2005/09/11

A dimensão das turmas


Num dos meus posts anteriores veio à discussão o problema da dimensão das turmas nas escolas (e, também, a sua constituição). Na minha vida de professor encontrei os mais variados exemplos. Quando comecei, no final dos anos 50, começo dos 60 do século passado, não era raro as turmas terem mais de 40 alunos. Também com mais de 40 alunos eram constituídas as turmas da Escola do Magistério de Viseu entre 1961 e 1963. Experimentei mais ou menos por essa altura ter uma turma de 6 (!) alunos em Lamego e 11 na Horta, mas eram turmas de História e Filosofia do último ano do curso complementar. Em liceus (perdoem-me a linguagem de “antigamente”, mas foi em liceus que ensinei, não em escolas secundárias…) nunca tive menos de 30 e tal alunos. No ensino superior, já nos anos 70, 80, cheguei a ter uma turma de 60 alunos, em cursos de complemento, mas em licenciaturas seriam sempre mais de 30. Em mestrados foram sempre menos: raramente as turmas ultrapassaram os 15 alunos. Também experimentei – mas nunca gostei! – a leccionação individual (vulgo “explicação”).

Há quem pense e defenda que a melhor educação é a educação individual – no fundo, a educação dos príncipes e das princesas, que com tutores e aias se preparavam para a vida. No limite, o melhor ensino seria mesmo assim: um professor para um aluno. Como isso se revelou impossível a escola surgiu como instituição necessária e desde tempos que provavelmente nunca serão datados ela tem funcionado com uma filosofia de educação partilhada, naturalmente em sociedade, porque essa é a maneira de o homem viver.

Não discuto, pois, o ensino em classe. Porém, reconheço que é necessário ter sempre em consideração o aluno-pessoa-com-características-únicas. O que complica muito a acção do professor, sobretudo se a classe (turma) for muito numerosa.

As turmas devem ser heterogéneas. Contrariamente a uma ideia expandida, não há benefício real em organizar turmas de acordo com características comuns. Há estudos que documentam casos de turmas heterogéneas – com alunos mais e menos dotados – nas quais ambos tiram partido dessa situação. Como é evidente, não quero desvalorizar as dificuldades em gerir classes com um número excessivo de alunos com necessidades especiais, sejam quais forem as razões (intelectuais, sensoriais, sociais – ou seja, comportamentais). Teoricamente, a inclusão total é uma ideia meritória; como passá-la à prática, não me parece, nem é, fácil. Seria aconselhável, por isso, que a constituição das turmas pesasse muito bem as situações divergentes existentes e agisse de acordo com o conselho de psicólogos experientes.

O problema da dimensão das turmas tem naturalmente sido objecto de investigações, que como muitas vezes acontece em educação não conduzem a resultados semelhantes. Nesse caso, há técnicas que procuram, a partir do conjunto de investigações produzidas, usando critérios estatísticos apropriados, encontrar uma tendência dominante. Considerando que os professores são qualificados e sabem usar as metodologias mais adequadas aos seus alunos, só existem diferenças relativamente significativas quanto aos resultados escolares se a dimensão da turma for inferior a 20 alunos. Em turmas de dimensão superior, até 30 ou mesmo mais, não existem diferenças nos resultados.

Temos no entanto de ter em atenção o que se disse: “considerando que os professores são qualificados e sabem usar as metodologias mais adequadas aos seus alunos”… Um mau professor terá naturalmente maus resultados mesmo com turmas de 15 alunos; um bom professor pode ter excelentes resultados com turmas muito maiores.

8 comentários:

PJ disse...

"No ensino superior, já nos anos 70, 80, cheguei a ter uma turma de 60 alunos, em cursos de complemento, mas em licenciaturas seriam sempre mais de 30."

Que sorte a sua, deixe-me
dizer-lhe. Não há mais de 5 anos atrás eu colaborava na leccionação de uma disciplina de formação educacional na área da formação de professores de uma faculdade do ensino superior público. Existiam aproximadamente 4 centenas de alunos matriculados. As aulas teóricas, leccionadas em anfiteatros, tinham que ser desdobradas em três para os alunos que o pretendessem pudessem assistir. O anfiteatro tinha uma capacidade para 90 pessoas, mas não era raro ver muitos alunos sentarem-se nas escadas. Em duas das aulas o anfiteatro estava completamente lotado e numa terceira, leccionada às 8.30 da manhã, estava normalmente preenchida a dois terços. Ao fim de 20 minutos, mesmo com a porta aberta, o ar tornava-se muito quente. Sempre que se pedia para ligar o ar condicionado o efeito era o contrário. Ao fim de 10 minutos a temperatura baixava muito e o barulho do aparelho, que não era passível de ser regulado, tornava-se incomodativo.
A situação actualmente é melhor, por via da diminuição do número de alunos e pelo facto de a formação de professores ter cada vez menos interessados. Mesmo assim, no ano lectivo passado, o número de alunos matriculados rondava os 170 para dois professores.
Subscrevo completamente as suas observações sobre a dimensão das turmas. Não nos esqueçamos, todavia, que nas melhores universidades do mundo o rácio é extremamente elevado, o que permite um trabalho aprofundado e intelectualmente estimulante. Com os números que referi não me venham falar de Bolonha e do novo paradigma de ensino subjacente.

Miguel Sousa disse...

Caro Professor, apesar de também conhecer alguns estudos acerca do caso, porventura menos, - por respeito a eles e à sua opinião - deixe-me discordar das verdades que colocou no seu texto (que gostei muito, apesar da assumida discórdia).

De facto um bom professor pode ter bons resultados com turmas maiores, mas provavelmente, dada a desejada heterogeneidade das turmas, se o número for inferior a 20 e superior a 15, parece-me que, o mesmo docente, pode maximizar o bom trabalho efectuado (daí que discorde da sua verdade que um professor pode ter resultados com turmas maiores). Quanto aos maus professores, bom, esses ou devem ser reciclados ou despedidos, nunca devem entrar para as contas deste rosário (se me permite a expressão).

Convém também ter em conta que a convulsão social que vivemos originou um ”boom” de alunos indisciplinados, uma realidade que devemos ter em conta na altura de construção de turmas e que implica claramente o número de alunos por turma.

Apesar do respeito (e admiração) pela sua experiência, o Professor não acha de difícil comparação os jovens dos anos cinquenta com os de hoje?

Finamente, porque gostei muito do seu texto, gostava de lançar este comentário no meu blogue, fazendo link para o seu artigo, pelo que peço autorização para tal.

SaltaPocinhas disse...

eu às vezes vejo tantos salamaleques nestes comentários que até me sinto mal com os meus comentários "pé de chinelo"... Mas adiante, que comecei assim e não é agora que vou mudar!
O tamanho das turmas é importante, muito importante mesmo.É muito difícil trabalhar com 20 alunos ou mais. 15 é o número ideal. Isto porque as turmas são heterogéneas, tal e qual como a sociedade.

Miguel Sousa disse...

Cara saltapocinhas, peço-lhe desculpa pelo salamaleque

Varela de Freitas disse...

PJ
Concordo que "dar" aulas a grandes audiências não é gratificante para a maior parte de nós. Contudo por vezes não pode deixar de ser. È interessante referir Bolonha. Porque Bolonha pode ser compatível com momentos de aulas para grande número de alunos - se houver, depois, espaços para outro tipo de contactos.

Miguel
Claro que pode fazer o link! Eu presumo que quando o blog é aberto esse é um tipo de atitude que não infringe códigos de conduta, creio. Quanto à comparação... Claro que as realidades são diferentes, há hoje um tipo de problemas que não existiam há anos, e concedo que existam casos particularmente complicados que se podem agravar com a constituição das turmas. Mas continuo a pensar que a heterogeneidade favorece a disciplina.

Saltapocinhas
Com 15 alunos qualquer professor deve ter bons resultados, não é?

SaltaPocinhas disse...

No ano passado tinha 17 alunos e não tive bons resultados... quer dizer,
se for a fazer uma estatistica até dá bons resultados, porque só um aluno ficou retido, mas eu não ligo a estatisticas...
Com crianças negligenciadas e que até passam fome, duvido que alguém tivesse bons resultados...Mas como vou ter formação extra a matemática, quem sabe as coisas não mudam?
(desculpa o cinismo, mas há coisas que me tiram do sério...)

IC disse...

De facto, com o "boom de alunos indisciplinados" que refere o Miguel e com a massificação do ensino (desejável, correcta, mas que inegavelmente alterou a situação), até pode não se conseguir bons resultados com 15 alunos sem que isso signifique que o professor seja mau professor. (Desculpe-me esta discordância, caro Varela de Freitas). Quanto à heterogeneidade, também a defendo convictamente.

Varela de Freitas disse...

Em relação aos dois últimos comentários, pedindo desculpa pelo atraso...

È evidente que quando digo que um professor com turmas de 15 alunos não deve ter insucesso essa afirmação tem de ser entendida com uma ressalva: se não existirem nessa turma casos particularmente desviantes. Assim, Saltapocinhas, tiveste um grande resultado! Deste modo, ic, concordo consigo: se a gestão da escola entregar a um docente uma mão cheia de alunos problemáticos na mesma turma, pouco há a esperar.