2005/12/15

Os lugares onde vivi (2) Lisboa (1947-1959)


Apesar de não ser lisboeta, Lisboa é a minha cidade: morando no Seixal, vinha com os meus pais a Lisboa, de vez em quando, atravessando o Tejo nos barcos que já então faziam a ligação entre as duas margens, numa viagem de cerca de 30 minutos. Quando entrei no Liceu, em Outubro de 1947, ainda morava no Seixal, e durante algum tempo ia e vinha todos os dias, mas depois fiquei durante algum tempo em casa de uma tia que vivia perto do Liceu, na Rua Fernandes Tomás, e é por isso que digo que desde 1947 vivo em Lisboa. Na verdade, a mudança da família só se deu em 1948.

Até 1959 vivi sempre em Lisboa, e depois dessa data voltei a lá viver durante longos períodos, nunca tendo cortado as amarras nem à cidade nem à casa onde vivi (e a que me acolho quando lá vou) desde 1970.

A Lisboa dos meus primeiros anos como seu habitante recordo-a como uma cidade onde era bom viver. Quem estava habituado à vida simples do Seixal tinha forçosamente de sentir o encanto de uma grande cidade, que não se confinava a duas ruas paralelas e a um cinema barracão.

Fui viver para um 4º andar de um prédio acabado de construir, na Rua do Arco do Carvalhão, a dois passos de Campolide. A lembrança mais viva desses tempos é a dos pregões que ouvia (e que desapareceram de todo na cidade): da peixeira, das vendedoras de fruta e hortaliça, dos “amola facas e tesouras”… Era uma casa cheia de sol, agradável, onde era bom estar.

Em virtude de uma doença que me tocou à porta, aos doze anos (um dia poderei lembrar esse facto da minha vida) a família considerou mudar de casa, porque um quarto andar sem elevador não era aconselhável para um convalescente, e por isso mudámos para um rés-do-chão de um edifício da Rua Padre António Vieira, ao parque Eduardo VII. Foi a minha segunda morada em Lisboa, e mantive-me muito pouco tempo nela, porque alguns meses depois aconteceu aparecer uma oportunidade que pareceu excelente para os meus pais e mudámo-nos uma vez mais para um rés-do-chão alto no Bairro Azul, na Avenida de Ressano Garcia. Não seria no entanto a última; ano e pouco depois, houve nova mudança, e desta vez definitiva, para um 6º andar (desta vez com elevador) na Avenida de João Crisóstomo, perto do parque de Palhavã, onde é hoje a Fundação Gulbenkian e era, na altura, a Feira Popular de O Século. No fundo, e para quem não conhece a topografia da cidade, todas estas minhas moradas ficavam relativamente perto umas das outras.

Neste período de doze anos que considerei no título deste post, “apropriei-me” da cidade. Estudando em dois liceus, o Passos Manuel e o D. João de Castro, fazia diariamente percursos razoavelmente longos para lá chegar, usando para o primeiro o eléctrico e para o segundo o autocarro, mas andava também muito a pé. Como sempre gostei de me levantar cedo, saía de casa com muita antecedência e, se não chovia, fazia sempre parte da deslocação andando, sobretudo quando ia para o D. João de Castro, em que ia tomar o autocarro ao Marquês de Pombal. Até lá, ou atravessava o Parque Eduardo VII (que na altura não era o que é hoje em termos de segurança) ou descia simplesmente a Avenida António Augusto de Aguiar e depois a Fontes Pereira de Melo.

Nesses doze anos, certamente a cidade mudou, mas conservo dela uma imagem muito consistente que referi atrás: uma cidade em que era bom viver, em que os automóveis ainda não estavam em cima de passeios, em que não havia sinais de insegurança. Lisboa tinha limites, percebia-se quando se saía da cidade e se estava nos chamados “arredores”. Como durante todo esse período não tinha automóvel não posso falar por experiência própria de como era relativamente fácil estacionar onde se queria (mais tarde, nos anos 70, já motorizado, isso ainda era relativamente possível).

Houve todavia um período onde a vida da cidade foi um pouco perturbada, quando começou a construção das primeiras linhas do Metropolitano, que transformou a Avenida da Liberdade num estaleiro… Recordo ainda o dia da inauguração, um dia de loucos, em que todos queriam experimentar a novidade (e eu também!) e por isso encheram-se cais e carruagens (quem quiser saber um pouco da história do metropolitano, pode clicar aqui).

Da Lisboa dos meus anos de estudante recordo ainda as inaugurações do excelente cinema S. Jorge, em 1950, de que fui um assíduo cliente, pois durante muito tempo não perdi um único filme exibido e do estádio da Luz, em 1954, onde, paradoxalmente, poucas vezes estive. Também nesses anos cinquenta cresceu a cidade universitária, ao Campo Grande; aliás, a minha Faculdade (de Letras) mudou-se para lá em 1958. Fiz todo o curso nas antigas instalações do Convento de Jesus mas o acto de licenciatura foi no edifício novo. Recordo finalmente os começos da televisão – cujas primeiras emissões experimentais foram feitas da Feira Popular, como disse pertinho da casa de meus pais.

Terminei o curso em Julho de 1959 e em fins de Setembro fui colocado como professor eventual no Liceu Nacional de Santarém. Santarém vai ser, durante cerca de um ano, o meu novo local de residência.

2005/12/14

Os lugares onde vivi - (1) Seixal (1936-1947)


Nasci na Cova da Piedade apenas porque os meus avós maternos – que cheguei a conhecer, ao contrário dos meus avós paternos – lá viviam. Nessa altura poucas mamãs não tinham os seus filhos em casa… Mas a minha infância foi passada no Seixal, onde a minha família se fixara. Nesses anos 30, o meu pai era contabilista de uma grande firma da indústria corticeira deste país, a Mundet & Cª Ldª, e a minha mãe – como tantas outras mulheres do seu tempo! – teria de inscrever, como profissão, se a tal fosse obrigada, “doméstica”. Eu era o mais novo de três filhos, a oito anos de distância da irmã e a doze do irmão.

Tenho uma ideia global dos tempos da minha infância, com episódios bem marcados e outros nebulosos, até que começo a ter uma memória mais precisa, detalhada. A recordação mais antiga é a de receber uma vacina no consultório do Dr. Fiadeiro, médico que nos finais dos anos 30 do século XX exercia no Seixal. Penso que terá sido uma vacina tardia – teria eu três anos? Lembro-me de estar sentado numa mesa alta, lembro-me do médico a retalhar a minha coxa direita, e sobretudo lembro-me de um cão preto, enorme, que do lado de fora do consultório, observava a cena. Penso que terei tido muito medo do cão e naturalmente da vacina; isto porque ainda hoje não gosto particularmente de me encontrar com cães desconhecidos e também não gosto de ter de me encontrar com médicos...

O calendário real ajuda-me a datar os eventos que recordo: o ciclone de 15 de Fevereiro de 1941 (estava eu portanto a meses dos cinco anos), a morte da minha Avó materna, um ou dois anos depois; um tremor de terra forte, que me apavorou, em data que não posso precisar. Visualizo com nitidez a noite na qual o meu Pai, de acordo com as instruções dadas, colou nas janelas tiras de papel, pôs à porta um balde de areia com uma pá, e apagou todas as luzes: era o “blackout” de prevenção nos tempos da Grande Guerra de 1939-1945. De manhã, foi a surpresa – e disso me recordo com nitidez, também! – ao ver pela janela, sobrevoando o braço do rio Tejo que se avistava de casa, muitos balões de barragem.

Tenho da guerra lembranças esparsas. Quando comecei a saber ler – teria eu uns seis anos, talvez – recordo-me de todas as manhãs ir espreitar o jornal que o meu Pai lia, O Século. Claro que ouvia conversas, mas não sei se cheguei a ter uma consciência clara do que estava a acontecer.

O Seixal era nessa altura uma pequena vila que de desenvolvia precisamente ao longo desse braço do rio. Era uma vila de pescadores e de operários, porque a fábrica da Mundet dava trabalho a muita gente. Havia duas ruas principais e paralelas, a Paiva Coelho e a Dr. Miguel Bombarda, na qual morava, num segundo andar que me permitia ver o rio, o moinho de maré em frente e ao longe, se não havia neblina, os contornos de Lisboa.

Terra de gente modesta e trabalhadora, com parcas diversões. O cinema era um barracão (na altura as crianças podiam ir ao cinema mesmo se fossem de colo), e recordo-me de se ter inaugurado a primeira pastelaria no Seixal – por acaso mesmo ao pé da casa de meus pais. Havia duas sociedades recreativas que eram rivais – se não me engano, tinham os nomes de Timbre Seixalense e União Seixalense. E o Seixal Futebol Clube.

Nesses anos 40 estava-se a electrificar a vila – recordo-me dos trabalhos feitos em casa, dos montes de fios, tomadas e interruptores – tudo montado à vista, claro. Também não havia ainda água canalizada – todos os dias o “aguadeiro” nos visitava para encher os potes na cozinha.

Desses tempos, recordo ainda as grandes festas de S. Pedro, o padroeiro da vila, com as ruas engalanadas, a procissão e as vendedeiras de bolos (sempre fui guloso).

Foi no Seixal que fiz a escola primária, os meus primeiros exames, e foi no Seixal que fiz os primeiros amigos – mas a vida afastou-me de todos eles. Em 1947 o meu pai foi transferido para os escritórios da Mundet em Lisboa, estava eu no 1º ano do Liceu, e a família mudou-se para a capital. Ia iniciar um novo capítulo da minha vida.

2005/12/13

Os lugares onde vivi


Outro dia, vagueando a minha memória por passados remotos, senti a tentação de escrever sobre os diferentes lugares onde vivi, de uma forma continuada. Foram muitos, na verdade! Também eu, professor, tive de “saltar” de escola para escola nos primeiros anos da minha vida. Sem os contornos dramáticos de quem entra hoje na profissão, nos anos 60 do século passado a colocação dos professores no início do ano lectivo constituía um pequeno problema que tinha de ser resolvido. A minha ideia é conseguir descrever esses lugares tal como a minha memória os restitui. Datando-os, claro está!
Amanhã, publicarei o primeiro…

2005/12/10

O português e os exames


Abriu-se mais uma frente de debate: parece que o Ministério da Educação tenciona terminar com os exames de Português e de Filosofia no 12º ano e naturalmente gerou-se controvérsia. O assunto não é novo mesmo aqui, na Memória. Já exprimi por diversas vezes a minha posição: ao nível da escola básica os exames não têm razão de ser (o que não significa que não existam provas de avaliação aferida); quando o problema de uma selecção se puser (fim do secundário, entrada no superior) aceito-os, se forem moderados por outros processos de avaliação.

Acabo de dizer o que considero essencial: os exames são uma prova de selecção. Leio e oiço dizer que acabarem os exames de português irá abastardar ainda mais a pobre língua nacional – e fico a pensar porquê. Será que, a não existirem os exames, os alunos deixam de saber escrever e falar português? Então, os professores andaram distraídos, não avaliando as capacidades dos seus alunos? Porque é neles (professores) que recai a maior responsabilidade quanto à avaliação das aprendizagens dos alunos. O exame apenas separa os que fazem bem dos que fazem mal, não ensinam coisa alguma. A capacidade de bem escrever e bem falar a língua é consequência de uma aprendizagem contínua, que certamente qualquer professor certificará sem necessidade de um exame. Ou seja: a exigência tem de ter o seu centro na escola, lutando contra todas as formas perversas de degenerescência da língua, de que as abreviaturas das SMS são exemplos intoleráveis.
Assim: sempre que não esteja em causa um princípio de selecção, que aceito, não vejo que seja criticável pôr fim a exames que nada adicionam às aprendizagens regulares certificadas pelas escolas.

2005/12/09

Eleições presidenciais


Pessoalmente, não penso que, seja qual for o candidato eleito, isso faça qualquer diferença para o nosso futuro próximo ou longínquo, se, bem entendido, pensar naqueles candidatos que a mais elementar lógica nos diz que estarão entre os “elegíveis”. De qualquer forma, penso que nós, os votantes, deveríamos ter a oportunidade de ver os candidatos debater ideias, confrontar-se, e não, conforme o modelo decidido, apenas responderem ordeiramente às perguntas, por vezes inconsequentes ou inúteis, dos moderadores (que acabam por ser entrevistadores) naquelas ocasiões a que alguns chamam “debates” (quais debates?). Nesse aspecto, Mário Soares tem toda a razão.