2005/07/13

"Pot-pourri" sobre educação


O meu jornal, on-line de segunda a sexta e em papel aos sábados e domingos, é o Público. Da edição de hoje, três notícias sobre educação…

1 Governo mantém política de contenção de vagas no ensino superior
Mas cria 60 novos cursos! Não haverá alguma contradição entre o que se diz e o que se faz? Continua a oferta ampla em Direito (mais 1240 vagas) e Arquitectura (511). Sem contar com as privadas… Tudo bem, deve conceder-se liberdade aos alunos para seguirem as suas vocações… são crescidinhos, devem ter ponderado o que pretendem de um curso superior.

2 Ano lectivo mais cedo e escolas abertas mais tempo
Certo. Tenho para mim que os “desdobramentos”, que começaram a ser norma em muitas escolas em meados do século passado, foram e são responsáveis por grande parte dos problemas globais da educação entre nós. Os alunos devem estar na escola durante o dia, cumprindo um currículo cuidadosamente pensado para o seu desenvolvimento integral (isto é, não devem estar sempre em aulas tradicionais…). Os professores também devem estar na escola todo o dia – dedicando-se às tarefas educativas, que também não são só aulas…

Um problema: esta decisão não pode, infelizmente, aplicar-se a todas as escolas (a notícia refere que 50% delas não terá condições para evitar o desdobramento). É pena, mas mais vale alguma coisa do que nada. Aplausos.

3 Ministra reconhece falhas no ensino básico
É um começo: seria tolo não reconhecer. Os resultados dos exames do 9º ano de Matemática, sem grande surpresa, diga-se, mostram na verdade problemas. Seria importante que se fizesse um estudo sério sobre esses resultados procurando correlacionar variáveis que reconhecidamente podem interferir no êxito ou fracasso dos alunos. Ouvi na segunda-feira o Prof. Adriano Moreira identificar claramente a situação real da educação em Portugal: temos uma franja de excelência a par de uma banda larga de mediocridade (dos 30% que tiveram êxito em Matemática, qual a percentagem de excelência? 5%? 2%?). Há quarenta anos, quase só estudavam os alunos que hoje pertencem a essa franja; hoje, estudam todos. Nada que outros países não tenham conhecido, e que porventura ainda conheçam; só que estão cem ou mais anos à nossa frente. Há que fazer alguma coisa, mas não é só na escola. E mais não digo, por hoje.

10 comentários:

SaltaPocinhas disse...

Cheguei a casa há pouco e ouvi a notícia das escolas abertas mais tempo...Como? Com quem? Vão pôr os professores a trabalhar 8 horas por dia na escola? (é que depois ainda há os nossos TPC...)
Se as escolas estão abertas 8 horas por dia, são mesmo 8 horas: as crianças almoçam lá e não ficam sozinhas à hora de almoço!
Fico apreensiva de todas as maneiras: e aquelas professoras que estão sozinhas em escolas perdidas nos montes com 2 ou 3 alunos ficam lá 8 horas? Dão em doidas e olha que não demora muito...Quanto a escolas como a minha, não há espaço para nada, nem para arrumar as coisas de que precisamos. Não deve ser abrangida porque (infelizmente)já está aberta 10 horas por dia.
Hoje não estou de acordo contigo: as coisas começam-se pelo princípio, não pelo fim: primeiro criam-se as condições, depois põem-se as coisas a funcionar...
Eu sei que existe uma escola nova - mas só no papel - que a ser feita abrangeria a minha escola e a outra vizinha, mais as respectivas prés.
Façam a escola e depois sim, há as tais condições tanto de espaço como do corpo docente que passa a ter muito mais pessoas!
E mais não digo que hoje estou com a neura e ainda digo algum disparate!

fr disse...

Afirma que os professores devem estar Escola todo o dia. Eu só pergunto isto. Que condições têm as escolas para os professores lá trabalharem fora dos tempos lectivos?
Eu adianto-lhe a resposta. Nenhumas. Desde materiais de trabalho, a espaços para trabalho, é imopssível manter os professores nas Escolas. Pelo menos nas que eu conheço.
Digo-lhe só que, se eu deixasse de utilizar os meus materiais de trabalho e o meu computador, deixaria de fazer testes, de imprimir originais de testes, de arquivar materiais, porque não há dossiers, em suma, pura e simplesmente ia para as aulas só com o manual. E fotocópias, nem pensar, só para testes.
É como funciona na minha Escola, que é Secundária.
Ora, o panorama nas do 1.º ciclo ainda é pior. Nas que conheço, foram os professores que pagaram fotocopiadora, que compram o papel e o toner, e muito material para lhes facilitar o trabalho.
É fácil falar quando se tem um gabinete de trabalho, computador e impressora e papel e tudo o necessário à disposição.

ac disse...

Realmente não são sessenta novos cursos no ensino superior.
Uma leitura atenta revela que essa contagem (do Público?) não teve em consideração alterações de denominação, reorganizações dos cursos ministrados, etc.
A par de muitos encerramentos.

Varela de Freitas disse...

A Saltapocinhas
Em primeiro lugar, não espero que toda a gente concorde comigo em todas as circunstâncias, e disso não vem mal ao mundo. Mas: os alunos devem ter para eles a escola aberta num horário normal, manhã e tarde; os professores devem estar na escola as 35 horas semanais de qualquer funcionário público (mas reconheço que há escolas onde isso é difícil por não haver instalações, e nesse caso o órgão de gestão da escola deve decidir o que fazer). Isto é o que acontece na generalidade dos países - e quando falas do almoço, sempe digo que é uma das tarefas a que rotativamente os professores da maior parte das escolas nos EUA são obrigados, o de estar presente na hora do almoço das crianças na cantina. Dirás que isso é porque têm condições, e é verdade, Quantas escolas portuguesas (1º ciclo)têm cantina? Mais: escolas com 2,3 alunos, devem fechar; salvó raríssimas excepções, há hoje meios para o transporte de alunos, e há experiências muito positivas de concentração, em todo o país. É preciso que as autarquias se convençam que é a elas que compete dar ás escolas as condições (e não é difícil, basta dar menos aos clubes de futebol).

A fr

Reparou que eu disse que a decisão não se poderia aplicar a todas as escolas (o nível de ensino pouco importa). Mas onde é possível não vejo que existam argumentos que contrariem o princípio: o professor não deve ser apenas o que "dá" aulas, e que pauta a sua vida pelo número de horas dessas aulas. Mas eu não quero convencer ninguém, apenas dou a minha opinião...

A ac

Escrevi tendo apenas presente a edição electrónica do jornal, não fiz ainda (nem provavelmente farei) qualquer análise mais detalhada. Mas penso que temos cursos com vagas a mais, atendendo ao numerus clausus.

ac disse...

Apesar de tudo penso que vale a pena olhar com mais atenção para as tendências no que se refere a cursos e vagas.
No site do MCTES estão alguns números acerca das vagas por áreas e sua evolução.
http://www.mctes.pt/docs/ficheiros/MCTES___Nota.doc

Miguel Sousa disse...

Passo cerca de 47 horas na escola e estou disposto a passar muitas mais se efectivamente for para bem dos alunos e se os politicos e os média deixarem de bater nos professores como um todo.
Se já reparou caro professor, a reacção dos professores teve duas fases distintas, primeiro form todos a "cuspir na sopa", agora ficam só os que realmente estão iinteressados nos alunos.

Como exemplo da falta de condições gostaria de deixar cá um de uma dimensão diferente - a lei diz que um professor tutor tem que ter de dez a 30 alunos. Acha isso possível? fazer tutoria com tantos alunos? não estão confundindo o papel do tutor com o director de turma (sempre pode ser forma de acabar com o segundo).

Perante este cenário resta-me lhe dizer que o que os politicos estão fazendo (assumo que votei neles) é jogar areia para os olhos dos portugueses, com meia duzia de medidas avulsas, disfarçando o essencial, que é o foro economicista das medidas tomadas. Disso, o congelamento das carreiras é um exemplo paradigmatico que infelizmente os sindicatos não souberam aproveitar. Acha sério que se suspenda uma medida POR UM ANO E MEIO, sem apresentar alternativa. Sabe eu adoro a minha profissão, faço-a com alegria, mas....o que estou passando sabe a pouco...muito pouco. O que me resta é a alegria dos meus alunos, a sua rebeldia....só por isso é que não mudo de profissão.

fr disse...

Agradeço a resposta que deu, mas penso que uma outra questão se coloca.
Imagine que eu sou obrigado a ficar na Escola 35 horas. COmo não tenho condições para trabalhar, deixo de preparar aulas, de avaliar testes, de estudar, de pesquisar, de elaborar fichas de trabalho e outros instrumentos de trabalho lectivo.
Será assim que se melhora a qualidade do ensino? Ou antes de tomar uma decisão destas deve-se saber quais são as condições da sua execução. Só que isso parece não preocupar os (i)responsáveis do ME.
P. S. Não esotu a fazer um cenário virtual. Pela minha experiência não tenho nenhuma dúvida que muitos Conselhos Executivos vão passar a exigir a presença dos seus professores na Escola, só para os fazer assinar uma folha de presenças, mesmo que não tenham nada que fazer, por falta de condições...
Adeus aulas...adeus qualidade que ainda restava no ensino em Portugal, adeus profissão docente.

SaltaPocinhas disse...

O meu horário é, sempre foi, de 35 horas semanais: 25 lectivas, 10 não lectivas. Por falta de condições de trabalho nas escolas essas 10 não lectivas são utilizadas em casa. No meu computador, com o meu papel, a minha tinta, a minha electricidade, o meu aquecedor... e também asminhas comodidades. Se tivesse condições de trabalho na escola garanto-te que preferia ficar lá as 2 horas por dia e depois, quando chegasse a casa, esquecer a escola. Evitava passar muitos serões e fins de semana a trabalhar. Agora há uma coisa que eu não entendo e que gostava que me esclarecesses caso já o tenhas entendido (e isto sem ironia nenhuma): se eu ficar as tais 7 horas por dia na escola elas não serão todas lectivas? porque, por aquilo que li do que a ministra disse, os professores ficam na escola mais tempo a apoiar os alunos. Ora se estou a apoiar os alunos estou a trabalhar directamente com eles, não interessa que actividade seja, isso para mim É LECTIVO. O que eu pergunto é: quantas horas vou ter de trabalhar além das 35 que ficar na escola, para fazer aquilo que hoje faço (trazer rimas de livros e cadernos para casa para corrigir trabalhos, fazer fichas, e essas tarefas todas que tu sabes). Aqui reside a minha principal dúvida que ainda não consegui ver esclarecida por ninguém. Eu não me importo de trabalhar as tais 35 horas porque já o faço há muito! Se me dizem que tenho de o fazer na escola, melhor ainda. Mas quero as condições que tenho em casa, pelo menos... O que me preocupa é que essas 35 passem a ser lectivas. E depois?

Miguel Pinto disse...

Não te preocupes, Saltapocinhas. A cartilha está aí, está mesmo a chegar. ;)

Varela de Freitas disse...

A todos os que comentaram ontem

De vez em quando, provoco agitação... o que não deixa de ser bom. Penso que, provavelmente estando de acordo comigo (pelo menos, parece) têm da escola e do Ministério uma ideia diferente da minha. Terão razão, porventura, porque estarei a imaginar como as coisas devem ser e não como são. Mas já ressalvei que onde não há condições não se pode pensar em concretizar mesmo as boas práticas. Quanto ao resto, continuo a pensar que vivemos todos um momento crucial e que se não o aproveitamos agora podemos estar a cometer um colossal erro, que poderá levar o país a uma situação dez vezes mais grave do que aquela que vive. Não ver isso é cegueira. É óptimo haver liberdade para protestar; será péssimo se essa mesma liberdade conduzisse à destruição da própria liberdade.
Agora, individualizando:
ac: irei consultar o site, quando dizia que não iria demorar muito na análise era por falta de tempo. Agradeço a informação;
Saltapocinhas: A ideia de actividades lectivas está ligada â situação em sala de aula... Na escola que gostaria existisse um professor estaria disponível para ajudar alunos para além das aulas, as tais 35 horas não poderiam ser totalmente preenchidas com aulas.
Miguel Pinto: As cartilhas são para ser lidas e interpretadas, e devo dizer que às vezes são mal interpretadas... (Claro que enquanto os normativos não forem publicados teremos de ser prudentes e não louvar nem vituperar, creio eu).