2005/06/29

“Ask not what your country can do for you; ask what you can do for your country” (J. F. Kennedy, 1961)

Quando Kennedy fez o seu discurso de posse, em Janeiro de 1961, sintetizou na frase que encima este texto um lema verdadeiramente exemplar para um imenso país no qual, apesar das enormes diferenças que separam as pessoas (diferenças de toda a ordem: económicas, sociais, culturais, religiosas) há um sentimento nacional muito forte, no qual a bandeira e o hino são os elementos externos visíveis e omnipresentes. Eu era na altura um jovem professor no Liceu da Horta (ilha do Faial), com pouca informação disponível para além da rádio e de dois pequenos jornais locais (o Telégrafo e o Correio da Horta). Só de vez em quando me chegavam de Lisboa alguns jornais, sempre com grande atraso. Recordo-me mesmo assim de ler o relato desse discurso e da impressão que me fez. Esse ano, como muitos se lembram, ficou ligado ao começo real da guerra nas ex-colónias, ao assalto ao Santa Maria, e àquela anedota que consistia em mostrar num papelinho, escrito à mão, o ano (I96I), rodar o papelinho 90 graus e, perante o mesmo ano (I96I) dizer com voz cúmplice: “Agora é que isto vira!” Isto: era a situação, o Salazarismo, a censura… E eu pensava: “o que posso eu fazer pelo meu país?” E nessa altura entrechocavam-se pensamentos complicados: “Ir para Angola já, em força, é fazer algo pela Pátria?” ou “Não seria fazer mais pela Pátria ajudar a nascer em África outros Brasis?”

Ao longo da vida, tenho em muitas ocasiões relembrado esta frase preciosa. Muitas ocasiões, de facto, porque infelizmente, parece que em Portugal o patriotismo se resume a querer que se seja campeão de futebol (ou qualquer outro desporto) mas raramente as pessoas deixam de pensar primeiro em si e só depois na Pátria. Há excepções, claro. Mas excepções.

Tudo isto vem a propósito dos tempos que correm. Portugal está a viver uma crise financeira, ou melhor, económica e financeira, praticamente desde os começos do século. Não sou competente para discorrer sobre as origens da crise mas sou suficientemente competente para perceber que ela existe e as razões por que é difícil sair dela. Não vale a pena argumentar com ideologias. De direita ou de esquerda qualquer pessoa lúcida compreende que o Estado, enquanto tal, se tornou um sorvedouro de dinheiro e um gastador impenitente. Julgo que a embriaguês dos ecus e depois dos euros vindos de Bruxelas turvaram as mentes. Porventura a minha também. Não conseguimos aproveitar bem a cornucópia das benesses, a não ser para conseguir entrar no euro (e ainda bem, apesar de tudo).

Não me interessa culpar ninguém, porque isso não resolve a situação. O que me interessa é exactamente que a situação se resolva. Quando em 2002 me disseram que o país estava de tanga, não acreditei verdadeiramente, mas compreendi que iam ser pedidos sacrifícios e dispus-me a eles. O IVA subiu 2 pontos, e durante dois anos não fui aumentado. Esperei que essa austeridade ajudasse, mas não ajudou: três anos depois, apenas tínhamos conseguido piorar. Há novas eleições, e um partido ganha as eleições com maioria absoluta. Nunca escondeu que vinham aí tempos difíceis. O seu líder faz a promessa de não aumentar impostos. Mas algum tempo depois quebra a promessa – e penso que foi a única que não cumpriu, até agora. Teria sido melhor não a fazer? Não sei. É feio mentir, mas seria muito mau que, na situação actual, o governo não tivesse o apoio de uma maioria absoluta.

E chego ao ponto essencial. A divulgação de medidas concretas para reduzir a despesa do Estado afecta naturalmente todos os que dele dependem. São, evidentemente, medidas duras para a maior parte. Mas alguém acredita que não tenham de ser as necessárias? Repare-se, antes das eleições, os críticos antecipavam que não iria haver coragem de tomar medidas por causa da proximidade das eleições autárquicas – e elas estão a ser tomadas, com os riscos inerentes de perda potencial de votos para o partido de governo. Os mais reputados economistas (ainda anteontem, nos “Prós e Contras”, Medina Carreira, Silva Lopes, Ferreira do Amaral e Santos Silva) praticamente convergem dizendo que ainda é pouco e terão de ser pedidos mais sacrifícios no sector da despesa pública. Vamos meter a cabeça na areia, como a avestruz? O país está doente e precisa de cura. E não ajuda a cura pormo-nos em bicos dos pés e proclamar que temos direitos! E os direitos de Portugal, como Nação? Vamos pô-los de parte?

Temos de ser exigentes connosco próprios, aceitar alguns sacrifícios e – naturalmente – ser implacáveis para com os desvios e as fugas, porque os sacrifícios devem tocar a todos. Não temos tempo a perder porque já se perdeu muito tempo. Isso não se compadece com polícias que prometem não policiar, enfermeiros que não cuidam doentes, em suma trabalhadores que decidem não trabalhar. Isto só acontece porque as pessoas pensam que o Estado nunca vai à falência – mas atenção, porque pode chegar-se a uma situação gravíssima se nada se fizer. Por isso, acho que é tempo de todos meditarmos no lema de Kennedy: “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti; pergunta o que podes tu fazer pelo teu país”.

10 comentários:

Luís Aguiar-Conraria disse...

Agradeço-lhe este belo texto. O único aspecto bom desta crise é que todos sabemos quais os problemas que o país enfrenta e o que tem de ser feito para os resolver. Não há grandes discussões possíveis. Está-se numa situação em que só não vê quem não quer ver. Claro que quando nos cortam os privilégios sentimo-nos atacados. E é muito fácil defender cortes orçamentais para os outros e nenhuns para nós. Mas, felizmente, já não podemos fechar os olhos.

Quando há cerca de dois ou três anos Sérgio Rebelo, o melhor economista português (professor na University of Pennsylvania), alertou para a situação portuguesa, comparando-a com a situação da Argentina pré-crise, muitos fecharam os olhos e assobiaram para o lado. As repercussões das suas análises foram pouco mais do que nulas (aliás quem conhece o Sérgio Rebelo? Algum jornal, alguma televisão o tentou entrevistar?). Infelizmente ele tinha razão. As empresas de rating penalizam o nosso país levando a um aumento dos juros da dívida pública, tornando a redução da despesa mais difícil.

Durante a cavalgada Guterrista quantos economistas não alertaram para a falsa consolidação orçamental? Claro que ninguém os quis ouvir e fomos todos a correr votar no Guterres pela segunda vez. Depois, no governo seguinte, a ministra mais impopular era a das Finanças, Manuela Ferreira Leite. Adoramos detestar quem nos diz a verdade. Fechamos os ouvidos, fechamos os olhos, abrimos as bocas e gritamos: OS OUTROS QUE PAGUEM A CRISE!!

Como disse, felizmente, já não podemos fechar os olhos.

SaltaPocinhas disse...

Também gosto muito dessa frase do Kennedy (se calhar até a li na maria, ihihih). todos deviam ouvi-la e ficar a pensar nela.
Também vi o prós e contras, mas sabes o que me estava a passar pela cabeça nessa altura. Era o seguinte: quanto receberão de reforma estes senhores??
Eu concordo que se façam sacrifícios, mas têm mesmo de ser TODOS e não sempre os mesmos!
Hoje no Jornal da noite "descobriram que os nossos deputados são dos que ganham menos. Menos que eles só os espanhóis(!!). E se fossem comparar os ordenados de todas as pessoas que trabalham para o estado?? Em que lugar ficariam os professores??

Luís Aguiar-Conraria disse...

Respondendo a' Saltapocinhas.
Comparativamente com os restantes paises da Uniao Europeia, a classe dos professores e' muito bem paga. E' provavelmente uma das classes mais bem pagas em Portugal. Se quiseres numeros exactos deveras consultar a publicacao da OCDE "Education at a Glance" de 2004. Se quiseres ver apenas um pequeno resumo, penso que, ha' poucas semanas, o blogue "Canhoto" teve umas tabelas ilustrativas.

Luís Aguiar-Conraria disse...

Para terminar o comentario, deixo aqui o link para o 'post' que referi:
http://ocanhoto.blogspot.com/2005/06/propsito-de-progresses-automticas.html

O post foi escrito noutro contexto, sobre as progressoes automaticas, masnao deixa de ser um indicador. Para numeros mais exactos e' procurar a publicacao da OCDE.

SaltaPocinhas disse...

Luís: Obrigada pelo link, assim que puder vou lá ver.Mas, "nem só de pão vive o homem". Será que lá também há professores contratados anos e anos sem nunca chegarem a efectivos e sempre a dezenas ou centenas de quilómetros de casa?
é isso que mete raiva nestes sindicatos: só pensam em dinheiro!!E há coisas mais importantes para resolver!

Luís Aguiar-Conraria disse...

Concordo completamente contigo. Parece-me que o metodo melhor, e mais facil, para resolver essa questao de os profs andarem de casa as costas durante anos e ans (as vezes dezenas de anos!!) seria dar autonomia as Esclas para contrarem os seus professores, que passavam a fazer parte do quadro das ESclas e nao do Ministerio. Um pouco a' semlhanca o que se passa nas Universidades. Mas sempre que falo nisto a um professor, e penso que com os sindicatos se passa o mesmo..., e" um "Ai Jesus que isto nao pode ser que vem ai as cunhas e os traficos de influencia"!

Luís Aguiar-Conraria disse...

Esclas = Escolas

Miguel Pinto disse...

O Luís é um defensor da autonomia pedagógica e organizacional? É isso?

Varela de Freitas disse...

Vai boa a conversa! Logo em dias em que estou "afogado" em trabalho. Mas para além de agradecer a animação, gostaria de antecipar a minha opinião, que poderei desenvolver mais tarde, sobre dois pontos levantados. Primeiro: é verdade que em termos de vencimento os professores estão hoje relativamente bem situados. Basta ver, no último dia do mês, a lista das aposentações dos diversos Ministérios e compará-las. Segundo: o Luís põe o dedo na ferida quanto às colocações dos professores. Há anos que digo o mesmo. O sistema que temos é verdadeiramente inconcebível, julgo que todos estão de acordo menos os que já se acomodaram, mas a maior parte tem medo de assumir responsabilidades. Admito que, no caso de decidirmos por um sistema de contratação local aqui e além irão surgir problemas, mas não é a democracia o sistema que melhor controla a corrupção? (Não estou a ser cínico: um conselho local de educação democrático não pode deixar que aconteçam vigarices).

Luís Aguiar-Conraria disse...

Autonomia pedagogica e organizacional?

Organizacional, sim. Nao tenho duvidas em relacao a isso, desde que nao se violam principios que considero sagrados, como a universalidade do Ensino, por exemplo. Uma escola nao pode recusar maus alunos apenas para aparecer bem classificada nos rankings nacionais, como fazem algumas privadas. Ou seja tera sempre de haver limites a essa autonomia.

Autonomia pedagogica... Essa ainda e' complicada. A' partida sou pelas autonomias e flexibilidades, mas nunca pensei seriamente neste assunto.