2008/02/04

Viver em democracia


Sou daquela geração que normalmente ouvia pela primeira vez a palavra democracia no Liceu, quando se estudava a Grécia antiga: Atenas era uma cidade onde vigorava um sistema democrático, contrapondo-a a Esparta, cidade onde os éforos (sabíamos mesmo isso) controlavam o poder. A pouco e pouco, fui depois aprendendo o que poderia ser a democracia, mas só quando, já homem feito, tive oportunidade de sair de Portugal, percebi um pouco o que era. Depois, já entre nós nos havíamos libertado do “regime” de Salazar-Caetano, pude viver um ano em Inglaterra e três anos e meio nos Estados Unidos e essa foi uma aprendizagem insubstituível. Não que considere que não vivemos numa democracia – claro que vivemos – mas porque estamos ainda numa fase muito incipiente que, quero acreditar, só se alterará dentro de uma ou duas gerações.

O sistema democrático tem respondido bem no nível político. As muitas eleições que têm sido feitas para diferentes fins têm sido respeitadas e conduzido a soluções que têm funcionado. Governos com maiorias absolutas, de coligação ou maioria simples com arranjos parlamentares têm assegurado a vida do Estado. O mesmo para as autarquias – e veja-se o exemplo de Lisboa, que conseguiu ultrapassar (ou, melhor, estar a ultrapassar) uma crise gravíssima, em condições complicadas.

A outros níveis, porém, ando desgostoso com a nossa democracia. Para que um regime que deriva da palavra “povo” (“Demos”, do grego Δέμος) honre o seu nome, o povo deve ser informado. Por quem governa – e por quem se opõe a quem governa. Por isso me confunde que exista tão pouca informação – sobretudo informação clara, que chegue a todos, e isenta, isto é, que não seja apenas meia informação ou, pior, informação falseada – de parte a parte. Muitas medidas do governo, que eu percebo serem indispensáveis, não podem ser assim compreendidas por muitas pessoas (veja-se o caso das medidas no campo da saúde). E não me digam que os deputados na Assembleia, que ajudei a eleger, me representam “mesmo”; formalmente sim, mas na substância, não.

Da parte de partidos da oposição, apenas se vê o ataque e a promessa de fazer o contrário – o que manifestamente é um ludíbrio, porque não seria possível evitar muitas das medidas agora tomadas. Mais grave ainda, que na falta de informação se busque o ataque sob as mais diversas formas, desde a insinuação à mentira, sendo que neste aspecto a comunicação social, de uma maneira geral, se venha mostrando incapaz de desempenhar o papel pedagógico que deveria ter e não tem: o de esclarecer sem enviesamentos ou, se os deseja ter, assumindo claramente de que lado está. Porque em democracia, se uma fonte de informação (jornal, rádio, televisão) tem uma orientação política determinada deve declará-lo. É o que acontece em países de democracia desenvolvida. Ainda há semanas, o jornal da “minha” Universidade nos EUA, o Daily Iowan, declarava o seu apoio a Barak Obama e John McCain na sua candidatura presidencial.

Churchill disse, em 1947, que a democracia era a pior forma de governo, com excepção de todas as outras formas que têm sido tentadas de vez em quando. Dizia-o depois de ter sido derrotado em eleições para as quais se esperava que o povo inglês lhe desse um voto de reconhecimento pelo seu papel na Grande Guerra de 39-45. Dizia, assim, que apesar de tudo, a democracia era, à falta de melhor, a única forma de forma de governo possível. Só precisamos pois de aperfeiçoá-la. Isso, demorará as tais uma ou duas gerações que referia há pouco: confio, em absoluto, nas crianças de hoje!

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