2005/12/05

Foi no dia 2


Propositadamente quis que decorressem pelo menos dois dias para escrever. Para tudo, o tempo é, ainda, o melhor remédio. Não quero dramatizar, porém: a longa preparação que tenho feito para vencer estas pequenas etapas resultou. Para esta etapa contribuíram os meus actuais alunos, que perceberam e foram sóbrios no momento do adeus. Não costumo conviver muito bem com emoções deste tipo, mas desta vez contive-me. Fez-se uma fotografia do grupo, no seu habitat, a sala de aula, e poucas palavras de circunstância. Mas houve sinceridade. A fotografia irá para o blog, que decidimos manter para além do fim do curso.

Foi no dia 2 que dei, oficialmente, a minha última aula, uma vez que não terei serviço docente no segundo semestre. Terminei 46 anos e três meses depois de ter dado a primeira aula, que foi no dia 2 de Outubro de 1959. Nenhum dos meus actuais alunos do mestrado era nascido nessa data...

Agora, vou ficar com mais tempo para a Memória e passarei a ser mais regular nas minhas visitas aos posts amigos e a explorar outros.

Para registo, o tema da minha última aula: “A cultura pós-moderna e o currículo escolar”.

2005/12/01

1º de Dezembro


Na escola primária de outros tempos (os meus tempos) datas como a do 1º de Dezembro eram aproveitadas para um reforço de alimento do espírito patriótico. Quem sabe se comigo não surtiu efeito, e este meu sentimento de uma certa desconfiança em relação ao que vem de Espanha (que a razão hoje condena) não terá como base o discurso patrioteiro sobre Aljubarrota e a data que hoje se comemora? Provavelmente já não vou ter tempo para mudar o sentimento, mas sempre tentarei. Para já, comungo do humor de um cartoonista, que há dias, brincava com o 1º de Dezembro figurando uma conversa entre dois espanhóis comentando a ”sua” derrota em 1640. E paradoxalmente estavam contentes, a ponto de um deles fechar a conversa dizendo “Do que nós nos livrámos, hein?!”. Pois.

2005/11/29

Professores?


No caminho para a Universidade, embora curto, oiço como habitualmente a TSF. Hoje, em vez do António Peres Metelo, escuto uma reportagem sobre uma greve de professores de um (ou do, não percebi) agrupamento de escolas de Paço d’Arcos. Motivo? O prolongamento do horário escolar. Uma professora, madrugadora, presta declarações. À medida que fala, começo a desconfiar: professora? Para ela, é óptimo que os meninos fiquem mais tempo na escola para “actividades extra-curriculares”, como o xadrez, o desporto, o Inglês (nesta altura repara que escorregou e tenta reparar os danos). Mas tudo dado por “monitores”, porque os professores apenas têm de preparar as lições e não estarem com os meninos fora das aulas, em actividades para as quais não têm preparação. Oh sacrossantas aulas! Oh sacrossanta “componente lectiva” (quem terá inventado esta termo?)!
O seu discurso é apoiado depois por uma senhora do Sindicato dos Professores da Grande Lisboa que refere o grande exemplo deste agrupamento: que o país ponha os olhos em Paço d’Arcos porque ali estão os que lutam pela dignidade profissional.

Tudo bem, a greve é um direito, que o exerçam. Mas por favor, não com argumentos que só se voltam contra, essa sim, dignidade profissional de que se deveriam orgulhar. Ainda temos, infelizmente, muito caminho a percorrer para que se perceba qual é o verdadeiro papel dos professores nos dias de hoje.

2005/11/28

Pessimismo

No passado sábado fui até Monção para escutar uma conferência de João Medina intitulada “Zé Povinho: estereótipo português? (Reflexão sobre a identidade nacional)”. Tinha interesse em conhecê-lo pessoalmente e o tema pareceu-me interessante. No âmbito das aulas deste semestre o problema da identidade nacional já foi debatido com os meus alunos e estava curioso em ouvir o Professor Medina. A minha expectativa não foi iludida, a conferência foi excelente, partindo de uma análise que considero lúcida sobre características nacionais que se vão mantendo ao longo dos anos e que, de algum modo, parecem justificar a “apagada e vil tristeza” que já Camões denunciava: apatia, indiferença, descrença, o imobilismo de quem tem as mãos nas algibeiras porque desistiu de lutar porque sempre foi espezinhado, “albardado” na simbologia da albarda que jaz aos pés da figura imortalizada por Rafael Bordalo Pinheiro.
Recuso, contudo, apesar de tudo o que se tem passado e, confesso, tem abalado um pouco o meu inveterado optimismo (talvez mais crença do que outra coisa), a afundar-me num pessimismo de “fim da Pátria” que de algum modo João Medina deixa transparecer. Se todos os dias tenho dez momentos de desânimo encontro sempre um outro momento para acreditar. Dir-me-ão que a desproporção é enorme – e infelizmente é. Mas não desarmo: quero continuar a ser optimista.

Nota: Para quem não saiba há em Monção uma Casa Museu que é uma unidade cultural da Universidade do Minho, legado de uma benfeitora que quis assim preservar os seus bens, alguns de grande valor, que constituem o recheio do solar. Na parte inferior existe uma sala de conferências e um pequeno espaço para exposições. Vale a pena a visita!

2005/11/25

As armas em boas mãos...


Quem viveu os tempos do PREC (curioso, hoje é 25 de Novembro, posso recuperar a memória de há trinta anos…) recorda-se certamente das armas desaparecidas que “estavam em boas mãos”. Pois hoje de manhã, ao ouvir a TSF, lembrei-me disso, quando ouvi a declaração de um morador do Bairro Santos, em Lisboa, comentando o regresso a casa de Carlos Silvino, libertado depois de três anos de prisão preventiva e que em sido alvo de ameaças de morte. Dizia esse morador que estava preocupado com o seu regresso, porque “aqui quase toda a gente tem em casa uma fusca”. Insinuando, assim, que o tiro ao alvo pode acontecer. Quase toda a gente?! E não gritamos por socorro?