2005/12/16

Os lugares onde vivi – (3) Santarém (1959-1960)


Tinha 23 anos, um curso universitário de História e Filosofia com classificação final de bom, queria ser professor (desde criança que queria ser professor). Na altura, bastava ir à Direcção-geral do Ensino Liceal, que funcionava no campo de Santana, no belo palacete que é hoje a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, e fazer um requerimento em papel selado (lembram-se do papel selado?), cuja norma era fornecida por uma funcionária que nos atendia, solicitando colocação como professor de serviço eventual. Não havia multidões a requerer, e também não havia dezenas de vagas…

Recordo-me que a lista dos colocados vinha na II série do Diário do Governo (assim se chamava o actual Diário da República) num dos últimos dias de Setembro. E no dia 1 de Outubro devíamos estar no Liceu onde tínhamos sido colocados, recebendo para o efeito, se fora de Lisboa, uma requisição de transporte para a viagem de comboio em 1ª classe.

Tinha uma secreta esperança de ficar em Lisboa, mas não fiquei: fui colocado em Santarém. Santarém ficava a pouco mais de uma hora de comboio de Lisboa (se fosse rápido). Ainda tentei o que hoje é comum – continuar a viver em Lisboa e fazer a viagem diária, o que era possível, tanto mais que eu não tinha aulas de tarde; mas cedo percebi que não podia fazê-lo sem sacrificar grandemente a minha preparação de aulas – era o meu primeiro ano! – e, naturalmente, sem que tivesse um grande desgaste (tinha de me levantar todos os dias pelas seis da manhã para apanhar o comboio pelas 7 em Entre Campos, mudar em Braço de Prata para chegar a Santarém às 8 e 25, tomar na estação um táxi que me levasse, colina acima, até ao liceu). Por isso acabei por alugar um quarto numa casa perto do liceu, na Rua António Bastos, no qual fiquei até ao fim do ano.

Santarém era, na altura, uma cidade relativamente pequena. Cheia de história. Recordo-me que me encantei com as ruas estreitas da parte antiga, com as igrejas (Santa Clara, logo ao pé do liceu, a Graça, São João de Alporão, Marvila…), com a vista das Portas do Sol (foi um ano de cheias, era uma paisagem incrível, apesar da ansiedade pelas populações isoladas). A cidade não tinha nessa altura crescido como hoje, as zonas mais modernas apenas circundavam o núcleo histórico.

Diziam-me os colegas de lá naturais que Santarém desprezava tudo o que não tivesse a ver com touros, querendo com isso significar que o escalabitano era pouco dado às coisas da cultura. Talvez fosse assim. De qualquer forma, como tive um ano de muito trabalho (repito, era o meu primeiro ano e tinha quatro disciplinas diferentes em sete turmas, Língua e História Pátria do 1º ano, História do 3º e 4º, e ainda Organização Política e Administrativa da Nação do 7º) refugiava-me no quarto ou no liceu e por isso pouco andei pela cidade (até porque a casa onde morava não era no centro da cidade).

Regressei a Santarém por mais duas vezes, por períodos curtos: em 1961, voltei ao liceu por mês e meio; em 1965, fiz lá o serviço de exames (Junho-Julho). Sempre na mesma casa.

Anos mais tarde, na década de 80, fui muitas vezes a Santarém para reuniões das comissões instaladoras das Escolas Superiores de Educação, numa altura em que a cidade já crescera, e muito, para além dos limites que eu conhecera.

Tenho de Santarém uma boa lembrança, quanto mais não seja por ter sido lá que iniciei esta minha caminhada como professor, que agora termina. E também pelos “celestes”, aqueles bolos regionais que qualquer guloso, como eu, aprecia…

3 comentários:

PJ disse...

"(...)tive um ano de muito trabalho (repito, era o meu primeiro ano e tinha quatro disciplinas diferentes em sete turmas, Língua e História Pátria do 1º ano, História do 3º e 4º, e ainda Organização Política e Administrativa da Nação do 7º(...)".
Por muito menos do que isso ouço inúmeras queixas de professores: contra o governo, contra a ministra, eu sei lá...

SaltaPocinhas disse...

esta é para o (a) PJ: Hás-de perguntar ao Varela de Freitas quantas vezes tinha de mandar calar os meninos ou quantas vezes lhe faltaram ao respeito... e isso não mata mas mói, sabias??

Varela de Freitas disse...

Eu respondo directamente: acredito que hoje é mais difícil lidar com os meninos e meninas, mas olha que na altura também não era "pera doce"... Sendo eu um novato e "novinho", nem sempre fui poupado, e tive de aprender a "dar a volta" em alguns casos (não tanto aqui, em Santarém, mas em Lisboa, no Pedro Nunes, não foi fácil...)