2006/05/05

Os lugares onde vivi – Londres (1978 – 1979)


A primeira vez que estivera em Londres fora em 1973, quando a libra valia 60 escudos e havia pessoas que iam de propósito à capital do Reino Unido para fazer compras na época de saldos (não foi o meu caso, contudo…). Como turista, gostara da cidade. Agora, cinco anos depois, tinha pela frente, pelo menos, um ano para viver lá. A minha Mulher e a filha tinham ficado em Lisboa. Eu regressaria a Portugal nas férias do Natal, elas ir-me-iam visitar na Páscoa.

Resolvera a acomodação instalando-me no John Adams Hall, uma residência para alunos do Instituto de Educação, que ficava convenientemente localizada na Endsleigh Street, a três blocos do Instituto e da Russell Square (Praça e Metro) e ainda, embora sem grandes vantagens para mim, a dois passos da estação de comboios de Euston. O quarto era razoável para um estudante, com o senão, naquele tempo frequente (não sei se já alteraram os hábitos) de a casa de banho, que servia pelo menos quatro quartos não ter duche, o que obrigava ou a um banho de imersão numa banheira gigantesca ou a uma lavagem complicada que incluía uma espécie de exercícios de educação física, substituindo o chuveiro por uma série de copos de água depois do ensaboamento… Se o quarto era razoável, a comida (pequeno almoço à parte) era horrorosa.

Depois do Natal, cansado da residência, aproveitei o facto de ter vago um apartamento, igualmente gerido pelo Instituto, e desafiei o Lemos Pires, que partilhara a aventura londrina, para me acompanhar. Felizmente fomos os preferidos e mudámo-nos então para a Woburn Square, também ali na zona. Melhorei consideravelmente, porque para além de deixar de fazer ginástica no banho (havia duche!) passei a ser o responsável pela minha alimentação e embora não tenha grande aptidão para a cozinha consegui, mesmo assim, ter mais satisfação do que no Hall (aprimorei-me nas feijoadas…).

De qualquer modo, voltar a ser estudante e em condições que nunca tinham sido as minhas, porque estudara sempre ao pé de casa, com limitações financeiras porque, embora generosa, a bolsa do British Council tinha de ser gerida com tacto, não foi fácil. Confesso que na generalidade simpatizei pouco com os ingleses, embora tivesse excelentes relações com alguns e, em termos de resultados, tivesse aproveitado imenso da minha estadia. Foi um ano de trabalho intenso e proveitoso: passava os dias na Biblioteca do Instituto, que na altura não estava, como hoje, no edifício, mas a uns quinhentos metros, ocupando três andares. Só tinha aulas ao fim do dia, pelo que me sobrava tempo para estudar – e foi o que fiz. Só ao fim de semana, caso o tempo permitisse, fazia longos passeios.

Recordo-me que o Inverno foi rigoroso; nevou várias vezes. Foi igualmente um ano politicamente sensível – numerosas greves, entre elas uma da recolha de lixo que durou imenso tempo – o que teve como remate a mudança do governo trabalhista para o da Senhora Tatcher quando das eleições antecipadas (creio que em Maio de 1979).

Costumo dizer que me adapto bem e normalmente gosto de viver onde vivo. Não foi o caso de Londres: talvez tenha sofrido demasiadamente o facto de estar longe da família, e embora tivesse vários amigos nas mesmas condições, e com os quais tive um bom convívio, cheguei ao fim do ano sem grande vontade de continuar. O acaso proporcionou-me isso mesmo, e por isso, em vez de continuar, como era suporto que acontecesse, regressei a Portugal em Julho de 1979.
Voltei a Londres várias vezes, para curtas estadias, quase sempre com o objectivo de aproveitar a excelente organização do Instituto de Educação, e hoje a cidade parece-me menos hostil do que há trinta anos. Mas não seria o local onde gostaria de voltar a viver…

2006/05/04

Público e privado


Hoje (4 de Maio), dez da manhã. Entro em Coimbra no Alfa Pendular nº 123 em direcção a Braga e ocupo o meu lugar. A viagem vai durar duas horas, que destinei para ler o Público e talvez começar a ler um livro que ontem me foi oferecido. Mal o comboio arranca, atrás de mim soa um sinal discreto de um telemóvel. A voz que atendeu já não era tão discreta, soava como se estivesse na sala de sua casa. Impossível não ouvir. E até ao Porto, com pequenos intervalos, a voz da senhora que se sentava atrás de mim, e que nos (aos passageiros do comboio, claro) declarou ser actriz, com nome e tudo (M.M.), usou aquele espaço como seu escritório, falando com umas tantas pessoas de negócios (discutindo mesmo pagamentos pelo seu trabalho) ou assuntos pessoais que obviamente não interessavam a quem tinha tido a pouca sorte de estar no seu raio de acção.

Não foi a primeira vez que me aconteceu ter de partilhar uma conversa ao telemóvel em comboios, mas nunca me acontecera uma tal exposição forçada ao que devia ser uma privacidade. Aquela senhora, não sei se por ser actriz, confunde o privado com o público, e deu hoje um espectáculo desagradável. Não deveria existir uma etiqueta de uso dos telemóveis em espaço público?

2006/05/01

O caso da Cinemateca


Tenho acompanhado o caso da direcção da Cinemateca Nacional por duas razões. A primeira é o próprio João Bénard da Costa, que foi meu colega de curso na Faculdade de Letras de Lisboa e que, de algum modo, considero um meu amigo distante, porque não nos temos encontrado desde há muito. A segunda razão porque tendo eu próprio atingido há dias o “limite” de idade, e tendo sido desligado do serviço, estou em condições de reflectir sobre a situação.

Sou dos que pensam que não há razão para o Estado impor a aposentação a quem quer que seja, mesmo atingido pelo limite de idade, se essa pessoa tiver condições físicas e psicológicas para continuar a exercer o seu cargo e o desejar fazer. Pessoalmente, eu continuaria a trabalhar até sentir que não tinha mais essas condições.

É verdade que, em casos excepcionais, pode ser autorizada essa continuidade, desde que seja feita uma proposta aceite pelo Primeiro Ministro, ficando nessa altura o funcionário com o direito de, além da pensão da aposentação, receber um terço da remuneração a que o lugar que desempenha dá direito.

Julgo que terá sido esta a cláusula que terá levado o actual Governo a dar indicação aos serviços para restringir ao mínimo essas excepções. Eu distinguiria aqui casos como o do Bénard da Costa, que tem 70 anos, de outros, de funcionários que se reformaram com muito menos idade e foram depois “repescados”, arranjando assim um complemento de reforma que é legal, sem dúvida, mas sugere a pergunta: “Então, por que se reformou?”

Talvez fosse bom repensar também estes casos e encontrar uma solução lógica para eles e para quem atingido pelo limite de idade não tem problema em continuar a trabalhar (caso do João, a que acresce a sua indiscutível competência na área do cinema). Uma vez que continuam a servir o Estado, não seria de lhes manter o vínculo com todas as consequências – incluindo a suspensão da pensão de aposentação e manutenção do devido vencimento, incidindo nele todos os descontos legais, incluindo o que é devida à Caixa Geral de Aposentações?

2006/04/22

Os lugares onde vivi – Reading (1978 -Agosto e Setembro)


(Retomo hoje esta série de posts)

Quase no final do ano lectivo de 1977-1978 tive inesperadamente a oportunidade de aceitar uma bolsa do British Council para estudar em Inglaterra, visando uma pós-graduação em educação. Em Londres era (e é) reputado o Instituto de Educação e foi pois para aí que concorri, e fui aceite, para obter o “diploma in education”, que poderia ser considerado a parte curricular de um mestrado, ou um curso de especialização. Era um curso de um ano que daria depois acesso a um mestrado. Na altura essas condições não constituiam problema e por isso decidi ir.

O meu inglês não era tão bom como o meu francês: se à saída do liceu eles se equivaleriam, no meu curso na Faculdade de Letras só lia praticamente livros franceses e até as ocasiões de praticar foram sempre mais com franceses do que ingleses. Por isso não estranhei quando me propuseram ir mais cedo para Inglaterra para frequentar um curso de língua, na Universidade de Reading. E assim, num dos primeiros dias de Agosto, depois de muito rapidamente me ter desfeito da casa que alugara em Braga e de ter mudado a mobília para a casa de Lisboa, voo para Londres para, no dia seguinte, seguir para Reading. Com o contratempo de se ter perdido uma das duas malas que levara, e que tinha a roupa de todos os dias, o que me causou sérios embaraços: só apareceu quase três semanas depois) Tinha ido passear à Argentina…

Reading é uma cidade que fica a cerca de uma hora de comboio de Londres. Comparada com esta, é uma vilória, ou seja, é uma cidade pequena – não sei se na altura ultrapassaria os 100 000 habitantes. O campus da Universidade, onde de facto vivi, ficava a pequena distância do centro; havia autocarros frequentes.

A cidade propriamente dita é simpática. Recordo-me de existir um parque muito agradável e uma biblioteca antiga (hoje há já uma biblioteca nova, inaugurada em 1985). Nos dois meses que lá estive não fui muitas vezes ao centro, umas três ou quatro; fiz mais vida no campus ou nos arredores próximos.

O campus de Reading é muito grande, com relvados “à inglesa”, tudo bem tratado. Os numerosos estudantes de muitos países que iam frequentar o mesmo curso de língua ficaram instalados em residências que se agrupavam num dos extremos do campus, edifícios sóbrios com quartos individuais e casas de banho colectivas tendo, por andar, uma cozinha equipada. Achei as acomodações bastante razoáveis. O sítio era, evidentemente, sossegado, bom para trabalhar e estudar. Apesar de ser verão não havia verdadeiro calor, e para surpresa minha o aquecimento estava ligado! Habituei-me com facilidade à vida do campus, às rotinas diárias, ao pequeno almoço “à inglesa”, que apreciei e sempre que posso gosto de fazer, às caminhadas em grupo para e de o instituto onde tínhamos as aulas, e só não me habituei, confesso, à generalidade da comida que nos davam ao almoço e ao jantar… Ao recordar Reading não recordo pois a cidade mas o campus, e recordo sobretudo o ambiente agradável, de convívio “multicultural”: para além de quatro portugueses havia brasileiros, gregos, chilenos, iraquianos, iranianos, indonésios e pelo menos um somali, com quem aliás fiz boa amizade: era espertíssimo e completamente descomplexado (encontrei depois muitos negros que não tinham vencido complexos).

Gostei bastante da experiência e da maneira como o CALS (Centre for Applied Language Studies) orientou a nossa formação. Parti pois para a aventura londrina bastante mais confiante.

2006/04/21

The Day after


Sou hoje o que era ontem – e não sou. Heraclito tinha razão quando dizia que tudo flui, mas Parménides também a tinha quando defendia a unidade do Ser. Por isso debato-me com um dilema: eu sei que alguma coisa mudou de ontem para hoje, que me obriga a equacionar, como me diziam ontem, “o resto da minha vida”, mas ao mesmo tempo não quero ceder à tentação de cortar com o que ficou para traz porque não posso.

Preparei-me tanto para este momento – e descobri ontem, como descubro hoje, que não estava verdadeiramente preparado. Talvez precise de mais um dia ou dois. Mesmo mais. Mas vou descobrir o sentido desse resto da minha vida.

Para já, tenho ainda os ecos de vozes amigas, de gestos simbólicos lindos, unindo gerações com quem me encontrei e que não me esqueceram. E isso é, neste momento, bastante.