2006/02/23

Pessimismo, optimismo


Ao terminar a primeira fase da minha intervenção no dossier (de facto, não me habituo à grafia dossié!) Bolonha da minha Universidade, no qual, por dever de ofício, me passaram pelas mãos mais de três dezenas de propostas de “adequação” de cursos existentes ao formato Bolonha, enquanto relaxo um pouco aguardando uma reunião magna onde essas propostas serão apreciadas – isto será a 1 de Março – pergunto-me se, como optimista que sou, tenho razões para estar satisfeito ou não.

Há um ponto positivo: houve empenhamento quase total da comunidade académica para concretizar um processo que estava em banho-maria desde há alguns meses, e em certos casos há uns anos. A tardia publicitação do anteprojecto de um Decreto-lei que nunca teve projecto “obrigou” a encurtar os prazos e por isso houve necessidade de horas extra para os cumprir, com reuniões “non-stop” por parte de algumas escolas…

Contudo, esta necessidade de uma resposta rápida não é boa conselheira para decisões reflectidas e, a não ser em casos onde o amadurecimento já estava no ponto, receio bem que os resultados fiquem aquém do que era esperado.

Bolonha, e não faço senão repetir o que tem sido dito por quem tem estudado o processo, é, mais do que um simples reajustamento de cursos, uma oportunidade de mudança. E mudar, todos sabemos, não é fácil. Por isso mudanças mais ou menos forçadas conduzem muitas vezes a um disfarce: a mudança é apenas um fingimento…

E sinceramente, apesar do meu optimismo, pergunto-me se, numa maioria de casos, não é esse disfarce que vai prevalecer. Nas entrelinhas do discurso e na objectividade das grelhas das normas técnicas, onde se faz a leitura das horas de trabalho do estudante – cerne da mudança – na maior parte das vezes descobre-se o mesmo número de horas teóricas da disciplina que cedeu o nome à unidade curricular, e os resultados de aprendizagem são tão vagos que cabe lá tudo…

Vai ser necessário um grande acompanhamento do progresso da experiência, porque de uma experiência se trata; e vai ser preciso que desde o início os alunos percebam e adiram ao processo, arrastando para ele os professores.

Espero não estar a ser injusto (e para o não ser tenho de afirmar que há propostas que me parecem excelentemente pensadas para uma renovação de metodologias). E por aqui me fico, por hoje...

2006/02/16

Só mesmo Bolonha!


Só mesmo Bolonha me faria querer registar na Memória o que, acidentalmente, me foi ontem oferecido. Pelas onze da noite, já mais perto de ir dormir do que continuar a trabalhar (e o fim dos trabalhos forçados está quase…) passei rapidamente pelos canais de notícias, e não é que na RTP Norte houve um fórum (por acaso, até estava escrito forúm!) sobre Bolonha? O sinal foi captado e por lá fiquei, em convívio com gente conhecida, desde o meu Vice-reitor Manuel Mota até ao meu então colega na Universidade do Algarve Adriano Pimpão e ao meu Presidente da Comissão Instaladora da Escola Superior de Educação de Faro, Luís Soares (de quem fui vogal) e ao Salvato Trigo, que era membro da Comissão Instaladora do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, se bem me lembro.

Foi uma conversa interessante, sem discussões, em que cada um deu a sua contribuição num registo que me pareceu mais ou menos sensato. Para quem não esteja tão envolvido como eu no processo terá parecido que havia mais optimismo do que pessimismo, embora a uma dada altura fosse mais ou menos consensual a ideia de que Bolonha é para se ir construindo e pouco adianta pensar que em Outubro os cursos que se apresentarem com o novo modelo vão funcionar todos muito bem. Não vão, seguramente: porque uma coisa é dizer-se que não valem cosméticas (isto é, disfarçar um conjunto de disciplinas em unidades curriculares com meia dúzia de resultados de aprendizagem expressos, mas continuar a reunir os alunos numa sala e “dar” aulas tradicionais) e outra é precisamente fazer diferente. E esse fazer diferente é complicado, e isso foi dito, para docentes mas também para alunos.

O processo falhará se inicialmente os alunos não perceberem, como foi muito bem enunciado pelo painel, que a sua maneira de estar na Universidade (ou no Politécnico) terá de mudar radicalmente; e para isso os professores têm também de mudar. É a instituição que está em causa, porque é ela que tem de se tornar outra. Não para diminuir níveis de exigência, mas para modificar as exigências até agora prevalentes. Nesse sentido, Salvato Trigo foi muito claro: não se trata de aprender menos, de ter menos conhecimentos, mas de obter mais conhecimentos de outras formas. Porque só assim fará sentido falar em competências.

2006/02/11

Parece impossível…


… esta tão longa interrupção, para quem nunca esteve privado de acesso a um computador e apesar de tudo não pode dizer que não lhe seria possível em cinco ou dez minutos escrever um post. Acresce que temos vivido tempos interessantes, com muitas matérias susceptíveis de um comentário e muitas delas apelando para a memória…

A verdade é que entrei num período de gestão complicada não só do tempo mas do meu estado de espírito. Desde há perto de três semanas, sou um pouco escravo de Bolonha, tendo de repartir a minha atenção por mais de quatro dezenas de propostas de cursos que na minha Universidade pretendem ser “adequados” (esta é a designação legal…) a Bolonha para entrarem em funcionamento já em Outubro. Ao mesmo tempo, tenho de avaliar trinta e quatro portfolios dos meus alunos de mestrado, que esperam as classificações. E para criar mais um pontinho negro a minha tensão arterial, que desde há muito é vigiada por ter tendência a subir demais, deu um senhor pulo que me assustou e me levou ao cardiologista e a uma série de exames que, felizmente, não confirmaram nada de grave. Apenas – creio – excesso de outro tipo de tensão que interfere na arterial.

Hoje fechei um pequeno ciclo das preocupações bolonhesas – vão existir outros, mas para já, distendi. O dia está muito agradável, lá fora, e senti o desejo de escrever na minha Memória. Até ao dia 1 de Março não prometo regularidade, mas vou tentar mão estar tanto tempo sem “postar”. (Esclareço: no dia 1 de Março haverá a reunião onde se vão aprovar – ou recusar – as propostas dos cursos).

2006/01/29

Os lugares onde vivi – Lisboa (1970-1977)


Regresso pois a Lisboa nos começos de 1970, desta vez com casa própria, se bem que alugada. Não vou estar muito tempo nela, também: apenas seis meses. No fim do ano escolar (Junho-Julho) houve nova alteração da minha situação profissional e tendo surgido uma oportunidade de passar para uma casa mais ampla e bem situada, mudámo-nos, passando a residir num 7º andar de uma pequena artéria ao Campo Pequeno, que se chamava então Travessa do Marquês de Sá da Bandeira e hoje se chama Rua Laura Alves. Esta casa continua a ser a “nossa”, embora em condições diferentes; até há bem pouco tempo era alugada, e passou a ser propriedade da filha. Vivi ininterruptamente nessa casa de 1970 até 1977 e entre 1979 e 1983; depois dessa data, apenas a espaços.

Nestes 35 anos, muita coisa mudou na paisagem envolvente da minha casa! Chegando à varanda da frente, tinha campo aberto – o quartel do Trem Auto, do qual se via claramente a parada, permitia ver a linha de Monsanto, lá ao longe. Nas traseiras, também havia largueza – em frente havia um armazém, relativamente baixo; via, na Avenida 5 de Outubro, passarem os carros. Só na esquina da Avenida de Berna havia um edifício do mesmo porte daquele em que vivo. Menos agradável o facto de ter igualmente vistas para as traseiras do hospital do Rego e de o prédio ficar no enfiamento do corredor principal de aterragem do aeroporto da Portela, com os aviões a fazerem por vezes um ruído enorme.

Era então fácil estacionar o carro quase à porta de casa. Lisboa não era, ainda, sujeita ao inferno do trânsito dos nossos dias, a ainda não se tinham sacrificado nelas árvores das Avenidas Novas para aumentar os lugares de estacionamento. A razão disso não era que os transportes públicos fossem muito melhores – o metropolitano continuava com as duas linhas com que se inaugurara, e autocarros e eléctricos, estes já a serem postos de parte, eram poucos e com horários muito espaçados – mas porque o parque automóvel era muito menor (e pior). Nesse tempo ainda era possível cruzarmo-nos, de madrugada, com carroças carregadas de produtos das hortas que vinham dos arredores para os mercados lisboetas…

A minha memória desses anos não pode deixar de estar profundamente marcada pelo 25 de Abril e sobretudo pelo 1º de Maio de 1974. Creio que Lisboa nunca terá vivido e porventura não voltará a viver um dia semelhante ao 1º de Maio (já escrevi sobre ele neste blog).
Também não posso esquecer o Novembro de 75, o ambiente tenso que contaminou a cidade.

Estes anos foram anos de consolidação profissional, ligando a profissão docente para a qual me preparara, à gestão – que tive de aprender com bons mestres que eram meus subordinados (!) mas com quem tive as melhores relações, e que me deram ferramentas importantes que usei nos anos que vieram.

A década caminhava para o seu final, e os rumos da educação tardavam a ser os que eu gostaria fossem tomados. Experimentara ser professor metodólogo no Liceu Pedro Nunes, chefe de divisão e director de serviços no Ministério da Educação, fora, durante cerca de ano e meio, consultor da Norma (Departamento de Psicologia Aplicada), quando numa altura em que regressara ao meu lugar de professor num Liceu de Lisboa (onde era efectivo, aliás: o Liceu D. Filipa de Lencastre), recebo um convite que mudou a minha vida. Em Fevereiro de 1977 esse convite faz-me viajar até Braga. Braga, que conhecia por em 1973 ter estado na equipa do Ministério que estabeleceu com o Conservatório Calouste Gulbenkian a sua integração na rede escolar pública, e por lá ter passado umas duas ou três vezes. Braga será, pois, a nova cidade onde vou viver.

2006/01/24

Os lugares onde vivi – Sintra – Mem Martins (1969-1970)


No ano em que estive no Funchal concorri de novo para um Liceu do continente – e como calculava, fui colocado em Castelo Branco. Depois de dois anos nas “ilhas” (era a expressão mais vulgar nesse tempo; hoje seria considerada pouco respeitosa para as regiões autónomas, e com alguma razão) ia começar um novo período. Com certeza que na altura o meu objectivo seria fixar-me em Lisboa, mas sabia que tinha de esperar alguns anos até ter vaga (já era assim nesse tempo…). Mas não me incomodava o conhecer novas terras, o problema era apenas andar com a casa às costas.

Assim, pensámos - minha Mulher e eu - que provisoriamente (antes de ir para Castelo Branco) seria melhor alugar para uma curta duração uma casa “de férias” – e Sintra foi a localidade escolhida. Tive sempre uma grande atracção por Sintra, que considero um dos mais belos lugares do país. E Sintra no verão é adorável. Por isso, entre fins de Julho e Setembro, foi lá que vivi. Depois de um ano de trabalho, era bom descansar – e descansei, gozando o ano e meses da minha filha, lendo, passeando. Estava sem carro (vendera o que tinha quando fora para os Açores e nessa altura não tinha dinheiro para comprar um).

Entretanto, interiorizava a mudança para Castelo Branco quando recebi um convite verdadeiramente inesperado. Conhecera, na Horta, um inspector do ensino liceal que fora lá para entre outras coisas, instalar novo equipamento no Laboratório de Física, o Dr. Túlio Tomás. Tínhamos uma grande diferença de idades, mas “acamaradámos”, se me é lícito o termo, e ficámos amigos. Ele soube da minha ida para o Funchal e naturalmente na minha colocação em Castelo Branco. Se bem me recordo, tínhamos combinado encontrar-nos em Lisboa, e foi nessa altura que me fez o convite de, no ano lectivo seguinte, trabalhar na Inspecção do Ensino Liceal, como professor requisitado. Como é evidente não recusei: a inspecção em si nunca me atraiu mas eu não iria ter, como era óbvio, tarefas de inspector. Esse meu tempo merece um post próprio; aqui só lembro o facto porque ele alterou o curso da minha vida. Em vez de ir para Castelo Branco, ia trabalhar em Lisboa. Urgia arranjar uma solução habitacional estável.

Em Sintra não poderíamos ficar para além de Setembro; e feitas as contas (sim, nessa altura era preciso fazer muito bem as contas, porque o dinheiro era curto) decidimos alugar uma casa em Mem Martins, onde as rendas eram mais baratas. Era um belo 2º andar, com um sótão excelente e até tinha garagem, que ficou vazia enquanto lá morei… Não muito tempo, na verdade: uma nova situação levou-nos a alterar os planos. Precisava de aumentar o meu pecúlio e por isso procurei um complemento de vencimento, e fui contratado para dar aulas de Psicologia na ESOCT (Escola Superior de Organização Científica do Trabalho), do ISLA (Instituto Superior de Línguas e Administração). Três vezes por semana tinha aulas à noite – entre as 20 e as 24. Isso fazia com que nunca chegasse a casa antes da 1 e pouco da manhã; e no outro dia (excepto ao sábado...) tinha de me levantar bem cedo. A minha Mulher (na altura professora do ensino primário, como se dizia) tinha sido colocada numa escola perto de Benfica, em Lisboa, mas só dava aulas de tarde. Ora todas estas condições pediam que nos mudássemos para Lisboa; íamos ter um encargo maior (se não me engano, passámos de uma renda de 900 escudos para uma de 2 200) mas tinha de ser.

De Mem Martins, do meu 2º andar da rua dos Lírios, tenho poucas recordações… Com excepção dos sábados e domingos, passei lá mais horas de noite do que dia. Saí sem saudades, nos começos de 1970, para um andar na Avenida Gomes Pereira, em Benfica.