2005/10/11

Novidades na educação


Leio no Público (e como esta local está on-line, pode ler também aqui) que o Ministério da Educação anunciará hoje medidas de combate ao insucesso escolar em que a peça central serão “aulas de recuperação” e “planos de recuperação” para os alunos que reprovem em dadas condições. Aguardarei pelo despacho anunciado para daqui a alguns dias (perguntando-me que sentido faz anunciar medidas sem se conhecerem completamente todos os dados que as suportem) mas permito-me desde já fazer um comentário. Sou muito céptico em relação a “aulas” de recuperação, o “mais do mesmo” que regra geral não consegue acrescentar nada a quem sabe pouco. Pelo contrário, penso que a existência de planos de recuperação individuais consigam ter uma percentagem de êxito assinalável, desde que cuidadosamente planeados e executados.

A estrutura curricular do ensino básico contém, aliás, uma área (o estudo acompanhado) que foi pensada precisamente para ajudar os alunos, e em especial os que têm mais dificuldades de aprendizagem. Infelizmente, creio que raramente ela foi aproveitada como devia pelos professores nas escolas. E no entanto, onde foi bem aplicada, poderá ter tido sucesso.

Vamos uma vez mais esperar para ver. Gostaria de poder dizer que estou entusiasmado, mas não estou: sinceramente, receio sobretudo que as aulas de recuperação se transformem em novos meios de discriminação (que sendo eventualmente necessária, não deve sê-lo numa perspectiva institucional, mas como um acto normal do processo de ensino-aprendizagem dos alunos).

9 comentários:

ChrisWoznitza disse...

Hi I´m Chris. Greatings from Germany Bottrop !!

SaltaPocinhas disse...

os planos de recuperação existem há muitos anos. No 1.º ciclo não lhes acho utilidade nenhuma. Eu sei que há alunos que nunca alcançarão os objectivos (agora competencias) e algum dia têm de ir para o 2.º ciclo, mesmo com lacunas. Nessa altura é que se deve fazer um relatório que o acompanhe e que conte das suas dificuldades...

Miguel Sousa disse...

pois é, se a Senhora Ministra, soubesse que as ilhas afinal fazem parte de Portugal, sabia que o que propos (planos de recuperação para alunos em dificuldades) já se faz há muito nessas partes de "Portugal estrangeiro"

IC disse...

Pedira, na minha escola, que fosse dado um reforço semanal em Matemática a alunos do 8º e 9º anos que, conforme levantamento que fiz,aí chegaram sem nunca terem tido um nível positivo nessa disciplina, mas que, agora com outra idade, até estão receptivos a integrarem-se e acompanharem as aulas - um reforço em termos de bases muito elementares, sem as quais, em anos tão adiantados, o professor curricular não consegue recuperá-los por maior atenção e trabalho diferenciado que lhes dedique. A inacreditável resposta foi que não sobravam tempos a atribuir aos professores de Matemática necessários, devido à prioridade de haver 2 a 3 professores em cada tempo escolar destinados a substituições em eventuais faltas de professores. A Srª Ministra mantém essa sua prioridade (que tanto está a agredir a consciência profissional dos professores) pelo que consta que resolverá a questão dando ordem para que se aumente ainda de mais 3 horas as que já foram largamente acrescentadas como de permanência obrigatória na escola, em nome de componente NÃO lectiva. Apenas testemunho que não consigo aumentar mais o meu horário de trabalho, em que estou a exceder largamente o total das 35h pelo trabalho de elaboração em casa de muito material/fichas diversificado para conseguir progressos nas turmas que este ano tenho de Matemática, além de ter ficado sem a redução a que a idade e tempo de serviço dá direito no ECD.
Peço desculpa por este longo comentário, mas enquanto não se der atenção ao prejuízo que está a causar essa prioridade de entreter meninos (há escolas que não têm condições para algo que não se chame isso, mas sim efectivo reforço educativo), nada resultará - nada resulta com professores desmoralizados, impedidos de trabalho sério para realizarem tarefas desgastantes e pedagogicamente inúteis.

Maria Ferreira disse...

Espero para ver, mas soa-me apenas a burocracia e muitos papéis para preencher... Além disso as aulas e os planos de recuperação são apresentadas como novidade...mas não serão essas aulas outro nome para as actuais "aulas de apoio" e não será esse "plano" o herdeiro dos planos de recuperação das extintas "ASE"s (avaliação sumativa extraordinária)?

Emilia disse...

Vamos esperar para ver o que já sabemos que vai ser!!!!!
Concordo plenamente quando diz que "será mais do mesmo" tal como se faz com as criancinhas que dizem que não gostam de sopa: "Não gostas? Mas comes!" Será que assim se passa a gostar? Duvido...
Sempre considerei as aulas de apoio, na maioria dos casos, inúteis. Creio que o processo é exactamente o inverso daquilo que deveria ser.
Emília.

fr disse...

Esta notícia, e as declarações do Secretário de Estado são mais do mesmo.
O que se pretende é fazer os professores trabalhar mais horas sem lhes pagar, ou seja, poupando dinheiro.
É o que está a acontecer todos os dias em muitas escolas. O que acontece é que os professores não têm tempo para preparar essas aulas de recuperação, pois o Ministério que que elas não sejam consideradas componente lectiva. Em suma, elas vão ocupar o tempo necessário para a preparação de aulas, das 'normais' e destas.
COncluindo, a qualidade do ensino vai descer, de uma forma geral, pois menos tempo de preparação vai corresponder a aulas empacotadas e uniformizadas.
É o que se está a ver agora em todo o país. Só não vê quem não quer ver.

Varela de Freitas disse...

Como esperava, este tema despertou interesse. Vou continuar atento a ele (acabei de publicar novo post). Todos partilhamos da mesma desconfiança em relação ao que parece ir ser proposto. Na verdade, considero lamentável pensar que se resolve o problema do insucesso com mais aulas (uma espécie de explicações). Mais: creio que salvo casos que infelizmente num país com as nossas carências de apoio social são mais do que deveriam, quase todos os alunos deveriam ter sucesso pelo menos ao nível do ensino básico. Penso que as escolas (e os professores) têm na generalidade meios para fazer mais do que fazem. Eu sei que isto é polémico, mas tenho alguma experiência para o poder dizer: muitas vezes, as culpas que se atiram para cima do ME deviam fazer ricochete. Parece que as escolas têm medo de ecercer a sua autonomia, e desculpabilizam-se com o ME. O caso que ic conta faz-me pensar... Não poderia a escola ter encontrado uma solução diferente?

IC disse...

Caro Varela de Freitas, só dizer que a minha escola está a procurar "inventar" soluções diferentes, mas, àquelas escolas que têm a falta de condições da minha, estou convicta de que concorda que podiam poupar-nos tantos obstáculos.:)