2008/01/22

Prós e contras – vê-se, ouve-se e lamenta-se

É um programa interessante e quase sempre revelador. O de ontem não foi excepção.
Certamente a democracia suporta que todos tenham a sua opinião, e até que se possa ter opiniões tolas – até tem graça. A democracia também aceita que se possa ser mal-educado, pelo menos um pouquinho – porque uma má criação muito desabrida é desagradável.

O que estava ontem em debate, a célebre lei do tabaco, era de molde a sugerir o que o programa foi: depois dos dislates que já tinham sido proferidos pelos cronistas do costume (escuso de os nomear, porque estão sempre na brega), o que se poderia esperar? Pois por muito que estivesse disponível para quase tudo, fiquei sem palavras com a intervenção da polivalente convidada Doutora Fátima Bonifácio, que (na linguagem popular) se “passou” ao defender o direito ao fumo, não hesitando em chamar o testemunho familiar da mãe de 98 anos que viveu saudavelmente em ambiente viciado. Das suas ideias sobre educação (e neste blog creio já ter falado dela) discordo, mas, enfim, que se há-de fazer, de educação toda a gente fala e tem soluções com excepção dos que a estudam. Das suas ideias sobre os malefícios, não do tabaco mas da lei que visa proteger quem não é fumador, discordo e acho-as espantosas vindas de quem tem formação académica e agride de tal forma a investigação médica.

Para que se saiba: fui fumador de cigarros, cachimbo, cigarrilhas – mais ou menos por esta ordem… – e deixei de fumar, por decisão própria, em 2001. Quando estive nos Estados Unidos, já há vinte anos não podia fumar em praticamente todos os recintos fechados; na Biblioteca da minha Universidade havia uma sala própria para quem queria fumar, o que hoje já não é possível. Ao deixar o tabaco não me tornei por isso anti-tabagista, considerando que todos têm o direito de fumar, mas comecei a verificar quão incómodo é para quem não fuma estar num ambiente de fumo. Por isso estou de acordo com a lei, que não violenta mais os cidadãos do que aquela que impede que na auto-estrada eu circule a mais de 120 quilómetros por hora. O motivo é o mesmo: tentar preservar a vida dos outros e, provavelmente, baixar os custos em desperdícios (de saúde ou sucata).

6 comentários:

serrata disse...

Eu também vi o Prós e Contras; foi de facto triste e pobre, de parte a parte. E a razão porque o debate sobre este tema é pobre é porque o tema em si é pobre: não há nada a discutir, é simples; logo, procurar elaborar grandes raciocínios à volta disto, dá no que dá.
O "ponto" desta lei é apenas e só uma violação do espaço privado; é uma lei contra a liberdade.

Varela de Freitas disse...

Não penso que seja uma violação do espaço privado - em casa própria ninguém é impedido de fumar -, a proibição só é definida para o espaço público. Talvez a lei pudesse ser menos poenalizadora, isso sim.

O Raio disse...

Estive a ver o programa e discordo dos comentários sobre a Doutora Fátima Bonifácio.
Primeiro é de gabar a coragem desta Professora que se atreveu a manifestar publicamente opiniões actualmente proscritas.
Depois é de lamentar a sua falta de coragem em não se atrever a levar as suas opiniões até ao fim.
É que o problema com os malefícios do tabaco e principalmente com os malefícios do fumo passivo (passivrauchen, invenção de um médico nazi) é que não estão provados.
Isto é, a sua prova baseia-se exclusivamente em análises estatísticas, análises estas que não passam pelo crivo de nenhum estatístico competente.
A estatística não prova nada, a estatística dá pistas para investigação.
Quando observo que a incidência do cancro do pulmão num não fumador é de sete em 100.000 e a incidência do mesmo cancro no conjuge não fumador de um fumador é de 8,8 em cada 100.000, de nenhuma forma posso tirar a conclusão (como foi manifestada por um dos intervinientes do programa) de que viver com um fumador aumenta a probabilidade de ter cancro do pulmão de 26% pois qualquer estatístico competente diz que este último valor está dentro da margem de erro do estudo.
O que é posso fazer é investigar em laboratório esta pista que a estatística me sugeriu.
Se queremos criticar alguém no programa devemos é criticar um médico que estava no público (presidente da Sociedade portuguesa anti-tabágica) que disse já se notar um decréscimo nas doenças coronárias devido à nova lei!
Isto só 21 dias depois da entrada em vigor da Lei!
É ridículo.

serrata disse...

"que disse já se notar um decréscimo nas doenças coronárias devido à nova lei!
Isto só 21 dias depois da entrada em vigor da Lei!"

Não é ridículo caro "O Raio", pode muito bem ser absoluto. E o que estes tipos sabem é falar do absoluto.

Faz-me lembrar as mortes na estrada comparadas com o ano anterior: este ano houve mais 4 mortos, menos 15 feridos graves, etc, etc.

Nunca ninguém se perguntou, por exemplo (e sem ir muito fundo) quantos automóveis há a mais ou a menos do que no tal ano passado.

Enfim: "ignorância" que o povo come.

Varela de Freitas disse...

Para Raio:

Concordo com o que diz acerca da intervenção do médico - não é credível. Em relação ao resto, há discordância (saudável); como sabe, mesmo na investigação médica existem posições divergentes, e não só quanto ao tratamento estatístico.

O Raio disse...

Caro Varela de Freitas,

Uma das vantagens desta Lei é que me levou a investigar o tema e fez-me descobrir, com sincero espanto, de que praticamente todas as provas contra o tabaco são provas provenientes de estudos estatísticos.
E ainda por cima provas self-service pois se se arranja uma correlação vagamente positiva entre o tabaco e o cancro do pulmão essa notícia é logo propagandeada.
Mas também se descobrem correlações, desta vez negativas, entre o fumar e a doença de Alzheimer, Patkinson, Chron, etc., nada se diz.
Isto é, é tão cientifico dizer que o tabaco provoca o cancro do pulmão como dizer que o tabaco evita a doença de Parkinson. Só que desta ninguém fala.
Note-se que eu não estou a dizer nem que o tabaco provoca o cancro nem que o tabaco evita a doença de Parkinson, estou a dizer que a estatística levantou algumas pistas que mereciam ser investigadas, o que não é feito.

Um abraço