2006/04/19

Quando as memórias se encontram


Em dois dias sucessivos – ontem, 18, e hoje, 19 – vieram ao meu encontro memórias que me encantaram. Primeiro, um telefonema que recuperou a voz de um colega (meu superior hierárquico…) que comigo privou, entre 1971 e 1972, no ambiente de trabalho de uma empresa de consultoria, e que depois de todos estes anos se lembrou de me contactar sugerindo um almoço num dia em que desça à capital. Creio que a data foi coincidência. Foi bom recordar esses tempos, muito importantes para a minha formação de “gestão de pessoal” e de educador de adultos.

Em segundo lugar, a caixa de correio electrónico entrega-me uma mensagem que vem de longe no espaço e no tempo: com ela recuperei não a voz mas o estilo de uma bela, grande Amizade dos meus tempos de jovem, que infelizmente não pôde ser mantida. Separam-nos cinquenta anos – mas que são cinquenta anos para memórias sólidas?

Anteciparam-se, assim, dois presentes de aniversário. E acreditem, fez-me bem esse reencontro de memórias.

2006/04/17

O tornado


Nos anos em que vivi nos Estados Unidos da América, aprendi a ter um respeito enorme pelos tornados – e, de algum modo, pelas trovoadas, que por vezes atingem proporções que não conhecemos em Portugal. O Midwest é muito afectado por tornados, que são tempestades que se desenvolvem com uma rapidez e violência assustadoras, com ventos circulares que arrasam tudo à sua volta. Na minha estadia houve uma meia dúzia de situações de prevenção, mas apenas numa houve de facto um tornado que se desenvolveu a escassos quilómetros de Iowa City, onde eu vivia.

Na passada sexta-feira, soube pela televisão que na “cidade de Iowa”, como disse a apresentadora, um tornado devastador espalhara o terror na cidade universitária. Hoje, ao regressar a casa, tinha notícias vindas por e-mail, incluindo fotografias bem evidentes dos estragos – e para além deles, houve um morto e oito feridos. Vejam aqui uma delas (e se quiserem, podem continuar no site a ver mais).

Não posso deixar de me emocionar. Ainda não me referi aos meus tempos de Iowa City, onde passei três anos e meio, mas tenho da cidade as melhores recordações e penaliza-me ver a destruição que a afectou. Sei que em breve tudo estará reconstruído, porque os norte-americanos são muito eficientes. Mas certamente os momentos que viveram naquela noite de 14 de Abril não se apagarão da memória dos que lá vivem.

2006/04/12

E agora?


Oiço na rádio a notícia do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça sobre a licitude de castigos corporais a crianças – crianças deficientes, adiante-se. Adivinho uma onda de indignação – e de algumas vozes a clamar que “até que enfim que alguém abriu os olhos…” Por mim, indigno-me. Mas não estou muito, muito admirado. Afinal, isto é a transferência, para a área da justiça, das ideias dos que disparam contra o “eduquês” na educação. Antigamente é que era bom! Felizmente, para a educação, ainda não há acórdão a definir regras. Para as palmadas, há.
E agora?

As tílias da Avenida Central

Regresso ao meu gabinete, com um tecto de altura que já não se usa, e sentado à secretária desarrumada olho para fora. Tenho no meu raio de visão uma fatia longitudinal da Avenida Central – e vejo carros e pessoas, os relvados, o Museu Nogueira da Silva, o Banco Totta… Há qualquer coisa que não bate certo.
Quando há quase dois anos deixei de vir aqui e substituí esta paisagem pela imponente vista do Bom Jesus, isto não era assim… E de repente percebi. São as tílias. As tílias, magníficas, imponentes, são hoje apenas tronco. Não têm a folhagem que no verão cortina a minha visão para o outro lado. E também não há aquele perfume delicioso que me entra pelo gabinete.

A minha compensação pela falta das tílias exuberantes foi um pombo que por momentos pousou no beiral da janela (fechada), como tantas vezes acontece. Mas tenho de arrumar, ligar o computador, e pensar. As tílias não demorarão a ter folhas…

2006/04/10

Reencontro com um passado presente


Na passada sexta-feira, pouco antes de jantar, toca o telefone. O fixo (o que é cada vez mais raro). É o Luís (fica assim, meio anónimo). Foi meu aluno em 1966-1967 (isso mesmo, há praticamente 40 anos) no Liceu Padre António Vieira, estava no 7º ano (hoje seria o 11º) e eu leccionava Filosofia e OPAN. Bom aluno. Encontrei-o uma vez, nos anos 80, quando eu assessorava o Secretário de Estado João de Deus Pinheiro e ele já estava no meio da comunicação social, e há relativamente pouco tempo telefonara-me para a Universidade porque casualmente descobrira onde eu estava e quis conferir comigo um assunto particular. Ora o Luís viria a Braga hoje, dia 10, participar numa sessão promovida pelo Instituto de Ciências Sociais para apresentar a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, e lembrou-se de combinar almoçar comigo. Com certeza!

E hoje foi o reencontro. Tinha dele a imagem clara do que ele era aos 16, 17 anos: magro, alto e loiro, frase pronta e arguta. Lembro menos bem o que era nos anos 80. Quando o procuro no sítio combinado reconheço-o de imediato. Creio que o mesmo aconteceu com ele – apesar das mudanças em mim serem bem mais complicadas… Nos anos sessenta não usava barba, e usava cabelo: hoje uso barba e delapidei uma boa dose de cabelo. Não mirrei, e por isso continuo a ser razoavelmente alto, a gordura deve ser mais ou menos a mesma… Damos um abraço sentido. E começamos uma conversa interessante, que se prolonga num almoço em que mais do que o que se comeu fica o que se falou. Não, não passámos o tempo a lembrar os “velhos tempos”, embora recordássemos um ou outro “fait divers” que o levou a admirar a minha memória para esses pormenores. O Luís contou-me como viveu estes quarenta anos, ricos de experiência na qual não falta, também, o ensino superior, numa área que desde cedo terá sido a principal (a comunicação social). Tem paixão pelo que faz. Como eu tive paixão pelo que fiz. É fatal falar-se da minha próxima retirada, de como a encaro, o que vou fazer… Passam por nós colegas, meus e dele, trocam-se frases curtas – mas é com orgulho que digo que o Luís foi meu aluno. Há muito tempo, num ano que tenho muito presente, até porque foi um ano de grandes decisões na minha vida.

Por isso, depois de o deixar e regressar à minha Escola (já não ao meu gabinete… hoje ocupado pelo colega que me sucedeu), não paro de pensar nesse passado que me foi hoje feito presente. É bom, até porque desse modo não penso no futuro, que é, no presente, o que mais me preocupa.