2005/11/23

O politicamente correcto…


Embora em natural desuso, o “politicamente correcto” ainda tem os seus cultores. Devo dizer que não me afecta que se faça um esforço por limitar, no discurso, termos ou frases que possam ser consideradas pouco abonatórias no contexto social no qual se vive. Muito recentemente, assistiu-se entre nós a um reavivar do politicamente correcto que me deixou divertido.

Não sei se repararam que há umas semanas começou a passar na rádio (e na televisão, também) um anúncio no qual se quer dar relevo a um acesso à Internet mais barato. O anúncio desenvolve-se em diálogo por um casal, e inicialmente o homem (presumível marido) tenta explicar à mulher as vantagens da adesão a esse produto, mas a senhora parece não as atingir e, no fim, exclama com uma voz (e cara) sugestiva: “Olha, explica-me como se eu fosse muito burra!”

Bom, com certeza havia quem sorrisse (eu sorri!) mas deve ter havido alguém que não sorriu e disparou a favor do “politicamente correcto”. Podia lá ser estar a desfrutar o género feminino? Então, as mulheres têm de ser estúpidas?

E aconteceu o que se viu: após alguns dias com este anúncio, aparece um outro simétrico, no qual é a mulher que tenta explicar ao homem as vantagens do novo acesso, e é o homem que, no fim, confessa: “Olha, explica-me como se eu fosse muito burro!”.

Eu continuei a sorrir, mas ao mesmo tempo a pensar o que teria acontecido para esta mudança – e cheguei à conclusão que acabei de expor. Mas mesmo que não fosse assim, ou seja, mesmo que o publicista tivesse imaginado os dois anúncios e apresentá-los com esta sequência, ou alterná-los, o efeito era o mesmo: eis o politicamente correcto em todo o seu esplendor.

Não tenho nada contra que se policie a linguagem, mas faz-me confusão tudo o que é excessivo. Denegrir sistematicamente a mulher só porque é mulher é censurável. Como é censurável denegrir os alentejanos com as anedotas que para eles se criaram. Mas pesemos as coisas com calma. Não me parece que o anúncio fosse chauvinista porque o objecto é uma mulher e deixe de o ser porque passa a ser homem… Ou então, têm de me explicar isso como se eu fosse “muito burro”…

4 comentários:

PJ disse...

Muito recentemente participei num encontro subordinado ao tema genérico Escola e Educação Intercultural. O referido encontro terminou com uma conferência de um professor muito conhecido da área das ciências da educação cujo nome não revelo por questões de pudor. A dada altura da sua intervenção começou a utilizar sistematicamente a expressão “nós os beges” ou então simplesmente “os beges”. De início não percebi o que a expressão queria dizer e fiquei confuso. A meio da sua intervenção, e tendo apreciado o impacto que a sua expressão causava na audiência, parou e explicou o mistério. “Sabem, afirmou, digo os beges para me referir aos brancos. Nós brancos não somos verdadeiramente brancos, somos beges. O branco é a ausência de cor e nós, como os negros, mulatos ou amarelos, temos uma cor: somos beges!” Isto foi apenas uma pequena amostra de um discurso confuso, desconexo, desarticulado e pejado de lugares comuns. É este tipo de discurso, que configura um cruzamento entre o pedantismo de linguagem de inspiração francófona e o politicamente correcto mais patente na cultura anglo-saxónica, que explica, em parte, pelo menos, a má fama das ciências da educação.

SaltaPocinhas disse...

então eu explico: eu não me indignei nada com o anúncio, achava-o bem divertido... Brincar com os estereótipos não é sinal de que se acredita neles, antes pelo contrário. Ainda não vi o anuncio com o "homem burro" mas com certeza não terá tanta piada. Quem se indigna com coisas destas são aquelas pessoas (essas sim realmente burras) que acham que os homens e as mulheres têm de ser iguais! E a igualdade não é entre mulheres e homens, mas sim entre os seus DIREITOS! Esses sim, deviam ser rigorosamente iguais. E venha mais desta publicidade gira e acabem com tanta publicidade machista! (espero ter-me explicado bem..., mas devo ter conseguido porque tenho muita prática!!)

SaltaPocinhas disse...

no comentario anterior quando me refiro a ter prática de lidar com gente burra, referia-me a adultos!!

Varela de Freitas disse...

A PJ
Fez-me rir! De facto é de ter pena e infelizmente tenho de concordar consigo sobre a má fama.

A Saltapocinhas
Absolutamente de acordo: felizmente somos desiguais numas coisas e noutras somos iguais. Bom fim de semana|