2005/11/22

Os Prós e Contras de ontem


Já uma vez referi que Prós e Contras é um dos programas normalmente com interesse da nossa televisão. O de ontem foi interessante por pôr frente a frente (sem com isso significar em posição de combate…) o ex-ministro David Justino e a actual ministra Maria de Lurdes Rodrigues, e por ter um homem lúcido e conhecedor dos problemas da educação (António Nóvoa) e uma professora excelente, como a própria informou em final de programa, a Drª Amélia Pais. Ah! E os representantes dos Sindicatos, e das associações de pais. E muito público, a dividir as suas palmas conforme as ocasiões…

Gostei de ver um David Justino sem a sobranceria de quando era ministro (que me perdoe, mas era como o via) e a dialogar serenamente. Já se sabia que não gosta de pactos, mas o nome pouco importa; o que temos de gostar é que sejam possíveis consensos (mas atenção, porque não é possível deixar toda a ideologia de fora).

Gostei de ver a Ministra a confessar que é energética (que não se canse, porque é bem preciso) e sobretudo a dizer que não se pode perder tempo. Aprendi a importância disso com o Prof. Veiga Simão e concordo plenamente. Penso que ela já percebeu que as aulas de substitução não deviam ser aulas de substituição mas tempos para actividades a ser organizadas pelas escolas tendo em vista o projecto curricular da turma em questão (não posso aqui desenvolver como isso poderia ser feito, mas pode).

Claro que gostei do António Nóvoa, primeiro porque quase sempre estou de acordo com ele (e certamente ele está de acordo comigo). Há quanto tempo todos nós percebemos que a escola tem de mudar (sem perda de tempo!), que mesmo no final do século XX ela devia já ter mudado (e já há algumas que mudaram). Há quanto tempo defendo que as escolas têm de assumir a sua autonomia com total responsabilidade, ou que a escola tem de pensar em processos de ensino-aprendizagem mais diversificados, tendo em atenção a individualidade de cada aluno sem perder de vista a capacidade de um trabalho cooperativo essencial.

E também achei interessante a vivacidade da professora Amélia Pais, que retratou bem o que muitos professores são em relação ao Ministério: sempre críticos, sempre à defesa e por vezes com falhas no ataque (aquela do “recambiar” professores para o Ministério da Cultura saiu muito ao lado da baliza…)

Falou-se de muita coisa e ficou muito por dizer. Penso mesmo que se falou pouco dos alunos, das aprendizagens que devem ser conseguidas na escola, e como é evidente dos papéis que os professores têm hoje de desempenhar, que são diferentes dos de ontem (ao referir a formação de professores o António Nóvoa levantou o problema mas não o caracterizou).

Fico à espera de um novo programa para desenvolver o que foi esquecido.

Ah! Reparo que não referi os participantes sindicalistas e o representante das associações de pais. Iguais ao que costumam ser, até nas diferenças…

6 comentários:

PJ disse...

A impressão que me ficou da ministra da educação é que ela é, no plano político, um desastre. Não basta ter a vontade ou a ambição de mudar. É necessário um discurso mobilizador, politicamente forte. É necessário uma convicção que não transpareceu das suas palavras. Um bom técnico ou um indivíduo capaz de interpretar a realidade complexa que actualmente vivemos não é necessariamente um bom político, especialmente quando vive permanentemente vive sob o foco das atenções mediáticas. No debate de ontem e na passada sexta-feira a ministra provou não ter estofo para o cargo que ocupa, apesar do seu voluntarismo. O seu olhar é de um animal acossado, a sua voz é trémula, o seu pensamento confuso, os seus gestos não transmitem confiança nas suas decisões. No dia da greve, ao mesmo tempo que assinava no Público um artigo muito interessante, lançou para a fogueira da comunicação social as percentagens das faltas dos professores. Foi deitar gasolina no fogo. No debate de ontem teve um momento revelador. Foi quando afirmou que a função de guarida das crianças e jovens é uma função nobre. Numa frase, cuja contradição foi prontamente assinalada pelo Prof. António Nóvoa, deitou por terra todos os discursos bondosos sobre as aulas de substituição. Quando abordou a autonomia das escolas falou na compra do leite escolar…O cargo de ministro da educação é muito difícil, talvez o mais difícil do elenco ministerial a seguir ao de ministro das finanças. A minha conclusão ficou feita: a senhora não está à altura do desafio.
P.S. Viram como o ex-ministro David Justino tentou sacudir a água do capote relativamente à extinção do Instituto Nacional de Acreditação da Formação Inicial de Professores (INAFOP) dizendo que este instituto não se encontrava sob a sua tutela mas sim do seu colega da Ciência e do Ensino Superior? Todavia, acrescentou logo a seguir que concordava com a medida. Talvez, como se diz na entrada, o Prof. David Justino não exiba a sobranceria ministerial que o caracterizava. Infelizmente, o seu desconhecimento face às políticas de acreditação da formação de professores continua. Entre a sobranceria e a ignorância não sei o que preferiria ter.

PJ disse...

Recordei-me agora que a expressão exacta que a ministra usou não foi guarida mas sim custódia. Esta palavra encerra todo um universo de significados.

Miguel Pinto disse...

Sou oposição e também sou ministério, sindicalizado, pai e, salvaguardando as distâncias, investigador. Neste quadro, não posso ser suspeito de parcialidade na avaliação que faço do debate. Não procuro vencedores e perdedores. Procuro autenticidade e coerência nos meus representantes e fiquei esclarecido: parabéns à professora convidada e ao professor António Nóvoa.

SaltaPocinhas disse...

ao contrário de ti, gostei bastante de ouvir a prof. Amélia. E a ministra não quer mesmo "recambiar" professores para outros serviços quando afinal, até fazem falta nas escolas? Não se falou por exemplo do que ela fez com o inglês: sacudir responsabilidades que deviam ser do ME para as Câmaras que ano atrás de ano só têm mostrado incompetencia... De resto estamos de acordo. Ah e não suporto aquele senhor da associação de pais!

Varela de Freitas disse...

Ao PJ
Reconhecço que a imagem "televisa" da Ministra não é mobilizadora, mas daí a concluir que não está à altura do desafio penso que é excessivo e prematuro. Embora haja vozes discordantes, tenho ouvido de responsáveis (até de áreas políticas contrárias) mais elogios que críticas à sua actuação. Esperemos mais para ver. Estou de acordo consigo quanto à dificuldade de se ser Ministro da Educação; é de facto um lugar muito, muito complicado. Até agora, com algumas excepções, tenho concordado com as linhas de acção que esta Ministra definiu.

Ao Miguel Pinto
Eu limitei-me a dar a minha opinião e não quis salientar quem ganhou (se alguém ganhou) ou perdeu... É evidente que António Nóvoa demonstrou maior clarividência e o que disse foi mais facilmente acolhido por nós, professores. Mas atenção, porque muitas consequências daquilo que ele disse imporiam medidas que muitos professores não apreciariam...

À Saltapocinhas
É verdade que eu não disse que "gostei" de ver a professora Amélia, disse que "também" achara interessante a sua vivacidade... Foste perspicaz ao veres a diferença... Compreendo que uns gostem e outros não. E amigos como dantes!

Miguel Sousa disse...

muito sincermente, a discussão sobre a escola nos últimos tempos, não sei quem tem feito essa discussão, mas reduz-se só ás aulas de substituição e ao ataque desenfreado aos professores (como e o caso do anuncio de milhões de faltas, quando, segundo o CDC, nos EUA faltam cerca de 25 milhões por doença devido ao simples facto de não lavarem as mãos)...lamentávelmente não se quer discutir a educação e, a sério que gostava saber a quem é que este podre jogo político serve...escola, alunos e professores, estão perdendo....o que será que está acontecendo os políticos e aos "média"....??