2005/09/21

O tabaco e eu


Quando se apertam as regras para impedir a proliferação de fumadores, sobretudo para os mais jovens, sou levado a rever a história da minha relação com o tabaco.

Quando comecei a fumar? Como quase todos os garotos, quando no Liceu via os mais velhos a esgueirarem-se para a casa de banho para tirarem umas fumaças, e me convencia que crescia mais depressa se os imitasse… Como tinha em casa um exemplo vivo de fumador (o meu pai) um belo dia surripiei um “3 vintes” (quem se lembra?) e experimentei. Não vale a pena dizer que não gostei, como não vale a pena dizer que apesar de tudo insisti: e pelo fim do liceu fumava, não muito, é verdade, mas com certa regularidade. Verdadeiramente, só comecei a ter prazer no fumo quando um dia, teria os meus 17 anos, ao fazer uma viagem (sozinho) para a Beira Alta, no comboio da noite, comprei um maço de tabaco americano, o “L&M”. Que maravilha! Era muito caro para o meu bolso, mas mesmo assim sempre que podia misturava as marcas da altura – havia o “VIC”, de embalagem de cor vermelha, sobre o qual corria uma das muitas anedotas em que intervinha Salazar (e que me inibo de contar aqui…), o “UNIC”, o “Vera Cruz” – isto para não falar dos “Definitivos” e “Provisórios”, os chamados mata-ratos… – com as de tabaco americano ou inglês. Por exemplo, o já então célebre “Philip Morris”, mas também o “Camel”, o “Lucky Strike”, o “Marlboro”, o “Benson and Hedges”.

Continuei pois a fumar e sempre em crescendo. Surgiram novas marcas – por exemplo o “Porto”, que consumi bastante, e um tabaco curioso, muito escuro e forte, “Negritas”. Na altura não havia campanhas anti… Curiosamente, nunca conseguia fumar de manhã, antes de almoço; depois, eram uns a seguir aos outros… Mas nunca fumei numa aula.

Ora isto durou assim até um dia. Estava, nesse ano de 1963, em Lamego, a dar aulas no Liceu, aguardando que fosse chamado para estágio, o que ira acontecer em Janeiro do ano seguinte. Estava frio, e eu trabalhava, de tarde, no meu quarto da Casa de Santa Zita, onde estava hospedado (não havia outras instalações razoáveis ao preço que lá pagava, na altura). Preparava as minhas aulas, e naturalmente, fumava… Uma tarde, cansado, apesar do frio, achei que devia ir dar um passeio pela estrada do Relógio, e assim fiz. Era uma daquelas tardes outonais bonitas. Quando regressei, cheio de ar puro nos pulmões, abri a porta do quarto e quase dei um passo atrás: o fumo era tanto e tão espesso, que parecia uma cortina a impedir-me a passagem. Fiquei tão preocupado que disse para mim que não podia continuar a fumar. E num daqueles rasgos que de vez em quando são muito meus, pequei no maço de tabaco (que ainda teria uns dez cigarros) e lancei-o para o caixote de lixo, amarrotado. Estive sem fumar quase dois anos: mas ao acabar o estágio, tive uma recidiva. Com uma variante: comecei a gostar de cigarrilhas. Então, partilhava duas “Melior”, uma depois do café do almoço e outra depois do café do jantar, com um macito de tabaco normal…A pouco e pouco fui deixando cair os cigarros, e a dada altura deixei mesmo de os fumar. Conservei as cigarrilhas, religiosamente – uma depois de almoço, outra depois de jantar… Descobri depois o prazer do cachimbo (o tabaco “Players”, em lata e prensado, era sensacional) e durante anos foi meu companheiro – sempre depois de almoço. Abandonei-o porque os meus dentes não aguentaram…Quando estive nos Estados Unidos sofri, como qualquer outro fumador, as contingências do fundamentalismo. Fora de casa, praticamente não se fumava. Ainda me lembro de em pleno Inverno, com muitos graus negativos, ver a meio da manhã, à porta do meu “College”, duas secretárias de departamento, que viciadas, vinham fumar para a rua porque, lá dentro, não podiam…

Ora bem, há relativamente pouco tempo – dois anos e meio? três anos? – decidi, como nos anos 60, deixar de fumar de vez. Andava a tossir muito, e já não tinha com o fumo o prazer de outros tempos. E tal como outrora, deixei a meio uma caixa de cigarrilhas. E nunca mais fumei. Às vezes, depois de um bom almoço e de um bom café, sinto um longínquo apelo a uma boa cigarrilha. Mas passa.

Felizmente, não me tornei fundamentalista e não combato quem fuma, nem me faz diferença estar numa sala onde se fume. Mas estou contente por ter posto de lado o hábito (porque creio que nunca foi um verdadeiro vício).

2 comentários:

Bárbara Vale-Frias disse...

Há uns posts, no meu blog, escrevi sobre a minha constante preocupação com minha Mãe.

Fumadora compulsiva há mais de 30 anos, nunca está doente. Há dias, depois de uns meus conselhos gastos, respondeu-me que é como os enchidos que se conservam no fumeiro ;)

Os meus parabéns por ter deixado de fumar :) Presumo que sinta já muitas diferenças a nível respiratório...

Varela de Freitas disse...

Obrigado! De facto, melhorei da tosse... Penso, aliás, que o facto de ter deixado de fumar cigarros muito cedo, e ter enveredado por cigarrilhas e cachimbo, me terá de algum modo protegido. De qualquer maneira, sempre tive presente que fumar não devia ser grande coisa... (Quanto à resposta da sua Mãe, podia ter-lhe dito que hé quem pense que os produtos fumados não são bons para a saúde...)