2006/01/17

Tudo começou há um ano


A minha Memória faz um ano: e apesar de tão maltratada nos últimos tempos, com muito pouca assistência diária, não posso deixar de registar a efeméride. Dentro de algum tempo poderei certamente dedicar mais tempo à blogosfera, mas o actual contexto é completamente adverso… Como dizia um professor holandês que esteve connosco na primeira quinzena de Janeiro, a Universidade do Minho foi atacada pelo vírus Bolonha… Ele existia, mas estava localizado; agora generalizou-se. E tem sido preciso acudir aos “doentes” e procurar processos de cura.
Sobre isso, escreverei mais tarde. A Memória não acabou... e em breve retomará um ritmo mais certinho.

2006/01/11

Os lugares onde vivi – Lisboa (1966-1967)


Depois de Aveiro, decidi concorrer para um liceu de Lisboa; já era, na altura, professor auxiliar. Fiquei naquele que a que concorri, um liceu novo, com apenas um ano de vida, o Liceu Padre António Vieira, em Alvalade.

Em meados dos anos 60 Lisboa tinha crescido um pouquinho, mas ainda se conseguia ter lugar para estacionar o carro perto de casa ou do cinema. Aliás, já escrevi sobre os meus tempos de Lisboa, que atravessam vários períodos da minha vida. Mas ao recordar esses tempos, e sabendo o que sei hoje, sempre digo que por um pouquinho não fui professor de Santana Lopes e Francisco Louçã, que, nesse ano, deviam estar no 3º ou 4º ano. Simplesmente, uma vez mais só me foi distribuído serviço de História e Filosofia dos anos complementares, onde, aliás, fui professor de alunos que se tornaram pessoas importantes na vida nacional. Foi também nesse ano de 1967 que, na altura dos exames, fui destacado para presidir aos júris no Colégio Moderno, onde vi pela primeira vez Mário Soares e conversei com a directora pedagógica, Maria Barroso.

Como já disse, concorri para efectivo e fui colocado na Horta, onde passei o ano de 1967-1968. O ano seguinte levou-me ao Funchal (que será objecto do meu próximo post).

2006/01/08

Vergonha


O dicionário Houaiss dá, entre várias, a seguinte definição de vergonha: “sentimento penoso causado pela inferioridade, indecência ou indignidade”. Em princípio, só me envergonho se eu próprio estiver em causa. Mas, por vezes, envergonho-me por contaminação, isto é, se o facto causa de vergonha também me afecta. A gradação da vergonha depende de vários factores – e para mim, o mais importante é a proximidade. É máxima se for eu o autor de actos que depois me façam ter o tal sentimento penoso. Mas é também muito grande se os actos praticados puderem, de alguma maneira, serem associados à minha pessoa, ainda que nada tenha a ver com eles.

Hoje, ao ler os jornais da manhã, senti vergonha.

Não vou dizer porquê. Mas tenho de registar, neste blog, o meu domingo estragado.

2006/01/05

Os lugares onde vivi – Aveiro (1965-1966)


Aveiro era, em meados da década de 60, uma cidade agradável e onde se vivia bem. Com uma situação geográfica privilegiada, a um pulo do Porto e de Coimbra e não muito distante de Lisboa, já bem servida de comboio, com um plano urbano equilibrado, num compromisso entre o moderno e um antigo relativamente pobre, era já um centro de atracção. Cheguei a Aveiro no dia 1 de Outubro de 1965, dirigi-me ao Liceu (actual Escola Secundária José Estêvão), soube que me tinha sido atribuído um bom horário com apenas aulas de Filosofia do 6º e do 7º anos, mais a inevitável Organização Política e Administrativa da Nação, e tratei de pensar na minha acomodação. Decidi-me por alugar um quarto e tive a sorte de encontrar um excelente, quase independente, bastante amplo, muito perto da escola, na Rua do Loureiro. As refeições, passei a tomá-las na então Pensão Imperial, que depois evoluiu para o Hotel com o mesmo nome. Recordo-me do proprietário, o Sr. Morais, sempre atencioso, e que geria com muita qualidade o estabelecimento. Lembro também a excelência da cozinha, que ao longo do ano foi responsável por ter engordado uns quilitos…

Na altura o Liceu de Aveiro tinha uma “secção feminina” a funcionar ao pé do Teatro Aveirense; os rapazes tinham aulas no edifício novo, mas os cursos complementares eram mistos. O ambiente no Liceu, mau grado a existência de um Reitor, o Dr. Orlando de Oliveira, muito conotado com a direita salazarista (pude comprová-lo, ainda que de uma maneira geral me tenha dado bem com ele), era muito bom. Ainda havia espaço para uma grande sala de professores onde, apesar de haver a zona dos mais velhos, já efectivos, e a zona dos mais novos, quase sempre os eventuais, a convivência era sadia. Pela minha idade aproximei-me dos mais novos, sem deixar de conversar com os mais velhos, e integrei-me num grupo que ao longo do ano estreitou laços de amizade que, pela força das circunstâncias, afrouxaram e desapareceram depois.

Apreciei muito os meus alunos. Tive, em Aveiro, uma das minhas melhores alunas de sempre, a Manuela Fazenda Martins – que infelizmente faleceu muito jovem, com 37 anos, quando era docente na Universidade Nova de Lisboa. Era uma inteligência rara. Recordo muitos outros e outras com quem mantive uma relação excelente ao longo do ano.

Como só tinha aulas de manhã, se o tempo o permitia (choveu muito, nesse 1966), saía à tardinha, antes de jantar, e andava pela cidade, tendo-me habituado ao cheiro característico que oscilava entre o que a ria emanava e o que os ventos de Cacia traziam… À noite, depois de jantar, ficava um pouco no bar da Residencial a ver televisão (aliás, foi aí que vivi as emoções do Mundial de futebol em que Portugal ficou em terceiro lugar).

Explorei um pouco os arredores e encantei-me sobretudo com a Pateira; já existia o restaurante, onde comi uns dos mais saborosos rojões que provei até hoje.

Depois desse ano, tenho voltado muitas vezes a Aveiro, quer porque viajo (de vez em vez vou à Pousada da Ria, que descobri depois e é um lugar esplêndido para descansar) quer porque tenho trabalho. Acompanhei o crescimento da Universidade desde o seu começo, tenho nela bons amigos, e gosto imenso do campus de Aveiro, a que a ria dá um sinal distintivo.

A cidade evoluiu muito, como todas, cresceu, e como continua a um pulo de Coimbra e do Porto continua também a ser atractiva. Mas a cidade de 1966, essa é a que guardo na memória…

2006/01/02

Mais um fim de ano…


Cegonhas na Comporta (Alcácer do Sal)

Neste fim de ano, como tem sido habitual nos últimos cinco, decidimos passá-lo longe de casa, mais pelo prazer de viajar e estar confortável nos dias que antecedem e sucedem a passagem de ano do que por eventuais festas (como agora se diz, animações musicais…) proporcionadas nas unidades que preferimos. Em Alcácer do Sal, a Pousada D. Afonso II, situada no castelo, foi uma excelente escolha, até porque o tempo ajudou (a chuva que caiu não foi significativa). Durante anos, passei por Alcácer, de automóvel ou de comboio, dezenas (diria mesmo centenas) de vezes, no meu caminho Faro-Lisboa, Lisboa-Faro. Habituei-me a ver os ninhos das cegonhas, numa época em que se chegou a pensar que estavam à beira da extinção. Pois bem, Alcácer, os arredores, têm agora muitas cegonhas! Como comprovo com esta fotografia tirada na Comporta.

Depois desta pausa, continuarei a falar dos lugares onde vivi…