2005/11/29

Professores?


No caminho para a Universidade, embora curto, oiço como habitualmente a TSF. Hoje, em vez do António Peres Metelo, escuto uma reportagem sobre uma greve de professores de um (ou do, não percebi) agrupamento de escolas de Paço d’Arcos. Motivo? O prolongamento do horário escolar. Uma professora, madrugadora, presta declarações. À medida que fala, começo a desconfiar: professora? Para ela, é óptimo que os meninos fiquem mais tempo na escola para “actividades extra-curriculares”, como o xadrez, o desporto, o Inglês (nesta altura repara que escorregou e tenta reparar os danos). Mas tudo dado por “monitores”, porque os professores apenas têm de preparar as lições e não estarem com os meninos fora das aulas, em actividades para as quais não têm preparação. Oh sacrossantas aulas! Oh sacrossanta “componente lectiva” (quem terá inventado esta termo?)!
O seu discurso é apoiado depois por uma senhora do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa que refere o grande exemplo deste agrupamento: que o país ponha os olhos em Paço d’Arcos porque ali estão os que lutam pela dignidade profissional.

Tudo bem, a greve é um direito, que o exerçam. Mas por favor, não com argumentos que só se voltam contra, essa sim, dignidade profissional de que se deveriam orgulhar. Ainda temos, infelizmente, muito caminho a percorrer para que se perceba qual é o verdadeiro papel dos professores nos dias de hoje.

2005/11/28

Pessimismo

No passado sábado fui até Monção para escutar uma conferência de João Medina intitulada “Zé Povinho: estereótipo português? (Reflexão sobre a identidade nacional)”. Tinha interesse em conhecê-lo pessoalmente e o tema pareceu-me interessante. No âmbito das aulas deste semestre o problema da identidade nacional já foi debatido com os meus alunos e estava curioso em ouvir o Professor Medina. A minha expectativa não foi iludida, a conferência foi excelente, partindo de uma análise que considero lúcida sobre características nacionais que se vão mantendo ao longo dos anos e que, de algum modo, parecem justificar a “apagada e vil tristeza” que já Camões denunciava: apatia, indiferença, descrença, o imobilismo de quem tem as mãos nas algibeiras porque desistiu de lutar porque sempre foi espezinhado, “albardado” na simbologia da albarda que jaz aos pés da figura imortalizada por Rafael Bordalo Pinheiro.
Recuso, contudo, apesar de tudo o que se tem passado e, confesso, tem abalado um pouco o meu inveterado optimismo (talvez mais crença do que outra coisa), a afundar-me num pessimismo de “fim da Pátria” que de algum modo João Medina deixa transparecer. Se todos os dias tenho dez momentos de desânimo encontro sempre um outro momento para acreditar. Dir-me-ão que a desproporção é enorme – e infelizmente é. Mas não desarmo: quero continuar a ser optimista.

Nota: Para quem não saiba há em Monção uma Casa Museu que é uma unidade cultural da Universidade do Minho, legado de uma benfeitora que quis assim preservar os seus bens, alguns de grande valor, que constituem o recheio do solar. Na parte inferior existe uma sala de conferências e um pequeno espaço para exposições. Vale a pena a visita!

2005/11/25

As armas em boas mãos...


Quem viveu os tempos do PREC (curioso, hoje é 25 de Novembro, posso recuperar a memória de há trinta anos…) recorda-se certamente das armas desaparecidas que “estavam em boas mãos”. Pois hoje de manhã, ao ouvir a TSF, lembrei-me disso, quando ouvi a declaração de um morador do Bairro Santos, em Lisboa, comentando o regresso a casa de Carlos Silvino, libertado depois de três anos de prisão preventiva e que em sido alvo de ameaças de morte. Dizia esse morador que estava preocupado com o seu regresso, porque “aqui quase toda a gente tem em casa uma fusca”. Insinuando, assim, que o tiro ao alvo pode acontecer. Quase toda a gente?! E não gritamos por socorro?

2005/11/23

O politicamente correcto…


Embora em natural desuso, o “politicamente correcto” ainda tem os seus cultores. Devo dizer que não me afecta que se faça um esforço por limitar, no discurso, termos ou frases que possam ser consideradas pouco abonatórias no contexto social no qual se vive. Muito recentemente, assistiu-se entre nós a um reavivar do politicamente correcto que me deixou divertido.

Não sei se repararam que há umas semanas começou a passar na rádio (e na televisão, também) um anúncio no qual se quer dar relevo a um acesso à Internet mais barato. O anúncio desenvolve-se em diálogo por um casal, e inicialmente o homem (presumível marido) tenta explicar à mulher as vantagens da adesão a esse produto, mas a senhora parece não as atingir e, no fim, exclama com uma voz (e cara) sugestiva: “Olha, explica-me como se eu fosse muito burra!”

Bom, com certeza havia quem sorrisse (eu sorri!) mas deve ter havido alguém que não sorriu e disparou a favor do “politicamente correcto”. Podia lá ser estar a desfrutar o género feminino? Então, as mulheres têm de ser estúpidas?

E aconteceu o que se viu: após alguns dias com este anúncio, aparece um outro simétrico, no qual é a mulher que tenta explicar ao homem as vantagens do novo acesso, e é o homem que, no fim, confessa: “Olha, explica-me como se eu fosse muito burro!”.

Eu continuei a sorrir, mas ao mesmo tempo a pensar o que teria acontecido para esta mudança – e cheguei à conclusão que acabei de expor. Mas mesmo que não fosse assim, ou seja, mesmo que o publicista tivesse imaginado os dois anúncios e apresentá-los com esta sequência, ou alterná-los, o efeito era o mesmo: eis o politicamente correcto em todo o seu esplendor.

Não tenho nada contra que se policie a linguagem, mas faz-me confusão tudo o que é excessivo. Denegrir sistematicamente a mulher só porque é mulher é censurável. Como é censurável denegrir os alentejanos com as anedotas que para eles se criaram. Mas pesemos as coisas com calma. Não me parece que o anúncio fosse chauvinista porque o objecto é uma mulher e deixe de o ser porque passa a ser homem… Ou então, têm de me explicar isso como se eu fosse “muito burro”…

2005/11/22

Os Prós e Contras de ontem


Já uma vez referi que Prós e Contras é um dos programas normalmente com interesse da nossa televisão. O de ontem foi interessante por pôr frente a frente (sem com isso significar em posição de combate…) o ex-ministro David Justino e a actual ministra Maria de Lurdes Rodrigues, e por ter um homem lúcido e conhecedor dos problemas da educação (António Nóvoa) e uma professora excelente, como a própria informou em final de programa, a Drª Amélia Pais. Ah! E os representantes dos Sindicatos, e das associações de pais. E muito público, a dividir as suas palmas conforme as ocasiões…

Gostei de ver um David Justino sem a sobranceria de quando era ministro (que me perdoe, mas era como o via) e a dialogar serenamente. Já se sabia que não gosta de pactos, mas o nome pouco importa; o que temos de gostar é que sejam possíveis consensos (mas atenção, porque não é possível deixar toda a ideologia de fora).

Gostei de ver a Ministra a confessar que é energética (que não se canse, porque é bem preciso) e sobretudo a dizer que não se pode perder tempo. Aprendi a importância disso com o Prof. Veiga Simão e concordo plenamente. Penso que ela já percebeu que as aulas de substitução não deviam ser aulas de substituição mas tempos para actividades a ser organizadas pelas escolas tendo em vista o projecto curricular da turma em questão (não posso aqui desenvolver como isso poderia ser feito, mas pode).

Claro que gostei do António Nóvoa, primeiro porque quase sempre estou de acordo com ele (e certamente ele está de acordo comigo). Há quanto tempo todos nós percebemos que a escola tem de mudar (sem perda de tempo!), que mesmo no final do século XX ela devia já ter mudado (e já há algumas que mudaram). Há quanto tempo defendo que as escolas têm de assumir a sua autonomia com total responsabilidade, ou que a escola tem de pensar em processos de ensino-aprendizagem mais diversificados, tendo em atenção a individualidade de cada aluno sem perder de vista a capacidade de um trabalho cooperativo essencial.

E também achei interessante a vivacidade da professora Amélia Pais, que retratou bem o que muitos professores são em relação ao Ministério: sempre críticos, sempre à defesa e por vezes com falhas no ataque (aquela do “recambiar” professores para o Ministério da Cultura saiu muito ao lado da baliza…)

Falou-se de muita coisa e ficou muito por dizer. Penso mesmo que se falou pouco dos alunos, das aprendizagens que devem ser conseguidas na escola, e como é evidente dos papéis que os professores têm hoje de desempenhar, que são diferentes dos de ontem (ao referir a formação de professores o António Nóvoa levantou o problema mas não o caracterizou).

Fico à espera de um novo programa para desenvolver o que foi esquecido.

Ah! Reparo que não referi os participantes sindicalistas e o representante das associações de pais. Iguais ao que costumam ser, até nas diferenças…