2005/05/28

O Maio de 1965 (3)


Manuscrito do plano da minha lição de Exame de Estado

Dia 28 de Maio de 1965. Lembro-me de como estava o dia, em Coimbra: cheio de sol e já quente. A aula era às 11 e 30, numa sala normal. Tinha logo de manhã trazido os dois textos que ia usar para serem duplicados na máquina a álcool que o liceu tinha, pedira um mapa no gabinete de Geografia, e nos dez minutos antes da aula começar (o intervalo dos alunos) estive a desenhar no quadro um croqui da batalha de Alcácer-Quibir. Não havia no Liceu nem diapositivos nem gravuras capazes para eu usar.

Recordo-me que os meninos entraram muito compostos e se portaram muitíssimo bem. É preciso ver que estavam a ser observados (como eu!) por um júri de sete membros, que se sentaram no fundo da sala. Quem eram esses membros? A presidir estava um professor da Faculdade de Letras de Coimbra, o Doutor Torcato Sousa Soares. Além dele, os seis metodólogos dos três liceus normais: Fernando Gilot (Filosofia) e António Stott Howorth (História), de Lisboa; Adelino Carvalho Martins (História) e Cândido Ferreira (Filosofia), do Porto; e Alberto Martins de Carvalho (História) e André Vicente Lapa (Filosofia), de Coimbra. Digo-lhes que era um friso!
Escrevi, nessa tarde, no meu diário de estágio:

“Não é o momento oportuno – talvez que esse momento nunca mais chegue! – para fazer o balanço da lição que dei.
Estava, não nervoso, mas excitado: por tal forma que a meio da lição se me “secou a garganta”…
Quando terminei, estava coberto de suor, exausto. Satisfeito – para mim, realizara uma lição ao nível de quantas tinha dado durante o meu estágio; usara os processos que na generalidade, se impunham; fizera uma aula mesmo activa: mas… o que diriam «eles»?”

“Eles” acabou por ser ele – o arguente (que durante a aula escrevera, escrevera, escrevera…), o Dr. Carvalho Martins, do Porto – e o seu comentário fez-me muito feliz. Não transcrevo o que escrevi no meu diário porque poderia ser mal interpretado – estava tão contente que exagerei, certamente, nos elogios em causa própria.

A quarenta anos de distância, contudo, penso que com os meios de que dispunha fiz na verdade o melhor que era possível fazer-se naquelas condições. Com uma turma desconhecida, sem pontos de referência sobre o que conheciam dos antecedentes, perante o olhar inquisitorial do júri, podia ter fraquejado, mas não fraquejei. Claro que hoje faria uma aula completamente diferente, com os meios que poderia dispor.

Recordo-me que a discussão da lição terminou muito tarde – a aula acabou perto do meio-dia e meia hora, houve uma meia hora de intervalo e só depois o júri se reuniu comigo. Lembro-me que o próprio professor da Faculdade de Letras me cumprimentou por ter usado um certo livro que citei na bibliografia. E recordo-me que quando tudo acabou, passada a hora do almoço há muito, nem fome sentia…

O estágio estava prestes a acabar, mas ainda faltavam duas provas. No dia seguinte houve uma prova oral sobre pedagogia geral, e no dia 3 de Junho uma prova escrita sobre métodos de ensino do tema “Movimentos autonomistas – Emancipação das Colónias espanholas da América”. Provas que na altura já pouco significavam para mim, que sabia que a lição era sempre a que marcava.

O estágio, como já disse em post anterior, foi muito importante na minha vida profissional. Não tanto pelo que me ensinaram mas pelo que aprendi (pode parecer estranho mas não é). Tive uma excelente relação de trabalho com todos os meus colegas de estágio, do meu e de outros grupos, vivi intensamente todos os momentos, e tive ainda ocasião de, não sendo aluno da Universidade, perceber o encanto de estudar em Coimbra. Num momento muito difícil da minha vida, um mês e pouco depois de começar o estágio, em que caí gravemente doente, experimentei a solidariedade coimbrã, a níveis que não imaginava, como ter sido tratado sem pagar um centavo por um professor catedrático da Universidade, o Doutor Antunes de Azevedo, que se deslocava a casa para me ver, visto eu não poder andar.

Como disse, nesses tempos havia exigência. Não digo que não exista hoje, claro, mas estou certo que poucos trocariam os esquemas que existem pelo estágio comprido, cheio de patamares com provas, que vigorava nos anos sessenta.

Termino aqui a minha evocação do que fiz há quarenta anos. Ainda no activo: se acrescentar, a esses quarenta, os seis anos anteriores, tenho quarenta e seis anos de serviço público. Não terei remorsos pois, quando me aposentar, sei que não lesei o erário público…

4 comentários:

PJ disse...

O seu depoimento é muito interessante relativamente ao processo de formação de professores. Hoje, mais do que nunca, impõe-se um processo de selecção e formação de professores bem mais exigente do que acontece actualmente. Os contornos da exigência de outrora devem ser adaptados aos tempos de hoje. A exigência será diferente, mas, no presente momento, teremos que adoptar rigorosos critérios ao nível das instituições formadoras e da sua acreditação. Mais do que nunca, precisamos de um menor número de professores para o nosso sistema educativo, mas de melhores professores. O ciclo da quantidade tem que dar lugar ao ciclo da qualidade.

MJMatos disse...

Surpreendente, caro CVFreitas, e inspirador. Para servir de guia em tempos nos quais os graus de exigência externa são bem menores e falta à exigência interna uma orientação definida. Obrigado por partilhar.

Zu disse...

O meu liceu. Alguns nomes que reconheço. O ano em que nasci. Uma realidade diferente da de hoje, mas de que muito ouvi falar a pessoas muito próximas. Obrigada pelo seu depoimento.
(apareço identificada por um nome diferente do que dantes usava; costumava assinar como 1poucomais)

Varela de Freitas disse...

Muito tarde - provavelmente não voltarão aqui! - queria agradecer as vossas palavras. E em especial para a Zu: se lhe fiz reviver memórias bonitas, parte deste blog passa a ter sentido.