The past is malleable and flexible, changing as our recollection interprets and re-explains what has happened.... Peter Berger
2005/12/20
Pérolas
2005/12/19
Os lugares onde vivi – (4) Horta, Açores (1960-1961; 1967-1968) – 2ª parte
Também as ligações aéreas tinham sido melhoradas, embora só nesse ano o aeroporto da Horta (situado na freguesia de Castelo Branco, a uns quilómetros da cidade) tivesse começado a ser construído. Recordo-me de durante algum tempo o engenheiro Edgar Cardoso ter estado na Horta por causa do aeroporto que iria ser inaugurado três anos mais tarde, em 1971. Ele fazia as suas refeições no mesmo restaurante que eu, o “Capitólio”, e recordo como curiosidade que levava com ele uma pequena garrafa de azeite, com que temperava o peixe cozido (como se podia esperar, o peixe era óptimo).
Também a nível de instalações hoteleiras existiam melhorias. Abrira uma Residencial, a S. Francisco, remodelando parte das instalações do Hotel. O próprio liceu fora melhorado, com a construção de uma ala nova. Talvez houvesse também mais procura turística, embora a sua expressão fosse ainda pequena.
A cidade não alterara muito a sua pacatez, e eu não alterei muito os meus hábitos de trabalho. Repartia as horas lectivas de História e Filosofia com um colega que fora lá colocado e com o qual tive uma excelente relação durante todo o ano, o José Fernando Cabral Pinto, relação essa que se perdeu, mais tarde, ainda que durante algum tempo tenhamos continuado a ter relações de amizade. Nunca percebi se a culpa foi minha, dele, ou dos dois… nem sequer sei se houve culpa. Na medida em que também tem estado ligado à educação tenho sabido do seu percurso, como provavelmente ele tem sabido do meu.
Este ano foi um ano produtivo, no qual fiz uma experiência com os meus alunos de Filosofia do 7º ano. Estava nessa altura muito influenciado por um livro da ARIP (Association pour la Recherche et l'Intervention Psychosociologiques) sobre pedagogia não-directiva e estava também entusiasmado com a sociometria. Um dia escreverei sobre essa experiência e o que ela me ensinou.
Outro ponto que marcou a minha estadia na Horta nesse segundo ano foi o meu envolvimento na festa dos finalistas, que me convidaram para os ajudar. A Horta dispunha de uma sala de espectáculos razoável, ainda que envelhecida, o Teatro Faialense, e foi lá que se realizou a festa. O prato forte foi a representação de uma peça de teatro de Thornton Wilder, “A longa ceia de Natal”, e uma espécie de revista, “Olha o disco!” (os discos voadores estavam na moda…), que eu próprio escrevi e na qual se incluíam as “piadas” à vida do Liceu que os alunos entenderam apropriadas. Foi um mês e meio muito interessante, no qual pude avaliar muitas coisas que porventura as aulas não me revelavam…
Insiro três fotografias da época: um aluno, na festa, a imitar-me, vestindo a minha gabardina e usando a minha pasta, o meu guarda-chuva e até os meus óculos escuros; eu no navio “Funchal”, tendo como fundo a ilha de S. Jorge; e o grupo de alunos finalistas com três professores ao centro (o Dr. Tomás da Rosa, Drª Fernanda e eu).



Regressei ao Faial duas vezes, uma depois do 25 de Abril, em “serviço” do Ministério da Educação, e outra, muito recentemente, em férias turísticas. Claro que a Horta mudou, ainda que estruturalmente, e ainda bem, continue a ser uma cidade pacata e agradável. Curiosamente, foi apenas na última viagem que entrei no célebre “Peter”, cujo fundador faleceu recentemente: na verdade, nos anos 60 o “Café Sport”, apesar de já existir e de ter iniciado a sua actividade de apoio aos iates que demandavam o porto da Horta, não tinha a notoriedade que alcançou depois.
Em termos gastronómicos, no Faial aprendi a gostar de inhames e a apreciar o verdelho do Pico. Ah! e os cavacos eram excelentes! (quem quiser saber mais sobre cavacos, clique aqui).
Pergunta ingénua
2005/12/17
Os lugares onde vivi – (4) Horta, Açores (1960-1961; 1967-1968) – 1ª parte
Embora não faça rigorosamente parte dos locais onde vivi, a minha primeira experiência de viajante no alto mar merece ser recordada…
O “Carvalho Araújo” era um paquete já com uns anos de vida, mas simpático. As instalações eram razoáveis (pelo menos em 1ª classe!), a alimentação boa (aliás, comer era dos bons momentos a bordo, desde que não se enjoasse), e gostei francamente daqueles dias de descanso forçado mas diferente. O tempo não esteve mau até se chegar aos Açores, porque aí, entre ilhas, ainda apanhei mar alto e não era fácil mantermo-nos de pé se tal tentássemos.
Para mim, era tudo novidade, e como tal fui de descoberta em descoberta. Eu estava muito habituado a barcos – como se lembram, vivia no Seixal e inúmeras vezes fiz o percurso até Lisboa e volta, mas o estuário do Tejo não é o Atlântico. Assim, quando “não vimos mais que mar e céu”, como escreveu o Poeta, abriu-se-me um mundo novo… A Madeira, a que se chegava de manhãzinha depois de duas noites e um dia de viagem, foi um deslumbramento vista do mar. Como o barco estava todo o dia atracado ao cais do Funchal, fiz as habituais visitas a pontos turísticos da ilha, incluindo neles o próprio liceu (mal sabia que ainda iria ser professor lá!).
Depois, a viagem continuou por mais um dia e meio até S. Miguel (onde o barco permaneceu igualmente um dia) e Terceira, e depois, em percursos mais curtos, parou no Pico, Graciosa, e S. Jorge antes de rumar ao Faial, onde apenas chegou no dia 21 e Outubro – sete dias depois de sair de Lisboa… Nas primeiras horas em terra parecia-me que continuava a navegar, sentindo-me tonto, como se tudo à minha volta oscilasse. Era o enjoo de terra! Eu, que não enjoara no alto mar, sofria agora do mal inverso…
Bom. Mas é tempo de escrever sobre a Horta.
A Horta era (e é) uma pequena cidade, implantada na orla sul da ilha do Faial. Depois de a conhecer melhor, costumava dizer, um pouco exageradamente, que a cidade era uma rua muito comprida que mudava várias vezes de nome… Claro que era mesmo exagero. Instalei-me no “Fayal Hotel” – era mesmo assim. A Horta era uma cidade que ainda mostrava bem as influências que sofrera das prolongadas estadias de estrangeiros que, na primeira metade do século XX, tinham por lá estado em virtude de a Horta ser um ponto nevrálgico dos cabos submarinos que cruzavam o Atlântico. Diziam mesmo hotel à inglesa, marcando muito a primeira sílaba – “hótel”. E a estadia de ingleses e alemães tornara a cidade um pouco cosmopolita – era, de longe, a mais aberta dos Açores (conheci depois, menos bem mas mesmo assim razoavelmente, Angra e Ponta Delgada).
Vale a pena dizer que quando cheguei à Horta tinha passado pouco tempo sobre a erupção dos Capelinhos, e ainda esse era um tema de conversas. Passei o ano todo à espera de um tremor de terra, mas nunca veio, para meu grande consolo!
Que dizer da cidade? Era, ao tempo, o sítio mais pacato que conheci. Longe de tudo, numa altura em que não havia aeroporto e portanto só havia ligações marítimas, a população estava à mercê do tempo. Depois da minha chegada houve um longo período de tempestades e por isso o outro navio que alternava com o “Carvalho Araújo” as viagens para os Açores, o “Lima”, não pôde fazer o serviço na Horta: ficámos um mês sem notícias, porque os barcos mais pequenos que faziam a ligação a Angra do Heroísmo, e poderiam assim trazer correio vindo de avião para as Lajes, também não operavam. O movimento nas ruas era muito reduzido, à noite não se via ninguém nas ruas. Por outro lado, havia uma vida social intensa, em que as famílias se visitavam regularmente, e a cidade possuía um clube excelente, o “Amor da Pátria”, onde se reunia a sociedade local.
Chovia muito, mas não havia praticamente frio. Com excepção dos dias de temporal, e sem chuva, era agradável viver lá. Como tive de preparar matérias novas – fui professor de Filosofia do 6º e do 7º ano, para além de ter tido as turmas de História do 3º, 4º e 5º e, claro, a Organização Política e Administrativa da Nação – continuei a trabalhar bastante.
A Horta tem uma pequena maravilha à sua frente – a ilha do Pico, que, desde que não haja nuvens, se vê perfeitamente, distinguindo-se a povoação da Madalena, a pouco menos de meia hora de travessia do canal. Estando bom tempo, observar o Pico é uma distracção compensadora.
Uma palavra para o ambiente humano, e basta uma: admirável. Apesar de ter tido um conflito latente com o Reitor do Liceu (como prometi, contarei isso mais tarde), não deixei de apreciar a generosidade e o calor humano dos açorianos em geral e dos que encontrei na minha estadia na Horta. Tive com os alunos uma relação fantástica – em sua lembrança registei, acima, uma fotografia que conservo, como muitas outras.
Quando o ano acabou, nos finais de Julho, e regressei a Lisboa, não imaginava que seis anos depois iria regressar (em Outubro de 1967).
Mas esse episódio constituirá a segunda parte da minha estadia na Horta, na qual continuarei a descrever a cidade.

