2005/03/14

Mais sobre avaliação – desta vez, de alunos


Passei o fim-de-semana à volta dos portfolios dos meus alunos do curso de mestrado em Educação Musical, os mesmos que estiveram na génese e no desenvolvimento de um blog (Currículo & Cultura), que tinha o mesmo nome da disciplina de que fui professor (do 1º semestre). Eram apenas 9 alunos, todos eles com formação no âmbito da música e todos eles ligados à docência, uns em escolas profissionais, outros em escolas de formação geral; uns com formação musical apurada, com alto padrão de exigência, outros mais vocacionados para o ensino das bases, para a aprendizagem do que é elementar.

Desde há uns anos que em cursos de mestrado enveredei por propor aos meus alunos uma avaliação por portfolio. O facto de serem poucos alunos, de termos normalmente no decurso das aulas oportunidade de dialogar e portanto de ter elementos avaliativos acerca do que cada um pensa e é capaz de expor, deixa-me margem para eliminar qualquer tipo de “exame” ou de “trabalho” específico e dar aos estudantes a oportunidade de serem mais criativos e autênticos. O portfolio surge assim como uma oportunidade de cada um revelar como compreendeu o seu percurso na disciplina, o que ela lhe revelou – ou perturbou. Sugiro sempre que cada um adicione quaisquer elementos colhidos no dia-a-dia que possam contribuir para aumentar o conhecimento na área em estudo. Aceito qualquer formato: mas nos últimos dois anos todos, praticamente, preferem o formato digital, se bem que normalmente entreguem também um exemplar em papel.

Para mim, o dia (ou dias, se forem muitos!) de análise dos portfolios é sempre um dia normalmente agradável. Ontem, para ale, de ler, fui convidado a ouvir – porque dois dos meus alunos tiveram a gentileza de incluir CDs com as suas interpretações. Foi um extra que amenizou a tarefa.

Para converter a avaliação numa classificação – que é a parte mais desagradável da tarefa docente – uso uma ficha (não gosto muito do termo “grelha”) na qual atribuo um valor, numa escala de 5 pontos, a itens como “Organização/Apresentação”, “Capacidade de enquadramento teórico”, “Juízo crítico”, “Expressão escrita”, etc. Tenho depois de interpretar o resultado e moderá-lo, ainda, com a impressão geral que tenho do aluno por toda a participação no curso (neste caso, incluindo a que foi concretizada no blog).

É um processo essencialmente qualitativo, não o escondo, potencialmente gerador de algum germe de injustiça; mas, para mim, muito mais confortável do que um outro qualquer que sujeitasse os estudantes a uma prova tipo exame, a qual pode proporcionar também germes de injustiça.

Terminada a tarefa deste fim-de-semana, vou deixar passar mais um ou dois dias, rever as minhas fichas e ponderar se os resultados a que cheguei devem ser os definitivos. Terminada essa tarefa, enviarei a cada um dos meus alunos, por e-mail, cópia da ficha com o resultado e a classificação.

Uma reflexão final: se o número de alunos fosse muito grande, este tipo de avaliação-classificação não seria possível.

3 comentários:

JVC disse...

O último período é crítico. Bem gostaria de poder avaliar, mesmo que parcialmente, por portfolio. Mas 80 alunos?

SaltaPocinhas disse...

E eu que estive até agora às voltas no computador a alinhar umas fichas muito jeitosinhas para os meus meninos! É isso: amanhã chego lá e digo: não há fichas para ninguém, façam um portfolio!!
(ainda ninguém me conseguiu explicar, pelo menos de modo que eu entendesse, o que é um portfolio :-( santa ignorância!!

Varela de Freitas disse...

A JVC

Tem razão, não é possível. É pena, porque é de facto um processo muito gratificante para quase todos os alunos e professores.

A Saltapocinhas

Não quero "armar-me" em teu professor, se bem que pudesse ter sido, mas deixo um parágrafo que os meus alunos lêem antes de aderirem ao projecto avaliação por portfolio:

"Um portfolio é o conjunto dos trabalhos do aluno ao longo do tempo de aprendizagem, entendendo-se por trabalhos não apenas aqueles que o estudante é obrigado a realizar no âmbito da disciplina mas todos aqueles que entenda poderem retratar o seu percurso: fichas de leitura, rascunhos, diários, etc. Deste modo, o professor pode dispor de um número potencialmente importante de elementos de avaliação."
Tem sido muito interessante o resultado deste processo. E olha que com meninos do básico, com adaptações, pode ensaiar-se o uso de portfolios.