2005/11/19

As preocupações da Ministra da Educação


Não tenho andado distraído em relação ao que se tem passado no campo da educação. Apesar da falta de tempo, sempre vou sabendo as medidas anunciadas, com as quais de uma maneira geral concordo (mas de vez em quando também tenho dúvidas). Também de vez em quando tenho lido, ouvido – e até visto – a senhora Ministra. Tenho-me apercebido que, à parte os Sindicatos dos Professores (e não todos) e muitos (?) professores, há uma opinião muito favorável em relação à actividade do Ministério, da firmeza da Ministra (e penso que, por extensão, dos Secretários de Estado, que embora mais na sombra não podem deixar de ter interferência na política geral definida).

Na sexta-feira, Maria de Lurdes Rodrigues assinou um artigo saído no Público (indisponível on-line, já se sabe) que mereceu a minha atenção. Um artigo para o grande público ultrapassa muito o redigir um despacho ou assinar uma portaria. O título do artigo é “O desafio da educação”, que para ela é “a necessidade de alteração da qualidade e do nível de exigência nas … escolas”. Prisioneira da crueza das estatísticas da OCDE lamenta que ao real esforço financeiro que tem sido feito pelo Estado no apoio à educação não correspondam melhores resultados (e essa realidade tem sido recorrentemente posta a nu desde há uns anos).

Depois, e tendo em conta, como diz, o teor de “relatórios nacionais e internacionais” elenca o conjunto de três problemas, de três diferentes níveis, que considera deverem ser debatidos no país. Vou procurar contribuir, desde já, para tal, transcrevendo ipsis verbis o texto da senhora Ministra e comentando-o.

1 Ao nível sistémico e organizacional são apontados (pelos relatórios) o excessivo centralismo do sistema de ensino e défice de autonomia das escolas, o défice de actividades de acompanhamento e enquadramento de alunos, o défice de envolvimento e trabalho de docentes ao nível do estabelecimento, o défice de acompanhamento e supervisão de aulas e do correspondente controlo da qualidade do ensino.

Senhora Ministra: está pronta para contribuir para uma efectiva descentralização e para que não seja coarctada a autonomia das escolas? E uma vez isso conseguido, tem ou vai ter um plano de efectivo acompanhamento (não quero dizer só controlo) das escolas, para as ajudar no que precisam (e é, na maior parte dos casos, muito)? Tem pensada uma estratégia que altere a actual situação e torne os professores seus aliados e não seus inimigos (eu sei que tem tido razão nas suas decisões, mas tem de reconhecer que sem os professores não pode mudar a escola)?

2 Ao nível sócio-económico é apontado o quadro de enorme desigualdade social, a extrema heterogeneidade dos alunos e das escolas nesta matéria, bem como o défice de acesso a recursos sócio-educativos e culturais dos nossos alunos.

Senhora Ministra: tenho, temos todos consciência que este não é só um problema do seu Ministério, mas algo pode fazer (e já começou a fazer, é bom que se lembre). Já assegurou, junto dos colegas de outras pastas e do próprio Primeiro-ministro, mais do que uma solidariedade circunstancial?

3 Ao nível do desenvolvimento curricular são apontadas questões relacionadas com a excessiva dimensão e desajuste de programas e instrumentos de ensino e aprendizagem e ausência de articulação entre as condições de ensino e os mecanismos de controlo externo, designadamente os exames nacionais.

Senhora Ministra: está preparada para retomar a política que nesse campo o Partido Socialista iniciou com a Secretária de Estado Ana Benavente, que, não sendo naturalmente perfeita, continha potencialidades para eliminar esses problemas? Sabe que vai ter de lutar e vencer interesses instalados, por vezes pelas piores razões mas outras por motivos compreensíveis, que desejam manter o que está (i. é, um currículo fortemente disciplinarizado)? Está pronta, como pede a todos nós para estarmos prontos, para uma reflexão séria sobre o que devem ser os famigerados exames externos (tenho, sobre este aspecto, as maiores dúvidas que sejam a melhor solução)?

É evidente que os temas em foco nunca terão como resultado unanimidade nas possíveis soluções. Mas é bom sinal que se queira iniciar essa discussão.

5 comentários:

Luis Moutinho disse...

Gostei da análise e da lucidez das questões levantadas.

IC disse...

Professor Varela de Freitas:
Permite-me que lhe peça que observe também o que mais está a desmoralizar os professores - pelo menos aqueles (muitos) que sempre se preocuparam com a progressiva degradação do sistema educativo e deram provas no seu trabalho que não recusam este, nem recusam inovação, etc.? 1 - Foi lançada e permitida uma campanha de descrédito da classe docente, toda metida no mesmo saco e como se não fosse aos professores que, apesar de tudo, se deve que as escolas sobrevivam no meio de problemas sociais, de carências de recursos, de tanta coisa complexa... 2- Estão a ser exigidas aos professores tarefas que agridem a sua consciência profissional, pois não é possível criar ocupações de alunos verdadeiramente de reforço educativo numa precipitação que retirou o indispensável: possibilidade e tempo para as conceber, preparar, estruturar (em escolas que não têm um cubículo sequer livre) - o indispensável para que possam ser mais (e desejamos que seja muito mais)do que ocupar/entreter meninos. Penso que o maior erro (mas que está a correr o risco de ser fatal)desta Ministra foi a precipitação obcessiva. Nenhuma transformação da escola se pode construir sobre o joelho, e muito menos com professores ofendidos e acusados de todas as responsabilidades em vez de estimulados e acarinhados - sem eles, nada mudará a escola.
Creio que não deixará de concordar também um pouco com estes aspectos.

adkalendas disse...

Caro Prof. Varela de Freitas
Quando fala de uma opinião muito favorável em geral em relação à actividade do ME, isso deixa-me perplexo, pois o que há, da parte de grande parte dessas pessoas é o desconhecimento completo das condições de trabalho nas escolas, e uma aversão aos professores e às escolas de uma forma geral.
Quem não conheça bem as Escolas, a maioria, dirá que a responsabilidade pelo mau funcionamento das Escolas é dos professores.
Eu conto apenas um episódio:
Estou numa Escola Secundária e promovo diversos projectos há vários anos. Se os projectos propriamente ditos não forem financiados fora da Escola, esta não tem uma folha de papel para ceder ao projecto, por mais relevante que seja. Nem sala, nem computador, nem nada. Temos que andar a pedir por favor e sujeitos a ser mal tratados, por chatos que somos.
Estamos em Novembro. Desde Setembro que tento imprimir na Escola as planificações que fiz para as aulas de todo o ano lectivo. Pois bem, na Escola só há dois computadores que os professores podem usar sem pagar impressões. E são, prioritariamente, para os directores de turma, pelo que ou estão sempre ocupados, ou não têm tinta, ou não têm papel.
Como decidi não imprimir as planificações em casa, no meu computador que eu comprei com o meu dinheiro, com a minha tinta e com o meu papel, daqui a pouco estamos a acabar o período e ainda não imprimi as planificações.
Pela primeira vez na minha vida profissional não me preocupo (não é verdade...).
Já gastei milhares de contos em materiais para a Escola, dinheiro que nunca devia ter gasto, se as escolas tivessem condições, não digo ideais, mas realistas, de trabalho.
E a culpa disto é dos professores?
Isto cansa, desgasta e desmotiva. Este ano, como me obrigam a estar mais horas na Escola, levo as coisas para acabar lá e imprimir. Não dá. Não consigo. Deixo de fazer? Não, faço mas não imprimo.
E mesmo assim estou a usar o meu PC, a minha luz, o meu escritório, os meus livros.
Recebo o mesmo que se não fizer nada.
Mais uns meses e estou a fazer tudo à mão, como há uns anos, demorando imenso tempo e ficando sem o mesmo para preparar as aulas.
Ainda me vêm dizer que a culpa das coisas funcionarem mal é minha e que a Ministra está a trabalhar bem?
Sinceramente!

Varela de Freitas disse...

A IC
Não creio que haja uma campanha de descrédito dos professores (por quem? pelo Ministério? pela comunicação social?). Penso que genericamente se pensa que há excelentes professores, profissionais de mão cheia, professores assim-assim, e maus professores. O pior é quando todos - mesmo os melhores - dão motivos para a sociedade se interrogar sobre as suas atitudes e assim despoletar ondas de choque que podem parecer campanhas de descrádito (caso da greve aos exames). A IC concordará que a opinião pública condenou também os juízes, como condena os médicos, quando parecem esquecer os seus deveres profissionais (e não vale a pena dizer que têm direitos, etc., aceito isso mas pessoalmente rejeito esses argumentos).
Quanto ao seu segundo comentário, continuo a pensar que embora porventura mal gerido pelo ME, o processo das substituições foi sobretudo mal gerido pelas escolas. Nos Prós e Contras de segunda-feira a Ministra explicou a pressa - e no meu post anterior concordei com ela e ae disse que aprendera com o Veiga Simão a não deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, mesmo com alguns riscos.

Ao Adkalendas
Tenho ouvido da parte de responséveis (na televisão e na rádio) e também lido nos jornais referências elogiosas à política seguida pela Ministra. Poderá dizer-me que não são representativos (embora alguns sejam de partidos e tendências diferentes). Mas o que me parece é que os grandes críticos da Ministra são os professores (ai, estou de acordo consigo). O que me conta da sua escola e da sua experiência parece-me que tem a ver com a gestão dessa mesma escola - ou não será? Mas teria de saber algo mais para dar uma opinião mais fundamentada.

adkalendas disse...

Infelizmente esta situação não é cracterística só da minha escola.
Eu já estive em dez escolas diferentes.
Em todas elas se conta com trabalho pago pelo professor. Tem sido tanto assim, que os professores, pelo menos os que eu conheço, se habituaram a isso e parece que já acham isso normal.
QUanto a mim, h´amais de 20 anos que ando a pregar no deserto. De cada vez que reclamo, pareço um ET, pois todos olham para mim com cara de espando e de escândalo, tipo: "este colega está a exigir de mais", quando apenas exijo condições para trabalhar.
Claro que há uns anos o problema não eram os computadores, mas eram, por exemplo as fotocópias, como ainda são. QUando quero distribuir fotocópias de textos de apoio aos alunos, tenho que pagar as minhas, na própria escola.
Isto é normal, parece que para muitos é. Eu dexei de as fazer, coloco tudo online, onde não tenho que pagar. Mas uso a minha net e o meu computador, ou seja, acabo sempre por pagar.