2005/09/15

O novo ano lectivo


Recomeço a ver, no meu caminho para a Universidade, crianças e adolescentes com os seus “backpacks” a caminho das escolas. No meu tempo usavam-se, felizmente, pastas – teria detestado andar com pesos às costas!

É isso, aí está o novo ano escolar. Com muitas coisas novas. Como vão ser elas postas em prática? Apesar do meu optimismo, tenho algumas dúvidas no êxito de algumas delas. Mexer na educação é necessário mas é sempre perigoso. Há um princípio que em todas as situações de mudanças educacionais deve ser respeitado: é necessário que os professores compreendam essa mudança e a aceitem. Eu sei que é um princípio que à partida não tem sentido porque nunca todos os professores estarão de acordo em relação às inovações. Ah! Mas existe um outro princípio, elementar, que explica que as mudanças levam tempo a surtir efeito. Não se muda de um dia para o outro; é preciso mudar lentamente, ter paciência, persistir, convencer. Em alguns aspectos, estou convencido que haverá sucesso; noutros será difícil. Como tem sido referido por muitos, há mais concordâncias que discordâncias em relação ao que tem sido proposto, mas há também consciência que em muitos casos as variáveis locais vão interferir no processo.

Por outro lado, serão todas as coisas novas coisas boas? Uma vez mais creio que são no plano das intenções; levantam-se-me algumas dúvidas no plano da realidade. Também aqui, esperar para ver.

3 comentários:

Emilia disse...

A fim de tentar minorar esse peso que todas as crianças transportam diariamente "às costas" consegui, ao fim de três anos de apresentação de uma proposta, que fosse aprovada na minha escola a criação de uma sala de Língua Portuguesa. Nesse espaço estarão ao dispor de todos os alunos os materiais necessários para o desenvolvimento de diferentes actividades.
É este um pequeno contributo não só para “aliviar” o aspecto acima referido, bem como para uma prática pedagógica efectivamente diferente. Essa sala será realmente diferente quer na forma quer no conteúdo. Devo dizer que estou ansiosa (e também um pouco preocupada) por ver os resultados.
Um abraço,
Emília.

Miguel Pinto disse...

O meu comentário fixou-se na questão da mudança. Concordo como o professor quando sublinha a necessidade da mudança ser compreendida e percebida pelos professores para sortir efeitos na educação. Mas não chega. Creio que algumas das medidas que foram tomadas pelo ME falham nos pressupostos e por esse facto estarão condenadas ao insucesso. E aqui não se trata de optimismo ou pessimismo. Trata-se de procurar o sentido da mudança. Vejamos: Ao mexer no tempo de preparação [trabalho individualizado + trabalho na escola + tempo de reuniões] o ME esperava introduzir alterações na cultura docente. Estou convencido de que a intenção da ministra e dos seus colaboradores mais próximos era introduzir mudanças no trabalho dos professores levando-os a fomentar relações de colaboração com os seus colegas. Esta tese é pouco sustentável porque pressupõe que o individualismo [entendido como um fenómeno social e cultural complexo] é necessariamente negativo. Contudo, é o significado do termo que lhe confere uma conotação positiva ou negativa. Quem é que ousará afirmar que o individualismo é mau quando o seu significado anda associado à dignidade humana, à autonomia e ao desenvolvimento pessoal?
Ora, a meu ver, é a presunção de que o individualismo é uma fraqueza e não uma força que é preciso desmistificar: O pressuposto de que o individualismo anda associado a más práticas é tão falacioso como a suposição de que a colaboração é sempre genuína.

Legislar impondo culturas colaborativas é um erro que só alguns dos “privilegiados” que trabalham nas escolas podem aferir convenientemente.

Desenganem-se!

Varela de Freitas disse...

Emília
Parabéns não só pela ideia mas pela persistência! São essas diferenças - as suas e de muitas outras (e muitos outros, claro!) - que conferem esperança em que alguma coisa mude.

Miguel
É evidente que o trabalho individual nunca se pode dispensar e ninguém de bom senso o advoga. Em contrapartida, valorizar o trabalho em cooperação, ensinar a trabalhar em grupo e a tirar partido da partilha de saberes e de saberes-fazer é também indispensável (a própria democracia exige que assim seja, e a qualidade medíocre da nossa talvez se explique um pouco por falta de experiência nesse campo). Hei-de voltar ao assunto, porque merece.