2005/09/05

New Orleans


Nos meus anos dos Estados Unidos habituei-me a respeitar muito a “mother nature”, uma das expressões mais ouvidas na boca dos metereologistas que têm, nas estações de televisão, um papel fundamental (mesmo as estações locais têm o seu laboratório de metereologia assegurando informações essenciais, isto para não falar do Weather Channel, que transmite 24 horas por dia). Na verdade, quem vive em alguns Estados dos EUA têm de ter muita atenção ao tempo. Tufões, tornados, cheias enormes, trovoadas violentíssimas – tudo isso é previsto e divulgado, com conselhos a quem mora nas localidades que vão ser atingidas. Com excepção de tufões, onde vivi experimentei de tudo. O rigor que nessa altura existia (e acredito que hoje seja bem maior) era quase milimétrico: raras vezes falhava. Se o Denny Frary (o “meu” metereologista da KCRG TV9 de Cedar Rapids) me dizia que uma “severe thunderstorm” ia desabar em Iowa City às 9 horas, era mesmo às 9 horas que ela chegava…

Por isso, o que sucedeu em New Orleans não pode nem deve ser atribuído apenas à mãe natureza. Sabia-se que o Katrina era violentíssimo e sabia-se a sua rota (pequenos desvios seriam irrelevantes). Por isso foi dada ordem de evacuação da cidade. Por isso milhares de pessoas saíram e salvaram-se.

Contudo, parece que se sabia, também, que os diques que protegiam a cidade tinham fragilidades e por isso se planeava a sua recuperação. Também se sabia (sem nenhuma dúvida) que New Orleans tinha muitos residentes que, sem ajuda, nunca poderiam por si sair da cidade, porque eram pobres e não tinham automóvel. Ao nada fazer para ajudar na evacuação quem não podia fazê-lo, ao eventualmente subestimar a violência do tufão (mas como, se o seu nível era já de destruição), os homens – e não a mãe natureza – têm de ser culpados.

Há três anos, estive em New Orleans alguns dias e encontrei na cidade velha (o “French Quarter”) dos ambientes mais interessantes dos Estados Unidos, uma mistura da Europa e da América a que os músicos de rua, herdeiros de Louis Amstrong, davam um toque especial. As notícias que chegam dão a ideia de que será possível recuperar essas ruas cheias de casas baixas com varandas e flores. Pelo menos que isso aconteça.

Apenas um último pensamento: se isto foi possível no país mais desenvolvido do planeta, como criticar o que de semelhante acontece em países menos desenvolvidos?

12 comentários:

LA-C disse...

Conformo o que diz.
Nao ha' nada que tenha acontecido, desde a violencia do "hurricane", aos diques que cederam e cheias que se seguiram, que nao tenha sido anunciado previamente nos canais televisivos. Nao quero para ja atribuir responsabilidades (locais, estatais ou federais), mas que os mais pobres foram deixados a sua sorte disso nao tenho duvidas.

LA-C disse...

Conformo -> Confirmo

PJ disse...

Inspirado no Abrupto receio ter que lhe dizer que a sua entrada está atravessada por um espiríto de anti-americanismo próprio da "velha Europa"...

K2ou3 disse...

Lamento Varela, mas tenho que discordar contigo, com o LA-C, já o fiz.
Estava prevista a violência, é certo. Mas quem poderia ser vitima não fugiu. Ou não pode, ou não quis, ou então, achou simplesmente que seria "como os outros". E as autoridades, tinham que contar com a boa vontade de quem precisava de ser ajudado. Tenho quase a certeza que essa boa vontade não existiu.
E tem mais, uma operação de evacuação em massa, era "GIGANTESCA", não podemos falar somente da cidade de New Orleans, hà muitas cidades, vilas e lugarejos satélite. Era uma operação que implicava movimentar uns "miseros" sete MILHÕES de pessoas em três dias.
Varela, Auem adivinhava que o vento, ou a tempestade ia "rebentar" com paredes de dez a doze metros de espessura, em betão armado.
Acho que isso sequer passou pela cabeça de ninguem.
O pior problema de tudo isto foi, e ainda é, e vai ser por mais alguns dias, a água. Não há forma de poder utilizar os meios normais de socorro. h´zonas que só mesmo helicópteros.
Uma outra coisa da qual ainda não ouvi falar, foi nas epidemias. Aquela zona é zona de pântanos, possivel fonte desde malária até cólera, não ouvi falar em ajuda em vacinas. Disponibilizamos 2% das nossas "reservas"em combustiveis, mas esqueceme-no de que os Estados Unidaos gastam por dia, quase o que gastamos em seis meses.
Antes estivésse-mos sossegados.
Ainda hoje, vi que vamos enviar um "contigente" de 38 militares para o Kosovo. Vão ser mais é certo. entre cozinheiros, encarregados de lavandaria, socorristas, etc,...

SaltaPocinhas disse...

Os americanos têm um bocado a mania que são seres superiores. Invadem países soberanos e destroem-nos por completo como se tivessem esse direito. Claro que o Iraque não era nenhum exemplo de democracia, mas isso não dá a ninguém o direito de interferir assim. Haveria outras maneiras, com certeza...
Se calhar o furacão também foi mandado pelos árabes"
Tenho muita pena das pessoas inocentes que morreram, mas num país com tantos recursos acontecerem desgraças desta amplitude só mostra que eles menosprezaram o perigo (ou então aquela gente são americanos de 2ª, não mereciam o esforço!)

fr disse...

Algo vai muito mal, no país do dinheiro. Com tanto poder, económico, político, militar, científico, os EUA não conseguem criar condições para melhorar o impacto de um desastre destes?
Não discuto a amplitude do furacão e dos seus efeitos destruidores, mas dá que pensar que as autoridades demorem tanto tempo a socorrer os que não puderam e/ou não quiseram sair da zona antes da tempestade.

LA-C disse...

K2ou3
Quando diz que ninguém previa uma catástrofe destas dimensões, estás factualmente errado. Eu ouvi as notícias um dia antes. Tudo o que aconteceu foi anunciado. Desculpa a sinceridade, mas isto não é uma questão de opinião, é factual.
Quanto ao resto, ou seja quanto à atribuição de responsabilidades, concordo que cada um tenha, para já, a sua opinião. Mas não vale a pena ser mais papista que o papa. Todos os políticos americanos já assumiram que houve imensas falhas na cadeia de comando.

PJ disse...

Ainda relativamente ao furacão que atingiu New Orleans e à ausência de uma assistência eficaz às vítimas sugiro a leitura de um artigo de Paul Krugman publicado no International Herald Tribune (http://www.iht.com/protected/articles/2005/09/02/opinion/edkrug.php).

Varela de Freitas disse...

Escrevi o texto lembrando-me dos sobressaltos que tive nos EUA por causa das calamidades provocadas por fenómenos naturais e por saber que a nível de previsão os serviços são sensacionais (com excepção dos terramotos na Califórnia, ainda não previsíveis). Contrariamente ao que o PJ diz (certamente a brincar) não sou nada anti-americano, bem pelo contrário, porque admiro os EUA, senti-me sempre bem lá e volto com alegria; e se tivessse de escoilher um país para viver sem ser Portugal, era lá que gostraia de estar (apesar de ser um europeísta convicto). Isso não quer dizer que não reconheça erros e falhas - e estou convencido que houve erros e falhas neste caso. Concordo com k2ou3 quando diz que terá havido quem não quisesse sair e que seria uma tarefa desmedida evacuar a totalidade das pessoas em perigo. Isso não significa que perante um tufão de grau 5 (passou a 4 junto à costa) não se tivesse feito mais (tanto mais que sa sabia que os diques estavam fragilizados).
Uma das coisas que acho detestável em casos como este é procurar sacar os chamados "dividendos" políticos. Para mim, o facto de a administração ser republicana, como é, ou democrata, como poderia ser, é irrelevante: apenas me limito a verificar um facto.
Isto faz-me lembrar a ponte de Entre-os-Rios: porque também aí houve necessariamente culpados.

K2ou3 disse...

Desculpa LA-C,
Mas o que está a causar os maiores problemas, a quebra dos diques, nem sequer passou pela cabeça de ninguem.
O resto, sim. mas não foi considerado como causador de tamanho tanta desgraça. Foi considerado como mais forte do que o "habitual".
A natureza é imprevisivel, por isso é que acontecem as catastrofes. E aqui nos Açores temos alguma experiência disso.

LA-C disse...

K2ou3 diz:
“Mas o que está a causar os maiores problemas, a quebra dos diques, nem sequer passou pela cabeça de ninguem.”

Respondo:
É falso. Foi previsto. No dia anterior, na televisao, avisaram que provavelmente 80% de New Orleans ficaria submerso. Isto ouvi eu e lembro-me muito bem das dificuldades que tive em acreditar, até explicarem que a cidade estava uns bom bocado abaixo do nível do mar.

K2ou3 disse...

Desculpa LA-C.
De facto estás numa situação previligiada, e não ponho em causa o que dizes.
Mas 24Horas???. ONDE e como se pode "minorar"???.
A Holanda é bem possivel que venha a ter o mesmo problema, ( pelos meus poucos conhecimentos, quase 40% do teritório). Já viste o que evacuar toda esta população?. e não é só evacuar, é preciso dar condições de sobrevivencia, durante bastante tempo.
Ninguem sabia!
E como já disse, seriam milhões.