2006/01/29

Os lugares onde vivi – Lisboa (1970-1977)


Regresso pois a Lisboa nos começos de 1970, desta vez com casa própria, se bem que alugada. Não vou estar muito tempo nela, também: apenas seis meses. No fim do ano escolar (Junho-Julho) houve nova alteração da minha situação profissional e tendo surgido uma oportunidade de passar para uma casa mais ampla e bem situada, mudámo-nos, passando a residir num 7º andar de uma pequena artéria ao Campo Pequeno, que se chamava então Travessa do Marquês de Sá da Bandeira e hoje se chama Rua Laura Alves. Esta casa continua a ser a “nossa”, embora em condições diferentes; até há bem pouco tempo era alugada, e passou a ser propriedade da filha. Vivi ininterruptamente nessa casa de 1970 até 1977 e entre 1979 e 1983; depois dessa data, apenas a espaços.

Nestes 35 anos, muita coisa mudou na paisagem envolvente da minha casa! Chegando à varanda da frente, tinha campo aberto – o quartel do Trem Auto, do qual se via claramente a parada, permitia ver a linha de Monsanto, lá ao longe. Nas traseiras, também havia largueza – em frente havia um armazém, relativamente baixo; via, na Avenida 5 de Outubro, passarem os carros. Só na esquina da Avenida de Berna havia um edifício do mesmo porte daquele em que vivo. Menos agradável o facto de ter igualmente vistas para as traseiras do hospital do Rego e de o prédio ficar no enfiamento do corredor principal de aterragem do aeroporto da Portela, com os aviões a fazerem por vezes um ruído enorme.

Era então fácil estacionar o carro quase à porta de casa. Lisboa não era, ainda, sujeita ao inferno do trânsito dos nossos dias, a ainda não se tinham sacrificado nelas árvores das Avenidas Novas para aumentar os lugares de estacionamento. A razão disso não era que os transportes públicos fossem muito melhores – o metropolitano continuava com as duas linhas com que se inaugurara, e autocarros e eléctricos, estes já a serem postos de parte, eram poucos e com horários muito espaçados – mas porque o parque automóvel era muito menor (e pior). Nesse tempo ainda era possível cruzarmo-nos, de madrugada, com carroças carregadas de produtos das hortas que vinham dos arredores para os mercados lisboetas…

A minha memória desses anos não pode deixar de estar profundamente marcada pelo 25 de Abril e sobretudo pelo 1º de Maio de 1974. Creio que Lisboa nunca terá vivido e porventura não voltará a viver um dia semelhante ao 1º de Maio (já escrevi sobre ele neste blog).
Também não posso esquecer o Novembro de 75, o ambiente tenso que contaminou a cidade.

Estes anos foram anos de consolidação profissional, ligando a profissão docente para a qual me preparara, à gestão – que tive de aprender com bons mestres que eram meus subordinados (!) mas com quem tive as melhores relações, e que me deram ferramentas importantes que usei nos anos que vieram.

A década caminhava para o seu final, e os rumos da educação tardavam a ser os que eu gostaria fossem tomados. Experimentara ser professor metodólogo no Liceu Pedro Nunes, chefe de divisão e director de serviços no Ministério da Educação, fora, durante cerca de ano e meio, consultor da Norma (Departamento de Psicologia Aplicada), quando numa altura em que regressara ao meu lugar de professor num Liceu de Lisboa (onde era efectivo, aliás: o Liceu D. Filipa de Lencastre), recebo um convite que mudou a minha vida. Em Fevereiro de 1977 esse convite faz-me viajar até Braga. Braga, que conhecia por em 1973 ter estado na equipa do Ministério que estabeleceu com o Conservatório Calouste Gulbenkian a sua integração na rede escolar pública, e por lá ter passado umas duas ou três vezes. Braga será, pois, a nova cidade onde vou viver.

7 comentários:

António Carlos Coelho disse...

Olá prof. Varela de Freitas,

Ainda bem que veio até Braga!!!
(Aproveito para o informar que a Didáctica da Invenção está de volta.

Um abraço

A. Carlos Coelho

homoclinica disse...

Professor efectivo no Liceu D. Filipa de Lencastre?!!! Eu fui lá aluna de 1960 a 1967. Nessa altura não havia lá um único professor. Só professoras!

moriswarner82905021 disse...

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Felicidades!
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Varela de Freitas disse...

Esm especial, para a Homoclínica
É verdade o que eu disse... Todos os liceus que eram apenas femininos (havia-os em Lisboa, Porto, Coimbra e Aveiro, pelo menos) passaram a mistos (alunos e corpo docente) depois de 1975-1976. Logo, depois de ter sido aluna no Filipa. Era um belo liceu!

homoclinica disse...

Era um belo liceu, sem dúvida!
Todas tinhamos uma espécie de emblema (o meu era verde) que viajava connosco de ano para ano. Quem não chumbasse nunca mudava de cor. Lembro-me bem das professoras Virgínia Paraíso, Aliete Galhoz de francês), Caimoto (de Portugês), etc. Ainda conheceu alguma destas? Gostei imenso da de história e da de matemática, mas infelizmente já não me lembro dos nomes. Lembro-me de ouvir tocar no Técnico!!! Quem diria que passados alguns anos eu estaria lá e por tanto tempo... mas já sem toques para entrar e sair das aulas.

Varela de Freitas disse...

Conheci todas essas notáveis profesoras e com uma delas privei mesmo bastante, na Direcção-Geral do Ensino Secundário, a Aliete, que era uma senhora de uma sensibilidade extraordinária. A professora de História de que fala poderia ter sido a Maria Emília Cordeiro Ferreira, com quem também trabalhei no sector dos estágios. Era também uma grande professora. Sem querer ser saudosista, apetece-me dizer: "Outros tempos!"