Embora em natural desuso, o “politicamente correcto” ainda tem os seus cultores. Devo dizer que não me afecta que se faça um esforço por limitar, no discurso, termos ou frases que possam ser consideradas pouco abonatórias no contexto social no qual se vive. Muito recentemente, assistiu-se entre nós a um reavivar do politicamente correcto que me deixou divertido.
Não sei se repararam que há umas semanas começou a passar na rádio (e na televisão, também) um anúncio no qual se quer dar relevo a um acesso à Internet mais barato. O anúncio desenvolve-se em diálogo por um casal, e inicialmente o homem (presumível marido) tenta explicar à mulher as vantagens da adesão a esse produto, mas a senhora parece não as atingir e, no fim, exclama com uma voz (e cara) sugestiva: “Olha, explica-me como se eu fosse muito burra!”
Bom, com certeza havia quem sorrisse (eu sorri!) mas deve ter havido alguém que não sorriu e disparou a favor do “politicamente correcto”. Podia lá ser estar a desfrutar o género feminino? Então, as mulheres têm de ser estúpidas?
E aconteceu o que se viu: após alguns dias com este anúncio, aparece um outro simétrico, no qual é a mulher que tenta explicar ao homem as vantagens do novo acesso, e é o homem que, no fim, confessa: “Olha, explica-me como se eu fosse muito burro!”.
Eu continuei a sorrir, mas ao mesmo tempo a pensar o que teria acontecido para esta mudança – e cheguei à conclusão que acabei de expor. Mas mesmo que não fosse assim, ou seja, mesmo que o publicista tivesse imaginado os dois anúncios e apresentá-los com esta sequência, ou alterná-los, o efeito era o mesmo: eis o politicamente correcto em todo o seu esplendor.
Não tenho nada contra que se policie a linguagem, mas faz-me confusão tudo o que é excessivo. Denegrir sistematicamente a mulher só porque é mulher é censurável. Como é censurável denegrir os alentejanos com as anedotas que para eles se criaram. Mas pesemos as coisas com calma. Não me parece que o anúncio fosse chauvinista porque o objecto é uma mulher e deixe de o ser porque passa a ser homem… Ou então, têm de me explicar isso como se eu fosse “muito burro”…

