2006/04/21

The Day after


Sou hoje o que era ontem – e não sou. Heraclito tinha razão quando dizia que tudo flui, mas Parménides também a tinha quando defendia a unidade do Ser. Por isso debato-me com um dilema: eu sei que alguma coisa mudou de ontem para hoje, que me obriga a equacionar, como me diziam ontem, “o resto da minha vida”, mas ao mesmo tempo não quero ceder à tentação de cortar com o que ficou para traz porque não posso.

Preparei-me tanto para este momento – e descobri ontem, como descubro hoje, que não estava verdadeiramente preparado. Talvez precise de mais um dia ou dois. Mesmo mais. Mas vou descobrir o sentido desse resto da minha vida.

Para já, tenho ainda os ecos de vozes amigas, de gestos simbólicos lindos, unindo gerações com quem me encontrei e que não me esqueceram. E isso é, neste momento, bastante.

2006/04/19

Quando as memórias se encontram


Em dois dias sucessivos – ontem, 18, e hoje, 19 – vieram ao meu encontro memórias que me encantaram. Primeiro, um telefonema que recuperou a voz de um colega (meu superior hierárquico…) que comigo privou, entre 1971 e 1972, no ambiente de trabalho de uma empresa de consultoria, e que depois de todos estes anos se lembrou de me contactar sugerindo um almoço num dia em que desça à capital. Creio que a data foi coincidência. Foi bom recordar esses tempos, muito importantes para a minha formação de “gestão de pessoal” e de educador de adultos.

Em segundo lugar, a caixa de correio electrónico entrega-me uma mensagem que vem de longe no espaço e no tempo: com ela recuperei não a voz mas o estilo de uma bela, grande Amizade dos meus tempos de jovem, que infelizmente não pôde ser mantida. Separam-nos cinquenta anos – mas que são cinquenta anos para memórias sólidas?

Anteciparam-se, assim, dois presentes de aniversário. E acreditem, fez-me bem esse reencontro de memórias.

2006/04/17

O tornado


Nos anos em que vivi nos Estados Unidos da América, aprendi a ter um respeito enorme pelos tornados – e, de algum modo, pelas trovoadas, que por vezes atingem proporções que não conhecemos em Portugal. O Midwest é muito afectado por tornados, que são tempestades que se desenvolvem com uma rapidez e violência assustadoras, com ventos circulares que arrasam tudo à sua volta. Na minha estadia houve uma meia dúzia de situações de prevenção, mas apenas numa houve de facto um tornado que se desenvolveu a escassos quilómetros de Iowa City, onde eu vivia.

Na passada sexta-feira, soube pela televisão que na “cidade de Iowa”, como disse a apresentadora, um tornado devastador espalhara o terror na cidade universitária. Hoje, ao regressar a casa, tinha notícias vindas por e-mail, incluindo fotografias bem evidentes dos estragos – e para além deles, houve um morto e oito feridos. Vejam aqui uma delas (e se quiserem, podem continuar no site a ver mais).

Não posso deixar de me emocionar. Ainda não me referi aos meus tempos de Iowa City, onde passei três anos e meio, mas tenho da cidade as melhores recordações e penaliza-me ver a destruição que a afectou. Sei que em breve tudo estará reconstruído, porque os norte-americanos são muito eficientes. Mas certamente os momentos que viveram naquela noite de 14 de Abril não se apagarão da memória dos que lá vivem.

2006/04/12

E agora?


Oiço na rádio a notícia do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça sobre a licitude de castigos corporais a crianças – crianças deficientes, adiante-se. Adivinho uma onda de indignação – e de algumas vozes a clamar que “até que enfim que alguém abriu os olhos…” Por mim, indigno-me. Mas não estou muito, muito admirado. Afinal, isto é a transferência, para a área da justiça, das ideias dos que disparam contra o “eduquês” na educação. Antigamente é que era bom! Felizmente, para a educação, ainda não há acórdão a definir regras. Para as palmadas, há.
E agora?

As tílias da Avenida Central

Regresso ao meu gabinete, com um tecto de altura que já não se usa, e sentado à secretária desarrumada olho para fora. Tenho no meu raio de visão uma fatia longitudinal da Avenida Central – e vejo carros e pessoas, os relvados, o Museu Nogueira da Silva, o Banco Totta… Há qualquer coisa que não bate certo.
Quando há quase dois anos deixei de vir aqui e substituí esta paisagem pela imponente vista do Bom Jesus, isto não era assim… E de repente percebi. São as tílias. As tílias, magníficas, imponentes, são hoje apenas tronco. Não têm a folhagem que no verão cortina a minha visão para o outro lado. E também não há aquele perfume delicioso que me entra pelo gabinete.

A minha compensação pela falta das tílias exuberantes foi um pombo que por momentos pousou no beiral da janela (fechada), como tantas vezes acontece. Mas tenho de arrumar, ligar o computador, e pensar. As tílias não demorarão a ter folhas…