não devo votar como se estivesse nesse passado: o presente é bem diferente, e as diferenças, para o bem e para o mal, constituem o adquirido para que possa julgar estes quatro anos. O meu voto (o de todos) visa o futuro, não o passado e nem sequer o presente. A aposta no futuro tem sempre alguns riscos; em qualquer caso, vale sempre a pena corrê-los se as nossas convicções em relação às propostas dos partidos são fortes, cortando com o constante recurso ao passado para envenenar o presente.

2015/09/22

Apenas uma breve reflexão...


Neste tempo de eleições é sempre importante ter memória. Memória completa, não flutuante como a que me fez criar este blog. Memória ancorada num passado que se procure explicar mas que não cristalize aí: afinal, não se vota pelo passado mas pelo futuro. Um pouco difícil de entender? Talvez.

2014/03/27

E de repente...

... senti desejo em rever o meu blog, há mais de um ano sem qualquer entrada. Primeiro que o encontrasse foi uma tarefa complicada, porque a associação do blog à conta do Google alterou o usual login. Depois, foi mais uma vez o espanto de verificar que, apesar de praticamente desactivado, todas as semanas há leitores que por aqui passam. E resolvi dar uma prova de vida, escrevendo algumas palavras, saindo um pouco da invisibilidade em que a minha situação de "reformado" (que termo horroroso!) me impôs. E que palavras escreverei? Amargas, sem dúvida, porque não há razões para que não sejam: os tempos que correm, praticamente em qualquer dos campos que queiramos considerar, são sombrios. O mundo está perigoso - dizia-se há uns anos, por causa do terrorismo; ele continua perigoso, por vezes com um terrorismo mais refinado porque mudou de armas... Sim, porque até no nosso pacífico Portugal detectamos, aqui e além, verdadeiros actos de terrorismo!

Não sei se este impulso que em trouxe à Memória se repetirá ou não. Oscilo entre ter e não ter vontade de continuar. A ver vamos.

2012/07/23

LICENCIADOS E PROFISSIONAIS


Deixem-me contar como descobri que ser licenciado tem um valor limitado. Em Julho de 1959 obtive a minha licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa e dispus-me a concorrer para professor eventual dos liceus, o que efectivamente concretizei (em Agosto ou Setembro, não me recordo bem). Entretanto recebo um telefonema de uma colega de curso perguntando-me se teria interesse, ainda nessas férias, em trabalhar na Junta de Investigações do Ultramar (JIU), numa situação de “tarefeiro” (nesses recuados tempos não havia recibos verdes…).

Claro que disse que sim e dentro de alguns dias fui convocado a comparecer na Junqueira, no palácio Burnay, onde estava sediada a JIU. Foi-me explicado o que me seria pedido: organizar um ficheiro dos mapas referenciados em diversas obras (incluindo leilões) para a secção de cartografia antiga. Trabalho sem complicações.

Entretanto, apareceu o responsável pelo sector (o “posto” nunca cheguei a perceber bem qual era), o Dr. Zeferino Ferreira Paulo, e a primeira pergunta que me fez foi: “Então, o que é que sabe fazer?” E eu, muito ancho da recente licenciatura, obtida ao cabo de quatro anos de estudos e de mais um para elaborar uma tese de 300 páginas e um volume com mais de cem fotografias e desenhos, respondi: “Sou licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas!” Creio que vi nele uma cara de gozo quando retorquiu “Isso não prova que saiba fazer alguma coisa! Ser licenciado não é um modo de vida!”

Aí ruiu a minha jactância e devo ter titubeado qualquer coisa que, de facto, não posso reconstituir. Tinham-me dado uma lição – e aprendi-a. Quando em Outubro fui colocado no Liceu de Santarém, assumi que ia ter a minha profissão a sério e como profissional me comportei.