2006/04/17

O tornado


Nos anos em que vivi nos Estados Unidos da América, aprendi a ter um respeito enorme pelos tornados – e, de algum modo, pelas trovoadas, que por vezes atingem proporções que não conhecemos em Portugal. O Midwest é muito afectado por tornados, que são tempestades que se desenvolvem com uma rapidez e violência assustadoras, com ventos circulares que arrasam tudo à sua volta. Na minha estadia houve uma meia dúzia de situações de prevenção, mas apenas numa houve de facto um tornado que se desenvolveu a escassos quilómetros de Iowa City, onde eu vivia.

Na passada sexta-feira, soube pela televisão que na “cidade de Iowa”, como disse a apresentadora, um tornado devastador espalhara o terror na cidade universitária. Hoje, ao regressar a casa, tinha notícias vindas por e-mail, incluindo fotografias bem evidentes dos estragos – e para além deles, houve um morto e oito feridos. Vejam aqui uma delas (e se quiserem, podem continuar no site a ver mais).

Não posso deixar de me emocionar. Ainda não me referi aos meus tempos de Iowa City, onde passei três anos e meio, mas tenho da cidade as melhores recordações e penaliza-me ver a destruição que a afectou. Sei que em breve tudo estará reconstruído, porque os norte-americanos são muito eficientes. Mas certamente os momentos que viveram naquela noite de 14 de Abril não se apagarão da memória dos que lá vivem.

2006/04/12

E agora?


Oiço na rádio a notícia do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça sobre a licitude de castigos corporais a crianças – crianças deficientes, adiante-se. Adivinho uma onda de indignação – e de algumas vozes a clamar que “até que enfim que alguém abriu os olhos…” Por mim, indigno-me. Mas não estou muito, muito admirado. Afinal, isto é a transferência, para a área da justiça, das ideias dos que disparam contra o “eduquês” na educação. Antigamente é que era bom! Felizmente, para a educação, ainda não há acórdão a definir regras. Para as palmadas, há.
E agora?

As tílias da Avenida Central

Regresso ao meu gabinete, com um tecto de altura que já não se usa, e sentado à secretária desarrumada olho para fora. Tenho no meu raio de visão uma fatia longitudinal da Avenida Central – e vejo carros e pessoas, os relvados, o Museu Nogueira da Silva, o Banco Totta… Há qualquer coisa que não bate certo.
Quando há quase dois anos deixei de vir aqui e substituí esta paisagem pela imponente vista do Bom Jesus, isto não era assim… E de repente percebi. São as tílias. As tílias, magníficas, imponentes, são hoje apenas tronco. Não têm a folhagem que no verão cortina a minha visão para o outro lado. E também não há aquele perfume delicioso que me entra pelo gabinete.

A minha compensação pela falta das tílias exuberantes foi um pombo que por momentos pousou no beiral da janela (fechada), como tantas vezes acontece. Mas tenho de arrumar, ligar o computador, e pensar. As tílias não demorarão a ter folhas…

2006/04/10

Reencontro com um passado presente


Na passada sexta-feira, pouco antes de jantar, toca o telefone. O fixo (o que é cada vez mais raro). É o Luís (fica assim, meio anónimo). Foi meu aluno em 1966-1967 (isso mesmo, há praticamente 40 anos) no Liceu Padre António Vieira, estava no 7º ano (hoje seria o 11º) e eu leccionava Filosofia e OPAN. Bom aluno. Encontrei-o uma vez, nos anos 80, quando eu assessorava o Secretário de Estado João de Deus Pinheiro e ele já estava no meio da comunicação social, e há relativamente pouco tempo telefonara-me para a Universidade porque casualmente descobrira onde eu estava e quis conferir comigo um assunto particular. Ora o Luís viria a Braga hoje, dia 10, participar numa sessão promovida pelo Instituto de Ciências Sociais para apresentar a Entidade Reguladora para a Comunicação Social, e lembrou-se de combinar almoçar comigo. Com certeza!

E hoje foi o reencontro. Tinha dele a imagem clara do que ele era aos 16, 17 anos: magro, alto e loiro, frase pronta e arguta. Lembro menos bem o que era nos anos 80. Quando o procuro no sítio combinado reconheço-o de imediato. Creio que o mesmo aconteceu com ele – apesar das mudanças em mim serem bem mais complicadas… Nos anos sessenta não usava barba, e usava cabelo: hoje uso barba e delapidei uma boa dose de cabelo. Não mirrei, e por isso continuo a ser razoavelmente alto, a gordura deve ser mais ou menos a mesma… Damos um abraço sentido. E começamos uma conversa interessante, que se prolonga num almoço em que mais do que o que se comeu fica o que se falou. Não, não passámos o tempo a lembrar os “velhos tempos”, embora recordássemos um ou outro “fait divers” que o levou a admirar a minha memória para esses pormenores. O Luís contou-me como viveu estes quarenta anos, ricos de experiência na qual não falta, também, o ensino superior, numa área que desde cedo terá sido a principal (a comunicação social). Tem paixão pelo que faz. Como eu tive paixão pelo que fiz. É fatal falar-se da minha próxima retirada, de como a encaro, o que vou fazer… Passam por nós colegas, meus e dele, trocam-se frases curtas – mas é com orgulho que digo que o Luís foi meu aluno. Há muito tempo, num ano que tenho muito presente, até porque foi um ano de grandes decisões na minha vida.

Por isso, depois de o deixar e regressar à minha Escola (já não ao meu gabinete… hoje ocupado pelo colega que me sucedeu), não paro de pensar nesse passado que me foi hoje feito presente. É bom, até porque desse modo não penso no futuro, que é, no presente, o que mais me preocupa.

2006/04/07

A entrega das chaves


Na minha vida tenho tido, em múltiplas ocasiões, de entregar chaves que usei durante mais ou menos tempo. Sempre que mudei de casa, incluindo as de férias, quando no fim do ano, nas escolas, desocupava cacifos ou gavetas, nas incontáveis vezes que saio de um hotel ou residencial… Este acto simboliza um corte, que se aceita naturalmente: de algum modo é um acto de renúncia – não me vai mais ser dado usar livremente aquilo de que dispus do instrumento normal de acesso.

Hoje, entreguei também três chaves – a do que foi o meu gabinete de trabalho durante os últimos vinte e um meses, a da gaveta que, durante a noite, guardava o computador portátil que por vezes usava, e finalmente a do ascensor que me evitava subir seis lanços de escada bem puxados. E foi curioso o que senti: por um lado, uma amargura difusa por deixar uma tarefa a meio, tarefa que apesar das dificuldades e das incompreensões de uns tantos me deu prazer ter iniciado, misturada com o reforçar da certeza que a hora está a chegar (está a menos de duas semanas!) Por outro lado, senti um bem-estar que quase me incomodou porque ia perder o convívio tão agradável de quem trabalhava quotidianamente comigo e se mostrava emocionado pelo momento. Percebi depois que o bem-estar derivava um pouco disso mesmo: de me sentir uma vez recompensado por ter feito o melhor que sabia, por ter criado um clima agradável, de ter gerado amizade. Afinal, só fechara as portas do gabinete: conservara muitas outras abertas, como sempre fiz na vida.