2006/01/05

Os lugares onde vivi – Aveiro (1965-1966)


Aveiro era, em meados da década de 60, uma cidade agradável e onde se vivia bem. Com uma situação geográfica privilegiada, a um pulo do Porto e de Coimbra e não muito distante de Lisboa, já bem servida de comboio, com um plano urbano equilibrado, num compromisso entre o moderno e um antigo relativamente pobre, era já um centro de atracção. Cheguei a Aveiro no dia 1 de Outubro de 1965, dirigi-me ao Liceu (actual Escola Secundária José Estêvão), soube que me tinha sido atribuído um bom horário com apenas aulas de Filosofia do 6º e do 7º anos, mais a inevitável Organização Política e Administrativa da Nação, e tratei de pensar na minha acomodação. Decidi-me por alugar um quarto e tive a sorte de encontrar um excelente, quase independente, bastante amplo, muito perto da escola, na Rua do Loureiro. As refeições, passei a tomá-las na então Pensão Imperial, que depois evoluiu para o Hotel com o mesmo nome. Recordo-me do proprietário, o Sr. Morais, sempre atencioso, e que geria com muita qualidade o estabelecimento. Lembro também a excelência da cozinha, que ao longo do ano foi responsável por ter engordado uns quilitos…

Na altura o Liceu de Aveiro tinha uma “secção feminina” a funcionar ao pé do Teatro Aveirense; os rapazes tinham aulas no edifício novo, mas os cursos complementares eram mistos. O ambiente no Liceu, mau grado a existência de um Reitor, o Dr. Orlando de Oliveira, muito conotado com a direita salazarista (pude comprová-lo, ainda que de uma maneira geral me tenha dado bem com ele), era muito bom. Ainda havia espaço para uma grande sala de professores onde, apesar de haver a zona dos mais velhos, já efectivos, e a zona dos mais novos, quase sempre os eventuais, a convivência era sadia. Pela minha idade aproximei-me dos mais novos, sem deixar de conversar com os mais velhos, e integrei-me num grupo que ao longo do ano estreitou laços de amizade que, pela força das circunstâncias, afrouxaram e desapareceram depois.

Apreciei muito os meus alunos. Tive, em Aveiro, uma das minhas melhores alunas de sempre, a Manuela Fazenda Martins – que infelizmente faleceu muito jovem, com 37 anos, quando era docente na Universidade Nova de Lisboa. Era uma inteligência rara. Recordo muitos outros e outras com quem mantive uma relação excelente ao longo do ano.

Como só tinha aulas de manhã, se o tempo o permitia (choveu muito, nesse 1966), saía à tardinha, antes de jantar, e andava pela cidade, tendo-me habituado ao cheiro característico que oscilava entre o que a ria emanava e o que os ventos de Cacia traziam… À noite, depois de jantar, ficava um pouco no bar da Residencial a ver televisão (aliás, foi aí que vivi as emoções do Mundial de futebol em que Portugal ficou em terceiro lugar).

Explorei um pouco os arredores e encantei-me sobretudo com a Pateira; já existia o restaurante, onde comi uns dos mais saborosos rojões que provei até hoje.

Depois desse ano, tenho voltado muitas vezes a Aveiro, quer porque viajo (de vez em vez vou à Pousada da Ria, que descobri depois e é um lugar esplêndido para descansar) quer porque tenho trabalho. Acompanhei o crescimento da Universidade desde o seu começo, tenho nela bons amigos, e gosto imenso do campus de Aveiro, a que a ria dá um sinal distintivo.

A cidade evoluiu muito, como todas, cresceu, e como continua a um pulo de Coimbra e do Porto continua também a ser atractiva. Mas a cidade de 1966, essa é a que guardo na memória…

2006/01/02

Mais um fim de ano…


Cegonhas na Comporta (Alcácer do Sal)

Neste fim de ano, como tem sido habitual nos últimos cinco, decidimos passá-lo longe de casa, mais pelo prazer de viajar e estar confortável nos dias que antecedem e sucedem a passagem de ano do que por eventuais festas (como agora se diz, animações musicais…) proporcionadas nas unidades que preferimos. Em Alcácer do Sal, a Pousada D. Afonso II, situada no castelo, foi uma excelente escolha, até porque o tempo ajudou (a chuva que caiu não foi significativa). Durante anos, passei por Alcácer, de automóvel ou de comboio, dezenas (diria mesmo centenas) de vezes, no meu caminho Faro-Lisboa, Lisboa-Faro. Habituei-me a ver os ninhos das cegonhas, numa época em que se chegou a pensar que estavam à beira da extinção. Pois bem, Alcácer, os arredores, têm agora muitas cegonhas! Como comprovo com esta fotografia tirada na Comporta.

Depois desta pausa, continuarei a falar dos lugares onde vivi…

2005/12/27

Os lugares onde vivi – Covilhã (1965)


A minha memória atraiçoou-me ontem, porque, seguindo a cronologia, em Setembro de 1965 ainda vivi onze ou doze dias na Covilhã, porque, na expectativa de ter ainda uns dias de vencimento (e de tempo de serviço!) concorri para fazer serviço de exames da segunda época, que decorriam, creio, entre 20 e 30 desse mês. Ainda tive esperança de ser colocado no mesmo liceu para onde iria como agregado, mas não. Covilhã, foi o meu destino. E lá fui, pela linha da Beira Baixa, acompanhando o Tejo, num vagar típico dos comboios daqueles tempos.

Instalei-me numa residencial no centro da cidade, que já conhecia. O que lembro desses breves dias não é muito. Profissionalmente não tive muito que fazer, uma meia dúzia de exames de História, ver provas escritas e orais, apenas. Ainda não havia o liceu novo, tudo funcionava no alto da cidade, num edifício adaptado. Aliás, a frequência não era grande. A cidade, com a sua topografia característica, “sempre a subir” (e como é evidente, sempre a descer também…), tinha pontos interessantes, com paisagens a perder de vista, que explorei devidamente, até porque tinha muito tempo livre. Era uma cidade simpática mas ao tempo muito parada.

Ainda existia o célebre Café Montalto, na praça do Município, a que me acolhia depois do almoço e do jantar para o café da praxe. Recordo-me que embora fosse Setembro o tempo refrescou bastante, e dias antes de me vir embora aconteceu nevar na Serra.

Ao fim dos poucos dias de estadia, assinados os livros de termos, regressei num dia a Lisboa para, no outro, partir para Aveiro.

2005/12/26

Os lugares onde vivi – Coimbra (1964 – 1965)


No dia 3 de Janeiro de 1964 comecei o meu estágio em Coimbra, e na Atenas portuguesa, que parece já era assim conhecida desde o século XVI. Coimbra não era uma cidade desconhecida, já por lá passara muitas vezes, mas nunca ficara por muito tempo (recordo-me de uma vez, andava eu no meu 4º ano da Faculdade, ter ido visitar um colega que "fugira" de Lisboa para Coimbra e ter dormido uma ou duas noites na casa onde vivia, bem na Alta). Regressado um pouco à vida de estudante, até porque ia passar dois anos sem ter vencimento (como a formiguinha, poupara algum dinheiro para a ocasião), aluguei um quarto mesmo em frente ao então chamado Liceu D. João III, que depois do 25 de Abril retomou o nome do velho patrono, José Falcão. Embora no 2º ano tenha mudado de quarto não mudei de zona; continuei a ver todos os dias o Liceu porque me desloquei apenas uns cinquenta metros, se tanto.

Em posts anteriores já falei do meu estágio, lembrando como em Maio de 1965 fizera os exames de saída e de Estado. Hoje o meu intuito é recordar Coimbra como local para viver. Cidade de extremos, digo já: passei em Coimbra os maiores frios, mesmo sem neve, e os maiores calores. Lembro que uma noite, em Julho, o ar era tão sufocante que parecia que uma força estranha me impedia de respirar.

Fora isso, Coimbra foi uma cidade simpática, surpreendentemente acolhedora e agradável. Quando era estudante em Lisboa tinha, como muitos colegas meus, uma certa desconfiança para com o “espírito coimbrão”; tenho de admitir que era uma visão errada.

Coimbra, na altura evidentemente mais pequena do que hoje, apareceu-me como uma cidade onde tudo me parecia perto, ainda que o sobe-e-desce constante fosse cansativo. Mas se precisava de ir a uma das bibliotecas, ou a uma Livraria da Baixa comprar um livro, ou apenas “desanuviar”, em dez, quinze minutos, chegava onde queria. Os eléctricos eram um bom meio de transporte. Havia imensos lugares onde se podia almoçar ou jantar em conta (não direi que a comida fosse 5 estrelas, mas era razoável). E gostei francamente do ambiente académico de Universidade, que não existia em Lisboa, onde as escolas eram longe umas das outras e onde não convivíamos a não ser com os colegas de curso. No Café Atenas, onde tinha a maior parte das refeições, rapidamente acamaradei com estudantes (eu não era substancialmente mais velho que eles) mas também com colegas já formados que alimentavam, ali, a continuação de tertúlias de outrora.

Para não fugir à regra, foram dois anos muito trabalhosos, com a agravante de, pouco tempo depois de ter começado o estágio a sério (isto é, a “dar” aulas) ter adoecido gravemente, com uma crise de reumatismo articular agudo, que durante mês e meio me afastou do estágio e de Coimbra (como já referi em post de Maio deste ano). Parece que da doença não ficaram sequelas pelo menos visíveis, e alguns meses depois sentia-me forte como dantes.

O ritmo do trabalho impôs-me a necessidade de muitas vezes sair sem destino, “vagueando” pela cidade, apenas para relaxar. Como não vivia muito longe do Penedo da Saudade os meus passos para lá se dirigiam, ou para Celas, muito mais do que para a Baixa.

Guardo da Coimbra onde fiz estágio memórias maioritariamente agradáveis, e não posso deixar de pensar que muito da afectividade que me liga à cidade tem a ver com a própria actividade bem sucedida, a nível profissional mas também a nível das relações com as pessoas com quem mais me dava, que foram excelentes. No final do estágio, acalentava mesmo a ideia de poder continuar no Liceu, porque era regra o Reitor convidar os melhores estagiários para continuarem, como agregados, no Liceu. Isso não aconteceu, porém: aos olhos do Reitor eu devia configurar um potencial (senão actual…) pró-comunista, como fora mais ou menos patente quando da minha intervenção na chamada conferência pedagógica a que éramos obrigados, e em que eu cometi o grave delito de dizer que para o ensino da história contemporânea era importante a existência de uma imprensa isenta, dando como exemplos Le Monde e The Observer...

Por isso, no ano seguinte concorri e fui colocado em Aveiro.