2005/04/24

Voltando a falar de manuais


Já aqui deixei no passado algumas ideias sobre manuais, a propósito da notícia da revogação do despacho da anterior Ministra da Educação sobre as trocas de livros escolares nas escolas. O novo despacho foi publicado no Diário da República do dia 22 (leia aqui na totalidade) e considero as razões invocadas claramente expostas e pertinentes:

Não atendeu (o despacho anterior) a que, por razões pedagógicas, os alunos necessitam de se manter na posse dos manuais, pelo menos, no início do ano lectivo seguinte e geralmente ao longo de todo o ciclo. Não ponderou as dificuldades resultantes da adopção de manuais diferentes em anos consecutivos, nem considerou a impossibilidade de controlar a efectiva entrega dos manuais usados pelos alunos que mudem de escola, particularmente no 6º ano, ou que deixem de beneficiar do regime em virtude de terem concluído o ensino básico. Remeteu para as escolas a aplicação de um mecanismo pesado que a larga maioria não está em condições físicas ou funcionais de assegurar e que poderia prejudicar outros aspectos do seu funcionamento.

Agora, resta esperar por novas medidas que, de acordo com o mesmo despacho, devem ser propostas pelo Secretário de Estado Adjunto até ao próximo mês de Outubro.

Mas o meu regresso ao assunto tem muito a ver com uma discussão que ocorre noutros blogs, iniciada nas Fábulas, noutro registo, porque refere sobretudo o exagero do número de manuais que são enviados às escolas para que estas decidam quais adoptar para o próximo ano lectivo, e ao mesmo tempo apontando o dedo à qualidade de alguns e o preço excessivo de quase todos.

O que vou dizer a seguir é certamente polémico e aceito desde já todas as críticas que antecipo me venham a ser dirigidas.

Os manuais são apenas um dos muitos recursos que o professor e alunos dispõem para a aprendizagem. Eles podem mesmo não existir. Para muitos professores, os livros de texto funcionam como um catecismo, e não como um elemento que sirva para os alunos obterem informação, claro, mas exercitarem, também, a sua capacidade de análise crítica e desenvolvimento de um pensamento independente e criativo.

É verdade que os manuais têm evoluído bastante e alguns procuram dar resposta a esta exigência pedagógica, mas compete ao professor, e não ao manual, decidir como deve orientar o processo de ensino-aprendizagem dos seus alunos. Ora os manuais acabam por ser os instrumentos que organizam o currículo, quando tal deveria ser tarefa dos professores.

Curiosamente, na edição de ontem do Expresso (como se sabe, indisponível on-line). António Brotas publica um artigo, “Sobre o ensino da filosofia”, em que de passagem fala de manuais. E referindo-se a um seu professor de História (que haveria de ser depois docente da Faculdade Letras de Lisboa, com obra de envergadura no campo da Lógica, Edmundo Corvelo), escreveu:

O professor [de História] Edmundo Corvelo … não tinha adoptado nenhum livro. Em vez disso convenceu o director a abrir aos alunos a biblioteca do Colégio Militar onde, até à data, não tinham acesso. Também não seguiu, que eu tenha notado, qualquer programa. Distribuía-nos temas que preparávamos e, depois, éramos nós que dávamos as aulas (nalguns casos, em francês).

Eu sei como é difícil pensar na exequibilidade de tais processos numa estrutura que, apesar de boas intenções, tem sempre receio de dar autonomia total aos professores – senão, para quê exames? Eu sei, também, que muitos professores, a todos os níveis, não estão preparados para serem gestores do currículo. Para esses, um manual pode ser útil. Para os restantes, o manual é, a meus olhos, não só uma inutilidade como um empecilho.

Como as editoras enviam muitos manuais aos professores, uma das soluções será esses professores colocarem todos os manuais na escola, formando uma mini-biblioteca de livros de texto, e servirem-se deles na medida em que os considerem úteis. Ficam de pé alguns problemas relacionados com duplicação de textos que sejam necessários, o que em certas escolas é complicado por falta de meios, mas a criatividade dos professores pode tentar encontrar solução…

Sou mesmo irrealista, não sou?

1 comentário:

SaltaPocinhas disse...

Irrealista? Não, não és: na minha escola a principal função da avalancha de manuais que recebemos é precisamente essa: servir de recurso. E eu sirvo-me do manual, não é ele que se serve de mim... E não tenho a preocupação de o seguir "a eito" ou de "dar tudo". Vou buscar imensas coisas a outros locais quando o manual não me interessa.E podia perfeitamente prescindir do de português se pudesse fotocopiar à vontade. Na matemática é mais complicado porque há muitas ilustrações. Mas, no 1.º ciclo os manuais são importantes para as crianças que têm de ler, reler, observar as figuras coloridas etc. Também para muitas crianças o manual escolar é o 1º livro que têm na vida!