2005/05/26

As licenciaturas em Letras antes do 25 de Abril


A propósito do meu post sobre os meus professores na Faculdade de Letras de Lisboa nos anos 50 do século passado, PJ manifestou interesse em saber mais sobre o que eram, ao tempo, as teses de licenciatura. Pensei que seria interessante, em vez de responder ao comentário, dar uma informação mais vasta – no fundo, é um aspecto da história do nosso ensino superior de há 50 anos que pode interessar a mais leitores.

As Faculdades de Letras ofereciam licenciaturas em Filologia Clássica, Românica e Germânica, Histórico-Filosóficas e, em colaboração com as Faculdades de Ciências, em Ciências Geográficas (quatro anos de curso com disciplinas e a exigência de um exame de saída, necessário para completar o grau, o qual consistia, no caso do meu curso, numa prova escrita de Lógica e em quatro provas orais – História de Portugal, História Moderna e Contemporânea, e Filosofia, além da defesa da tese). Não se impedia que o aluno requeresse esse exame de saída no fim do 4º ano, mas o número de candidatos que aproveitou essa hipótese parece que não excedeu o número de dedos de uma mão. Era de uma violência extrema assistir a aulas, fazer exames das disciplinas e ainda fazer a tese.

Então, o que era a tese?

O aluno escolhia livremente o tema que queria trabalhar, procurava o professor da área escolhida, obtinha o seu assentimento… e começava. Falo por mim, mas penso que genericamente o mesmo se passava com os colegas: era um trabalho para o qual contávamos com muito poucos apoios na Faculdade. Não havia, como hoje, um acompanhamento por parte do orientador; ao longo do tempo terei estado com o professor da disciplina que tinha de ver com a minha tese, arqueologia, umas três vezes… Fora isso, a tese era assimilável às teses de mestrado de hoje. Tanto quanto me lembro não havia regulamento que condicionasse quer a dimensão quer o formato da tese. A minha, que como disse foi sobre Arqueologia, tinha dois volumes, um de texto e outro de gravuras (a maior parte fotografias) com 294 e 99 páginas, respectivamente.

Quando comecei a pensar na tese, no final do meu 3º ano, ainda hesitei entre a História e a Filosofia. Ainda não tinha sentido o apelo da arqueologia (a disciplina era só no 4º ano) e o estudo de um filósofo atraía-me. Mas quando comecei a estudar arqueologia fiquei fascinado. Cheguei mesmo a pensar que seria essa a minha área de especialização, mas tive de deixar cair esse sonho. Bom, quando abordei o professor (recordo o seu nome, Manuel Heleno) e lhe disse que gostava de fazer uma tese em arqueologia, sugeriu-me logo a monografia de Torres Vedras, uma região que é muito rica em espólio de diversas épocas. Deu-me então o nome de um arqueólogo local que, não sendo o director do Museu (que hoje, aliás, ostenta com inteira justiça o seu nome – Leonel Trindade) era o mais conhecedor da arqueologia da região. Fui a Torres falar com ele (possuía um estabelecimento comercial no centro da então vila). Recebeu-me bem, abriu-me as portas do Museu e prontificou-se a ajudar no que pudesse. Em boa hora me decidi, porque durante alguns meses tive na região de Torres um trabalho aliciante, complementado por muitas pesquisas bibliográficas, sobretudo na Biblioteca Nacional. Estudei todas as peças do Museu e identifiquei todos os sítios com interesse arqueológico, fazendo mesmo prospecção e obtendo muito material, por exemplo nas praias elevadas de Santa Cruz. Não me posso queixar: tive de várias pessoas bons apoios, fora do meio da faculdade, que nunca esquecerei, sendo certo que a maioria delas já não está viva. Referi no meu post um deles, Bandeira Ferreira, que ao tempo trabalhava no Museu de Belém, um homem conhecedor, inteligentíssimo, que me ensinou muito. Mas tive contactos mais ou menos extensos com todos aqueles que na altura trabalhavam em arqueologia pré-histórica em Portugal, como Octávio da Veiga Ferreira, Georges Zbyszewski, Fernando Castelo Branco, Afonso do Paço, e ainda com o Dr. Aurélio Ricardo Belo, que possuía uma colecção de instrumentos da região, por ele recolhidos, e que me permitiu estudá-la.

Recordo que devo ter gasto uns bons seis a sete meses no trabalho de campo, com idas e estadias frequentes a Torres Vedras. Como era natural na altura, não tinha automóvel, por isso ia de comboio ou de autocarro, e ficava numa residencial, bem situada perto da Havaneza dos pastéis de feijão… Depois, bem, depois foram três meses para redigir a tese. A dactilografia entreguei-a a uma senhora que trabalhava na Biblioteca Nacional.

Como disse, o meu “orientador” não leu uma linha que fosse do meu trabalho. A tese era apenas uma parte da licenciatura. E só era defendida se o candidato passasse com êxito os exames (escrito e orais). Na verdade qualquer deles era contingente, dada a vastidão dos temas. Recordo-me que o exame de História de Portugal esteve longe de me agradar; o de Filosofia correu bastante bem, como o de História Geral. A arguição da tese pertencia somente ao professor (até me custa dizer orientador…). Ainda conservo as notas que tomei e o resumo que fiz da minha defesa. Não que me tivesse batido muito, mas alguns erros apontou.

Tudo isto durava três dias, ao fim dos quais era publicada a nota final, que nunca soube bem como era formada, mas penso que era votada, ou seja, não havia médias com as notas das diferentes disciplinas do curso com as dos exames. O júri decidiria por consenso (ou votação).

Terminei a minha licenciatura em 29 de Julho de 1959. Tinha 23 anos…

3 comentários:

PJ disse...

Obrigado pela sua rica descrição sobre a sua tese de licenciatura. Concluo, talvez um pouco apressadamente, que as actuais teses de mestrado seriam correspondentes às antigas teses de licenciatura e que as futuras teses de doutoramento serão equivalentes às teses de mestrado de há meia dúzia de anos atrás.

Anónimo disse...

PJ: Não exageremos!

Varela de Freitas disse...

Penso que o comentador anonimo tem razão, há algumas diferenças, sobretudo ao nível do acompanhamento pelo orientador, e ainda pelo maior domínio das metodologias de investigação. Contudo, devo dizer que no final dos anos 70, em Inglaterra, a minha tese de licenciatura era equivalente ao MA, ou seja, se eu quisesse propor-me a um doutoramento em História, ou Arqueologia, poderia ser aceite. Como queria educação, claro que não me foi creditada. Agora: temos de reconhecer que se tem vindo a embaratecer o produto...