2005/10/12

Mais do mesmo


Leio nos jornais de hoje (ontem, não tive oportunidade de ver notícias na TV) declarações de responsáveis sindicais e de professores, a propósito da intervenção do Secretário de Estado da Educação acerca das medidas que comentei ontem neste blog, nas quais se usa a mesma expressão que empreguei, “mais do mesmo”, associada a uma certa desconfiança sobre os resultados de recuperações que se baseiem nesse princípio.
Embora continue à espera de ver concretizado no papel o que o Ministério propõe, não me contenho em desde já, dizer mais alguma coisa. Pertence precisamente aos professores (reunidos no conselho de turma) tomar as decisões que se imponham para tentar diminuir a taxa de insucesso. Na verdade, a legislação existente permite-o, e por isso, estou expectante acerca da maneira como o despacho ministerial vai ser elaborado. Não me parece que seja possível, nem desejável, impor modelos. Repito, é aos conselho de turma que compete estudar a situação dos seus alunos e propor soluções. A escola (agrupamento) terá de estudar os meios para compatibilizar essas diferentes soluções. As estruturas do Ministério da Educação, as existentes ou a definir, terão como função dar apoio. E outras estruturas (associações de pais, por exemplo) deverão ser chamadas a cooperar.
Mas atenção, para que haja sucesso, cabe aos professores o principal papel. O papel de se assumirem como professores e não como funcionários públicos (o que não quer dizer que deixem de ser críticos em relação a eventuais beliscaduras nos seus direitos). Continuarei atento a este assunto, que é, sem dúvida, da maior importância.

8 comentários:

adkalendas disse...

A questão é que neste momento, e com este Ministério, estamos a ser tratados como funcionários públicos, e não como professores.
É difícil ser professor quando os superiores hierárquicos não vêem diferença.

Varela de Freitas disse...

Adkalendas
Até posso concordar (pelo menos em parte). Mas a resposta mais nobre - porque são os alunos que estão em causa - é tentar ignorar as queixas e actuar profissionalmente.

adkalendas disse...

Isso nem tem discussão.

IC disse...

O que já me anda a confundir é que na minha escola (como já tenho denunciado)havia APAs (ou aulas de recuperação, como se queira chamar), sempre com balanço positivo em Matemática, e cessaram devido a corte no crédito de horas (não por causa do défice, mas no tempo das "vacas gordas" dos fundos da UE), havendo apenas para NEPs (necessidades educativas permanentes, comprovadas por atestado médico e obrigatórias por direito reconhecido na lei). Mas tenho percebido na blogosfera que esse corte não foi geral, que funcionam em algumas escolas, ou não funcionam apenas porque a respectiva escola faz um balanço negativo delas. Por isso, já estou confusa e também aguardo o que virá a ser definido no papel, mas lembro que os apoios estiveram sempre consagrados na Lei de Bases do Sistema Educativo como direito de TODOS os alunos que deles necessitem e não podemos deixar de ser críticos (como diz), dado que se trata de serviço lectivo - agora serão (re)implementadas APENAS porque serão integradas na componente não lectiva (gratuitas, portanto)?. (Na minha escola até já começámos agora a dá-las a alguns alunos, não deixámos de o fazer por não serem pagas, mas foi por introdução "clandestina" de outros alunos juntamente com os de NEP - portanto, até tentamos outras soluções de que me falou, mas repare que não é a melhor solução, pois há que conseguir fazê-lo sem prejudicar o direito dos alunos com problemas permanentes a uma atenção prioritária)
PEÇO DESCULPA sinceramente por me atrever a comentários, para mais tão longos, mas os seus artigos são ponderados e eu também ando a precisar de tudo o que me ajude a ponderar serenamente apesar de revolta contra outras tarefas, que por acaso até não me couberam, mas que ferem a consciência profissional de muitos professores verdadeiramente profissionais da educação e ensino.

adkalendas disse...

Continuando o meu comentário anterior, não tem discussão o facto de devermos actuar profissionalmente.
Mas deixe-me perguntar: como podemos actuar bem, profissionalmente, se não temos agora tempo para as actividades preparatórias que um ensino bem estruturado e fundamentado exige?
Onde pára a planificação, a actualização, a reflexão pedagógia?
COmo fazer avaliação, que tem que ser constante e contínua, se não tenho tempo nem para pensar nos conteúdos das aulas?
Tudo o que é indispensável está a ser posto em causa, por uma política que só vê o dinheiro que poupa.
Isto causa revolta, muita revolta, e começa a ser difícil explicar à família, e a mim mesmo, que tenho direito à minha individualidade e à minha vida privada, que não há noites, nem fins de semanas, nem tempo para nada em casa, pois o tempo na escola não chega, nem o tempo que nos dão em casa para as coisas da escola não chega também?
E surge a pergunta, curiosamente de uma criança: "Pai, tu estás a trabalhar tanto...tás a ganhar muito não é?"
...quanto tempo se aguenta?

Varela de Freitas disse...

Ic
Tenho defendido quase desde sempre que as escolas devem assumir a sua autonomia esgotando todos os meios para tal. Eu não sei interpretar o que se passou na sua escola, mas o que sei (porque o conta) é que houve alunos prejudicados. Sabe, muitas vezes a leitura que se faz de leis (ou circulares) é uma leitura cómoda, e em vez de se pensar que "tudo o que não é proibido é permitido" pensa-se que se deve proibir tudo para não se cair em interpretações erradas... Quando eu defendo que as escolas devem continuar a ser geridas por professores e não "gestores" não docentes, é precisamente porque só profesores podem perceber o que é importante pedagogicamente.
Não tem de pedir desculapa pelo comentário! Venha sempre, é um prazer conversar (mesmo numa conversa dilatada no tempo).

Adkalendas

Não sei como responder - até porque já o tenho feito noutras ocasiões. Concordo inteiramente consigo acerca das limitações e exigências que são muitas vezes óbices para uma actuação profissional gratificante. Certamente que a tutela (o ME) deve tentar encontrar soluções para tal, mas seja com este governo ou com outro, neste momento temos de conviver com uma realidade inescapável. Ou sobrevivemos com algum sofrimento ou lançamo-nos no abismo. A imagem é forte, mas será desajustada? Quando há anos estive em Moçambique e vi as melhores escolas de Maputo (não falo nas escolas debaixo da árvore dos arredores), pensei nas nossas queixas. E envergonhei-me.

PJ disse...

"Quando eu defendo que as escolas devem continuar a ser geridas por professores e não "gestores" não docentes, é precisamente porque só professores podem perceber o que é importante pedagogicamente."

Ora aqui está um ponto em que discordo consigo. Discordo por questões de princípio e com base na experiência das nossas escolas. Comecemos pelo princípio. Como é que conclui que só os professores podem perceber o que é importante no plano pedagógico? A compreensão destas matérias é algo de esotérico só passível aos iniciados? Não creio, de todo. Pessoalmente sou contra que um qualquer gestor, sem formação adequada, passe a gerir uma escola. Haverá que lhe proporcionar uma formação académica específica e um estágio exigente e prolongado. Se seguíssemos o seu pensamento os gestores dos hospitais e dos centros de saúde deveriam ser exclusivamente médicos e, só um farmacêutico poderia, como efectivamente acontece, possuir um alvará para ter uma farmácia, como não se pudesse ser gestor de uma farmácia garantindo a independência técnica e o código deontológico desta profissão. Sendo um bocadinho irónico, se me permite, só um cozinheiro poderia abrir um restaurante. Para mim não faz sentido. Um bom professor não é necessariamente um bom gestor. As universidades e os institutos politécnicos portugueses estão cheias de professores academicamente brilhantes que se limitam a fazer uma navegação à vista sem qualquer visão estratégica de médio e longo prazo.
É para mim também um mistério a razão pela qual as estruturas do Ministério da Educação (DRE’s, CAE’s, etc.) se encontram pejadas de professores que, em muitas circunstâncias, se limitam a fazer, com algumas excepções, um trabalho burocrático, no bom sentido do termo, que poderia ser tão bem ou melhor desempenhado por um funcionários públicos da carreira técnica superior.
E centrando-me agora nessa sistema perverso que é a “gestão democrática das escolas” sabe muito melhor do que eu como é fácil a um Conselho Executivo manipular eleições de forma a ser reeleito. É muito simples. Os funcionários contestatários são colocados na “lista negra” e aos professores opositores entrega-se um mau horário ou funções indesejadas. A reeleição está garantida e, por isso mesmo, vemos o mesmo sistema perverso de mandarinato das câmaras municipais reproduzido numa percentagem elevada nas nossas escolas.
O sistema que proponho é de um Director Executivo eleito por concurso público, não necessariamente um docente, mas sempre alguém com experiência e/ou formação na área de gestão escolar, controlado pela Assembleia de Escola, que funcionaria como parlamento da Escola. O mais importante é impedir a renovação sucessiva de mandatos. Penso que dois mandatos sucessivos seriam o máximo admissível.

Varela de Freitas disse...

PJ
Uma vez mais, discordar é normal! Continuo a sustentar que "as escolas devem continuar a ser geridas por professores e não 'gestores'não docentes". Tal como penso que a gestão dos hospitais deveria ser da competência dos médicos. Falta dizer uma coisa, claro: desde que saibam regras de gestão! O que podem fazer em cursos apropriados. Eu não sou nada corporativista, mas entendo que só quem tem uma visão pedagógica da escola pode conciliar os interesses da gestão eficaz da instituição com os seus objectivos educacionais. Sempre desconfiei de quem veio para a educação de outros meios; é verdade que há casos de adaptação e de boa prestação, mas não é a regra. Quanto às eleições, é certo que isso pode acontecer... como acontece fora do ambiente escolar... Finalmente, até aceito o concurso - mas para professores com cursos de gestão ou outras qualificações bem definidas.