2005/01/31

Ensino superior: Universidades e Politécnicos



Mais dia, menos dia, há que tomar decisões sobre um problema que tem de ser resolvido, porque o estado do país não permite que se continue à espera do que nunca acontecerá por si. Bolonha (leia-se: o processo, e mais, a discussão e a necessidade de reformular o ensino superior) seria (será?) a oportunidade. Estive envolvido (posso dizê-lo: muito envolvido) no processo de implementação do ensino superior politécnico nos anos 80 do século passado. Fiz parte da comissão instaladora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Faro, na situação de professor coordenador; quando em 1988, por deliberação governamental, a Universidade do Algarve e o Instituto Politécnico se uniram, fiz ainda, por escassos meses, parte da sua comissão instaladora. Depois de um interregno de três anos e meio, nos quais obtive o doutoramento, regressei ao Algarve; mas tempos depois, com o acordo do Reitor (na altura o Prof. Montalvão Marques), fui contratado como professor convidado (equiparado a professor associado) na Universidade do Minho, onde me encontro hoje na situação de professor catedrático, depois de prestar provas de agregação.

Conheço, pois, os dois subsistemas, e sei sobretudo o que inicialmente a grande maioria dos responsáveis pelos Institutos Politécnicos (e ainda mais os responsáveis das escolas superiores de educação) pensava acerca dessas instituições. A sua finalidade era proporcionar a formação de quadros intermédios – e daí a designação de “bacharel” por oposição a “licenciado”. Quadros intermédios que o país carecia (e carece) em muitas áreas, de empregabilidade mais ou menos garantida. Como eu gostava de dizer, um Politécnico devia ser vocacionado para a região, enquanto a Universidade nunca deve pensar apenas regionalmente.

Por muitas razões, esta ideia que era consensual, foi-se perdendo, e hoje os Politécnicos querem ser Universidades (existem excepções, claro). A proliferação de escolas superiores em Portugal já é preocupante; o upgrade dos Politécnicos a Universidades (perdoem-me a linguagem informática…) elevaria essa preocupação à zona do alarme. Por isso disse que Bolonha pode ser uma oportunidade para resolver o problema.

Voltarei a escrever sobre este tema, com mais vagar.

4 comentários:

homoclinica disse...

Eu continuo a achar que faz falta um ensino intermédio, como o politécnico tem sido.
Quais as razões que levam alguns a querer passar de politécnico a universitário? Que eu saiba, o motivo principal é o facto de os politécnicos não poderem conceder mestrados e doutoramentos. Gostaria de ser esclarecida se há razões mais fortes. Alguns professores que neste momento são co-orientadores de doutoramentos, só o podem fazer nas universidades.
Talvez também uma questão de vaidade por se considerar que uma universidade tem mais prestígio.
Mas será isto razão suficiente? Estão os interesses dos alunos, dos cidadãos, do País a ser defendidos?
Sem um ensino intermédio ficaremos melhor?
Bolonha vai resolver este problema?

Varela de Freitas disse...

As perguntas que faz são pertinentes mas as respostas não são fáceis. Tenciono escrever mais sobre o assunto, mas muito brevemente dir-lhe-ei que estou inteiramente de acordo consigo, um ensino superior intermédio faz falta - e esse ensino é o politécnico. Ora bem: se o politécnico passasse a conceder doutoramentos (mestrados, de algum modo já pode, em parceria com universidades) em que é que se distinguiria da universidade? O problema, penso, não tem que ver com o prestígio mas com o campo de acção, ou seja, em muitas áreas, a investigação (que é, ou deve ser, o "caldo de cultura" para os doutoramentos) só pode ser desenvolvida nas universidades. Perguntar-me-á: no politécnico não pode haver investigação? Pode, em certo sentido deve, mas para ter a mesma dimensão que existe na universidade teria de investir muito mais e... caímos na mesma questão, se o politécnico fizer o mesmo que a universidade, qual a distinção?
Finalmente, Bolonha (só por si) nada poderá resolver; mas a reflexão que está a ser feita talvez sugira aos responsáveis respostas.

LN disse...

Comentário mais interrogado que afirmado, mas o tema é tentador:
- o "ensino intermédio" de que fala é ensino superior? o que é feito do ensino profissional?
- falar de vocação regional é uma coisa; de correcção de assimetrias regionais outra - e «pensar localmente» é algo «do» Politécnico? como é que isto se encaixa na globalização?
- o «academic drift» dos Politécnicos coloca-se a par do «professional drift» das Universidades: porque será que só se fala de um dos lados?
E sem me pôr «em bicos de pés», que nem me parece adequado, julgo que a questão se prende também com públicos...Ah, e acho que algum impedimento ao desenvolvimento do Politécnico vem da restrição de acesso aos graus. Mas não só...

Um dia bom.

Varela de Freitas disse...

À atenção de LN

O tema é de facto tentador, como diz. Nunca esperarei que haja unanimidade em relação aos meus pontos de vista – e felizmente! Por isso agradeço a quem dissente deles e apresente argumentos. Este vai-vem é uma das riquezas dos blogs, creio. Porque voltarei ao assunto, apenas comento o seu comentário precisando os meus pontos. Assim: ensino intermédio entendo-o como ensino pós-secundário (portanto superior) mas na versão “curta” (aliás, na reforma Veiga Simão existia a expressão “ensino superior curto”). O ensino profissional entendo-o como um ensino a nível secundário, com saídas para o mundo de trabalho menos exigentes do que as proporcionadas pelo ensino superior (curto).
Quanto à Universidade ter vocação nacional e os Politécnicos terem vocação regional, direi que o próprio conceito de Universidade como que impõe não só uma vocação nacional mas até supranacional. O que não quer dizer que algumas valências “regionais” se justifiquem (por exemplo, Ciências do Mar e do Ambiente na Universidade do Algarve). Um aluno de Bragança que queira ter o curso de Biologia Marinha e Pescas terá de ir para o Algarve. Tendo em atenção as necessidades de emprego a nível local, os Politécnicos estão mais bem colocados para servir as populações, com escolas e cursos precisos (recordo que nos anos 70 se criou o Instituto Politécnico da Covilhã por causa da área dos têxteis). Dir-me-á – com razão – que a “globalização” começa a alterar os quadros existentes. Pois bem: equacione-se o problema e decida-se se se quer manter um sistema binário ou não, se se querem Politécnicos a imitar Universidades (e sabe-se lá se por vezes Universidades a imitar Politécnicos…). Uma última nota: eu não sou contra os Politécnicos (tenho muita honra em ter estado num e nele ter ajudado a fundar uma Escola); sou contra a sua desnaturação. Mas voltarei ao assunto.
Agradeço-lhe a sua contribuição, que muito apreciei.