2006/02/11

Parece impossível…


… esta tão longa interrupção, para quem nunca esteve privado de acesso a um computador e apesar de tudo não pode dizer que não lhe seria possível em cinco ou dez minutos escrever um post. Acresce que temos vivido tempos interessantes, com muitas matérias susceptíveis de um comentário e muitas delas apelando para a memória…

A verdade é que entrei num período de gestão complicada não só do tempo mas do meu estado de espírito. Desde há perto de três semanas, sou um pouco escravo de Bolonha, tendo de repartir a minha atenção por mais de quatro dezenas de propostas de cursos que na minha Universidade pretendem ser “adequados” (esta é a designação legal…) a Bolonha para entrarem em funcionamento já em Outubro. Ao mesmo tempo, tenho de avaliar trinta e quatro portfolios dos meus alunos de mestrado, que esperam as classificações. E para criar mais um pontinho negro a minha tensão arterial, que desde há muito é vigiada por ter tendência a subir demais, deu um senhor pulo que me assustou e me levou ao cardiologista e a uma série de exames que, felizmente, não confirmaram nada de grave. Apenas – creio – excesso de outro tipo de tensão que interfere na arterial.

Hoje fechei um pequeno ciclo das preocupações bolonhesas – vão existir outros, mas para já, distendi. O dia está muito agradável, lá fora, e senti o desejo de escrever na minha Memória. Até ao dia 1 de Março não prometo regularidade, mas vou tentar mão estar tanto tempo sem “postar”. (Esclareço: no dia 1 de Março haverá a reunião onde se vão aprovar – ou recusar – as propostas dos cursos).

2006/01/29

Os lugares onde vivi – Lisboa (1970-1977)


Regresso pois a Lisboa nos começos de 1970, desta vez com casa própria, se bem que alugada. Não vou estar muito tempo nela, também: apenas seis meses. No fim do ano escolar (Junho-Julho) houve nova alteração da minha situação profissional e tendo surgido uma oportunidade de passar para uma casa mais ampla e bem situada, mudámo-nos, passando a residir num 7º andar de uma pequena artéria ao Campo Pequeno, que se chamava então Travessa do Marquês de Sá da Bandeira e hoje se chama Rua Laura Alves. Esta casa continua a ser a “nossa”, embora em condições diferentes; até há bem pouco tempo era alugada, e passou a ser propriedade da filha. Vivi ininterruptamente nessa casa de 1970 até 1977 e entre 1979 e 1983; depois dessa data, apenas a espaços.

Nestes 35 anos, muita coisa mudou na paisagem envolvente da minha casa! Chegando à varanda da frente, tinha campo aberto – o quartel do Trem Auto, do qual se via claramente a parada, permitia ver a linha de Monsanto, lá ao longe. Nas traseiras, também havia largueza – em frente havia um armazém, relativamente baixo; via, na Avenida 5 de Outubro, passarem os carros. Só na esquina da Avenida de Berna havia um edifício do mesmo porte daquele em que vivo. Menos agradável o facto de ter igualmente vistas para as traseiras do hospital do Rego e de o prédio ficar no enfiamento do corredor principal de aterragem do aeroporto da Portela, com os aviões a fazerem por vezes um ruído enorme.

Era então fácil estacionar o carro quase à porta de casa. Lisboa não era, ainda, sujeita ao inferno do trânsito dos nossos dias, a ainda não se tinham sacrificado nelas árvores das Avenidas Novas para aumentar os lugares de estacionamento. A razão disso não era que os transportes públicos fossem muito melhores – o metropolitano continuava com as duas linhas com que se inaugurara, e autocarros e eléctricos, estes já a serem postos de parte, eram poucos e com horários muito espaçados – mas porque o parque automóvel era muito menor (e pior). Nesse tempo ainda era possível cruzarmo-nos, de madrugada, com carroças carregadas de produtos das hortas que vinham dos arredores para os mercados lisboetas…

A minha memória desses anos não pode deixar de estar profundamente marcada pelo 25 de Abril e sobretudo pelo 1º de Maio de 1974. Creio que Lisboa nunca terá vivido e porventura não voltará a viver um dia semelhante ao 1º de Maio (já escrevi sobre ele neste blog).
Também não posso esquecer o Novembro de 75, o ambiente tenso que contaminou a cidade.

Estes anos foram anos de consolidação profissional, ligando a profissão docente para a qual me preparara, à gestão – que tive de aprender com bons mestres que eram meus subordinados (!) mas com quem tive as melhores relações, e que me deram ferramentas importantes que usei nos anos que vieram.

A década caminhava para o seu final, e os rumos da educação tardavam a ser os que eu gostaria fossem tomados. Experimentara ser professor metodólogo no Liceu Pedro Nunes, chefe de divisão e director de serviços no Ministério da Educação, fora, durante cerca de ano e meio, consultor da Norma (Departamento de Psicologia Aplicada), quando numa altura em que regressara ao meu lugar de professor num Liceu de Lisboa (onde era efectivo, aliás: o Liceu D. Filipa de Lencastre), recebo um convite que mudou a minha vida. Em Fevereiro de 1977 esse convite faz-me viajar até Braga. Braga, que conhecia por em 1973 ter estado na equipa do Ministério que estabeleceu com o Conservatório Calouste Gulbenkian a sua integração na rede escolar pública, e por lá ter passado umas duas ou três vezes. Braga será, pois, a nova cidade onde vou viver.

2006/01/24

Os lugares onde vivi – Sintra – Mem Martins (1969-1970)


No ano em que estive no Funchal concorri de novo para um Liceu do continente – e como calculava, fui colocado em Castelo Branco. Depois de dois anos nas “ilhas” (era a expressão mais vulgar nesse tempo; hoje seria considerada pouco respeitosa para as regiões autónomas, e com alguma razão) ia começar um novo período. Com certeza que na altura o meu objectivo seria fixar-me em Lisboa, mas sabia que tinha de esperar alguns anos até ter vaga (já era assim nesse tempo…). Mas não me incomodava o conhecer novas terras, o problema era apenas andar com a casa às costas.

Assim, pensámos - minha Mulher e eu - que provisoriamente (antes de ir para Castelo Branco) seria melhor alugar para uma curta duração uma casa “de férias” – e Sintra foi a localidade escolhida. Tive sempre uma grande atracção por Sintra, que considero um dos mais belos lugares do país. E Sintra no verão é adorável. Por isso, entre fins de Julho e Setembro, foi lá que vivi. Depois de um ano de trabalho, era bom descansar – e descansei, gozando o ano e meses da minha filha, lendo, passeando. Estava sem carro (vendera o que tinha quando fora para os Açores e nessa altura não tinha dinheiro para comprar um).

Entretanto, interiorizava a mudança para Castelo Branco quando recebi um convite verdadeiramente inesperado. Conhecera, na Horta, um inspector do ensino liceal que fora lá para entre outras coisas, instalar novo equipamento no Laboratório de Física, o Dr. Túlio Tomás. Tínhamos uma grande diferença de idades, mas “acamaradámos”, se me é lícito o termo, e ficámos amigos. Ele soube da minha ida para o Funchal e naturalmente na minha colocação em Castelo Branco. Se bem me recordo, tínhamos combinado encontrar-nos em Lisboa, e foi nessa altura que me fez o convite de, no ano lectivo seguinte, trabalhar na Inspecção do Ensino Liceal, como professor requisitado. Como é evidente não recusei: a inspecção em si nunca me atraiu mas eu não iria ter, como era óbvio, tarefas de inspector. Esse meu tempo merece um post próprio; aqui só lembro o facto porque ele alterou o curso da minha vida. Em vez de ir para Castelo Branco, ia trabalhar em Lisboa. Urgia arranjar uma solução habitacional estável.

Em Sintra não poderíamos ficar para além de Setembro; e feitas as contas (sim, nessa altura era preciso fazer muito bem as contas, porque o dinheiro era curto) decidimos alugar uma casa em Mem Martins, onde as rendas eram mais baratas. Era um belo 2º andar, com um sótão excelente e até tinha garagem, que ficou vazia enquanto lá morei… Não muito tempo, na verdade: uma nova situação levou-nos a alterar os planos. Precisava de aumentar o meu pecúlio e por isso procurei um complemento de vencimento, e fui contratado para dar aulas de Psicologia na ESOCT (Escola Superior de Organização Científica do Trabalho), do ISLA (Instituto Superior de Línguas e Administração). Três vezes por semana tinha aulas à noite – entre as 20 e as 24. Isso fazia com que nunca chegasse a casa antes da 1 e pouco da manhã; e no outro dia (excepto ao sábado...) tinha de me levantar bem cedo. A minha Mulher (na altura professora do ensino primário, como se dizia) tinha sido colocada numa escola perto de Benfica, em Lisboa, mas só dava aulas de tarde. Ora todas estas condições pediam que nos mudássemos para Lisboa; íamos ter um encargo maior (se não me engano, passámos de uma renda de 900 escudos para uma de 2 200) mas tinha de ser.

De Mem Martins, do meu 2º andar da rua dos Lírios, tenho poucas recordações… Com excepção dos sábados e domingos, passei lá mais horas de noite do que dia. Saí sem saudades, nos começos de 1970, para um andar na Avenida Gomes Pereira, em Benfica.

2006/01/22

O meu voto



Acabo de regressar a casa depois de me deslocar à minha secção de voto – um passeio de uns quatrocentos metros, se tanto. Está uma manhã bonita, um pouco fria mas não exageradamente, mesmo para os nossos padrões. Havia pouco movimento na rua e na praça que tive de atravessar.

Cumpri o meu dever cívico (é assim que se diz). Sem entusiasmo. Embora acredite que seja qual for o resultado o curso da nossa vida vai seguir em frente, sem sobressaltos, julgo que os episódios que marcaram a incubação da campanha eleitoral e ela própria não ajudaram em nada a estabilidade do nosso futuro próximo.

Porque os dados estão lançados, aguardemos os resultados e aceitemo-los: são as regras do jogo…

2006/01/19

Os lugares onde vivi – Funchal (1968-1969)


Aproximar-me de Lisboa foi a razão de ter concorrido para o Funchal, com a certeza de ser lá colocado. Já conhecia a Madeira, por nas minhas viagens para os Açores os navios lá fazerem escala e em princípio estar um dia inteiro com tempo para visitar a cidade e até os arredores. O Funchal era à partida uma cidade simpática, com muita vida, já com ligações aéreas diárias, pelo que a opção se justificava. Até podia ler os jornais no próprio dia da sua saída, o que não acontecia nos Açores. Eram mais caros (muito mais caros: se não me engano, quadruplicavam o preço!).

Em meados de Setembro de 1968, com o país à espera de saber o que ia acontecer (Salazar caíra da célebre cadeira no forte de S. Julião da Barra, nos princípios de Agosto, fora operado e tudo indicava que não recuperaria) parti para o Funchal no paquete do mesmo nome. Desta vez, ia comigo a família: a minha filha nascera em Janeiro desse ano, o clima do Funchal não assustava, e por isso decidimos, com parca bagagem, empreender a mudança.

Não era difícil, na altura, encontrar casas mobiladas a preços compatíveis (é como quem diz…) com o vencimento de um professor no Funchal. Começámos por alugar um rés-do-chão de uma moradia na Rua do Conde de Carvalhal, bem no alto na direcção leste, com uma vista esplendorosa sobre a baía, mas que tinha um inconveniente: era ameaçada permanentemente por baratas, em especial baratas voadoras, uma espécie nojenta que encontrávamos a espaços na cozinha, na casa de banho, no quarto…

A decisão de sair aconteceu quando um dia encontrámos uma intrusa na cama da minha filha, com apenas 9 meses…

Foi-nos dito que na parte ocidental da cidade não havia tantas baratas, e por isso a minha Mulher pesquisou e encontrou, perto do Estádio dos Barreiros, na Ladeira da Casa Branca, uma moradia pequenina mas muito funcional, também com excelentes vistas de um terraço e um pequeno jardim com bananeiras. E foi aí que vivemos o resto do ano. Não ficava perto do Liceu, mas havia transporte e de manhã eu gostava de caminhar, numa viagem de cerca de meia hora, porque raramente chovia e não fazia frio no Inverno. O tempo mais quente e menos salubre é apenas em Agosto, e nesse mês não estive lá. Além disso a cidade é tão florida, tem uma vegetação tão exuberante, que o passeio era estimulante.

Foi um bom ano. Aprendi a gostar de anonas, esse fruto maravilhoso, e naturalmente comi quilómetros de bananas.

Duas memórias interessantes da minha estadia. A primeira reporta-se ao fim do ano. Aguardávamos, claro, o fogo de artifício. Ora no dia 31 de Dezembro de 1968 desaba uma tempestade na ilha, e quando digo tempestade foi mesmo uma tempestade; chuva torrencial, vento ciclónico, tudo junto deu cabo dos postos onde o fogo estava armado, inutilizando-os e impedindo o espectáculo. Creio que no dia 2, já com tempo melhor, ainda queimaram umas peças que tinham sobrado, mas muito fraquinhas.

A segunda respeita a Fevereiro de 1969. Um dia cheguei ao Liceu, de manhã, e disseram-me que tinha havido um grande tremor de terra em Lisboa. Aliás, houve quem jurasse tê-lo sentido no prédio mais alto do Funchal. Eu não sentira nada! Depois, foi a espera de poder contactar com a família em Lisboa, porque os telefones não funcionavam. Mais uma vez escapei de um tremor de terra!

Gostei bastante de estar na Madeira. No Liceu havia gente simpática e menos simpática, mas dei-me bem e deixei amizades. Os alunos eram agradáveis. Desta vez tive aulas de História do 3º ano (actual 7º), as quatro turmas, e ainda Filosofia dos cursos complementares.

Tinha aulas todas as manhãs, das 8 à uma da tarde. Muitas vezes depois de almoço voltava ao Liceu para estar com os alunos em actividades que se chamavam “circum-escolares”.

Foi também no Funchal que fui convidado por um grupo de professoras do ensino primário para o que hoje se chamaria uma acção de formação sobre metodologias de ensino-aprendizagem, a primeira de largas dezenas (ia escrever centenas mas seria exagero) que depois concretizei.

Lia semanalmente um jornal que se tornou um símbolo, O Comércio do Funchal, o jornal cor-de-rosa de que fui depois assinante até ao seu encerramento. Nele debutou o Vicente Jorge Silva.

Creio que nesse ano o Alberto João não estava na ilha, e mesmo que estivesse certamente não seria notado…

Voltei várias vezes à Madeira, antes e depois do 25 de Abril. E devo dizer que se há lugar no país que tenha mudado, esse lugar é a Madeira. Quase tudo, a não ser a beleza natural, mudou. E não são só as auto-estradas e vias rápidas que merece a pena salientar, são também as estradas que servem lugares perdidos nos vales e que outrora não existiam. Talvez se tenha construído demais, mas mesmo assim a Madeira continua a ser um belo lugar para viver.