2019/12/20

Ciências da Educação?


FNAC Colombo, repleta de potenciais compradores nesta época natalícia – sendo eu um deles.  Deambulo na livraria, avaliando as ofertas que me são feitas nos expositores. A dada altura, deparo com o sector das “Ciências da Educação”. Isto interessa-me. Vejo os livros expostos. Atente-se nos títulos de apenas alguns (omito deliberadamente nomes de autores). Livro de Reclamações das Crianças, Educar com um Sorriso, Deixe-o Crescer ou o seu Filho será um Bonsai em vez de uma Árvore Forte, Adolescer é Fácil 3 # Só que não, Porque (sic) não Largas o Telemóvel e Aprendes Qualquer Coisa para Variar? No expositor ao lado encontrava-se, como por acaso, o livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman, numa edição da Bertrand de 2010.

Nada tenho contra os livros que referi – apenas me confrange que eles apareçam como sendo livros que caibam no sector reservado para as ciências da educação. Será que pessoas responsáveis pensam mesmo que as ciências da educação dão cobertura a tudo o que se escreve sobre educação? E mais não digo.

2019/12/09

Para além do PISA 2018


A divulgação dos resultados do PISA 2018 proporcionou, como tem sido habitual nas anteriores apresentações, reacções diversas. Não dou grande importância aos resultados, porque num projecto desta envergadura, envolvendo alunos de 79 países muito diferentes entre si (cerca de 600 000 num universo de 32 000 000, ou seja, uma amostra de cerca de 2%), as probabilidades de ocorrerem erros são grandes (aliás isso é assumido no estudo). Contudo, atendendo a que o PISA tem já uma história e é possível detectarmos tendências nos resultados (subidas, descidas, estagnações), vale a pena determo-nos na sua análise.


Se é patético vermos ministro e ex-ministro quererem ser “vencedores” face aos resultados, é razoável que responsáveis pela educação no país assinalem as curvas que no gráfico mostram uma melhoria.

2019/10/18

"Traz o desastre!"

Há muitos anos (sessenta? pouco mais, pouco menos) era possível, devido a um conjunto de circunstâncias que hoje não existem - a saber: os jogos de futebol dos seniores eram realizados todos ao mesmo tempo aos domingos à tarde; todos os jornais, matutinos e vespertinos, publicavam-se aos domingos - ao fim da tarde, era vulgar em Lisboa ouvirem-se os pregões dos ardinas anunciando que tinham o Popular e o Lisboa... Ocasionalmente, gritavam, para ver se vendiam mais exemplares; "Traz o desastre!".

O desastre era, normalmente, uma derrota inesperada ou vergonhosa do Benfica ou do Sporting - que também as havia por esses tempos.

Hoje a minha memória restituiu esse pregão, hoje impossível, porque já não há jornais e ardinas a correr em Lisboa. Mas lá que houve desastre, lá isso houve...

Nota para quem ler este post muito depois da data de hoje, 18 de Outubro de 2019: 

Resultado do desafio de futebol de ontem (Taça de Portugal): Alverca 2 - Sporting 0

2019/07/29

Recordando…



Há  sessenta  anos, no dia 29 de Julho  de 1959, completei a  licenciatura  em  Ciências  Históricas  e Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a defesa da tese que para o efeito elaborara: A arqueologia do  concelho  de Torres Vedras. Contribuição para o seu estudo até à época Lusitano-Romana. Era o  primeiro  final  da  minha  vida escolar – voltaria à escola mais vezes – mas esse primeiro passo ficou bem gravado na minha memória.

Para quem não saiba – e muitos não saberão – vou dizer em que consistia uma licenciatura nesses anos 50 do século XX. A entrada na Universidade dependia da aprovação de um dos cursos terminais do ensino liceal, de sete anos, que estavam agrupados em alíneas. A alínea d) era a que conduziria ao curso que eu escolhera, a alínea e) dava acesso a Direito e a f) aos muitos cursos da Faculdade Ciências ou Engenharias. Quem obtivesse a média de 14 valores, entrava directamente na Universidade; quem não a alcançasse teria de fazer um exame de admissão.

No caso do meu curso, ele consistia em quatro anos de “cadeiras”, como se dizia então, umas anuais, outras semestrais. Ao todo eram 26 – 13 de matérias de História e 13 de matérias de Filosofia. Todas elas tinham exames de frequência e final – provas escritas, as orais eram muito raras – e havia uma época de recurso para quem reprovasse no final do ano (ou quisesse melhoria de nota). Terminadas todas as cadeiras com aprovação, o aluno teria, para obter o grau de licenciado, de elaborar uma tese original com tema de sua escolha e defendê-la perante um júri que tinha, alem disso, a tarefa de interrogar oralmente o candidato em quatro matérias: História de Portugal, História das Civilizações, História da Filosofia Moderna e Contemporânea e Psicologia. Havia ainda uma prova escrita prévia de Lógica…

Depois dos quatro anos do curso, o ano seguinte era reservado para a elaboração da tese e preparação dos exames. Em rigor, quem quisesse poderia requerer o exame no 4º ano, mas como se compreende era uma tarefa muito difícil, ainda que não impossível: o Doutor Oliveira Marques fê-lo (creio que em 1958). Eu nem sequer considerei a hipótese! O tema da tese que escolhi exigia muito trabalho no exterior, quer em museus, colecções particulares, quer em bibliotecas e mesmo em trabalho de campo. Eu tinha-me rendido à arqueologia pré-histórica e por isso procurei fazer um trabalho exaustivo, que acabou por ficar materializado em dois grossos volumes – um de texto e outro de gravuras, o primeiro com 294 páginas e o segundo com 99.


Foi precisamente há sessenta anos, neste dia 29, que defendi a minha tese. O arguente foi o Prof. Manuel Heleno, que era o professor catedrático da área, e as coisas correram bem, sendo menores as objecções feitas ao que escrevera. O resultado não correspondeu inteiramente ao que desejava, mas a culpa não foi da tese, mas de uma prova que me correu francamente mal, a de História de Portugal. Não quero desculpar-me, mas a Professora Virgínia Rau devia ter dormido mal na noite anterior e resolveu brindar-me com questões que me deixaram literalmente a “ver navios”… Em suma, tive 14 valores como nota final de licenciatura.

Mesmo assim festejei. Alcançara o diploma que me permitiria trabalhar como professor. Mas acalentava, confesso, a possibilidade de continuar a estudar e evoluir em arqueologia. Tal não aconteceu – são outras histórias que nem vale a pena recordar aqui. Dois meses depois, iniciava a minha carreira como professor no Liceu Nacional de Santarém. A arqueologia continuou a ser um hobby, durante alguns anos, e depois foi substituída pelo empenho total nas coisas da educação.  

Perdoe-se-me esta evocação muito pessoal. Mas sessenta anos é mesmo muito tempo, e os velhotes gostam destas coisas…