2005/10/12

Mais do mesmo


Leio nos jornais de hoje (ontem, não tive oportunidade de ver notícias na TV) declarações de responsáveis sindicais e de professores, a propósito da intervenção do Secretário de Estado da Educação acerca das medidas que comentei ontem neste blog, nas quais se usa a mesma expressão que empreguei, “mais do mesmo”, associada a uma certa desconfiança sobre os resultados de recuperações que se baseiem nesse princípio.
Embora continue à espera de ver concretizado no papel o que o Ministério propõe, não me contenho em desde já, dizer mais alguma coisa. Pertence precisamente aos professores (reunidos no conselho de turma) tomar as decisões que se imponham para tentar diminuir a taxa de insucesso. Na verdade, a legislação existente permite-o, e por isso, estou expectante acerca da maneira como o despacho ministerial vai ser elaborado. Não me parece que seja possível, nem desejável, impor modelos. Repito, é aos conselho de turma que compete estudar a situação dos seus alunos e propor soluções. A escola (agrupamento) terá de estudar os meios para compatibilizar essas diferentes soluções. As estruturas do Ministério da Educação, as existentes ou a definir, terão como função dar apoio. E outras estruturas (associações de pais, por exemplo) deverão ser chamadas a cooperar.
Mas atenção, para que haja sucesso, cabe aos professores o principal papel. O papel de se assumirem como professores e não como funcionários públicos (o que não quer dizer que deixem de ser críticos em relação a eventuais beliscaduras nos seus direitos). Continuarei atento a este assunto, que é, sem dúvida, da maior importância.

2005/10/11

Novidades na educação


Leio no Público (e como esta local está on-line, pode ler também aqui) que o Ministério da Educação anunciará hoje medidas de combate ao insucesso escolar em que a peça central serão “aulas de recuperação” e “planos de recuperação” para os alunos que reprovem em dadas condições. Aguardarei pelo despacho anunciado para daqui a alguns dias (perguntando-me que sentido faz anunciar medidas sem se conhecerem completamente todos os dados que as suportem) mas permito-me desde já fazer um comentário. Sou muito céptico em relação a “aulas” de recuperação, o “mais do mesmo” que regra geral não consegue acrescentar nada a quem sabe pouco. Pelo contrário, penso que a existência de planos de recuperação individuais consigam ter uma percentagem de êxito assinalável, desde que cuidadosamente planeados e executados.

A estrutura curricular do ensino básico contém, aliás, uma área (o estudo acompanhado) que foi pensada precisamente para ajudar os alunos, e em especial os que têm mais dificuldades de aprendizagem. Infelizmente, creio que raramente ela foi aproveitada como devia pelos professores nas escolas. E no entanto, onde foi bem aplicada, poderá ter tido sucesso.

Vamos uma vez mais esperar para ver. Gostaria de poder dizer que estou entusiasmado, mas não estou: sinceramente, receio sobretudo que as aulas de recuperação se transformem em novos meios de discriminação (que sendo eventualmente necessária, não deve sê-lo numa perspectiva institucional, mas como um acto normal do processo de ensino-aprendizagem dos alunos).

2005/10/10

Amarante


Eu gosto de Amarante: da sua paisagem repousante, dos seus monumentos e do seu museu, da sua gastronomia (que doces deliciosos!), da sua gente. Tenho em Amarante grandes amigos. Nos últimos tempos, confesso, vivia contrito a pensar no que podia acontecer a Amarante depois do dia de ontem. Estava preocupado, sinceramente preocupado.

Por isso, fiquei feliz e mal soube do resultado das eleições para a Câmara Municipal, enviei uma mensagem dando parabéns ao Luís. Afinal, nem tudo está perdido!

Nota: a minha irregularidade na Memória prende-se com o facto de estar agora a gerir um outro blog muito mais exigente… Espero que em breve consiga o equilíbrio, tanto mais que tenho algumas promessas por cumprir…

2005/10/05

A República

Sorrio quando recordo que quando era criança (e até mesmo “rapazinho”) tinha pena por já não haver rei em Portugal. Não diria que era monárquico – coitadinho do que era eu! – mas certamente fui arrastado pelo meu gosto pela história e, também, pela maneira como ela era ensinada e eu a aprendi. Era na verdade uma história de reis e de exaltação das virtudes da “raça”, uma história de heróis e heroínas (a Padeira de Aljubarrota formatou a minha desconfiança persistente ao país vizinho…), e a minha mente infantil deve ter-se povoado de imagens construídas de fausto dos palácios (que nem era assim tão grande).

Depois, passou-me a tendência, e passei a considerar o sistema republicano como realidade irreversível e muito mais interessante do que a monarquia. Entendo, porém, que a pouco e pouco, para além do feriado, se tem perdido muito do brilho da comemoração do dia em que se mudou o regime. E há pouco dei por mim a pensar que só faltam cinco anos para o centenário. Não seria de começar já a pensar em como comemorar a data?
EM TEMPO
Vejo hoje (tardiamente, ando distraído...) que já se pensa na comemoração (ver aqui). Ainda bem!

2005/10/04

O estado da democracia


A minha geração não foi educada para a política, ou se quisermos foi educada para uma política. Uma política manhosa, calculista, de subordinação ao “chefe”, aos escolhidos, de aceitação passiva das suas determinações. Eu sou da geração que em jovem era amarrada com um cinto cuja fivela era um S e fazia ordem unida às quartas-feiras, para ser chefe de quina ou comandante de castelo. Houve quem se libertasse, e com sacrifício da própria liberdade lutasse por ela. Não fui desses, mas muito cedo percebi a engrenagem em que era obrigado a viver. E de algum modo acomodei-me, à espera que algo acontecesse. Esperei quase quarenta anos, para sentir, em Abril de 1974, a alegria incontida de ver acabar uma era em que não me orgulhava de ter vivido. Embora não tendo sido educado para a política, fiz a minha auto-educação, sobretudo enquanto estudante universitário, ainda que moderado nas minhas opções. Percebi que era profundamente adepto de um sistema diferente daquele em que vivia, mas não me entusiasmava o modelo comunista; era nos países nórdicos, numa social-democracia equilibrada que me revia.

Depois do 25 de Abril decidi (como tantos outros!) que tinha de intervir politicamente, que era obrigado a tal para ajudar o meu país. E não me foi difícil encontrar o partido que me pareceu mais perto de poder concretizar uma ideia para o novo Portugal, ainda que dois se reclamassem praticamente do mesmo ideário. Durante quase ano e meio fui militante a sério, dos que colaram cartazes a meio da noite, ia a comícios e manifestações, tinha autocolantes no automóvel. Na secção da minha residência, em Lisboa, trabalhei a fundo no sector da organização. Não me movia nenhum outro interesse senão o ajudar, o ser útil. Nunca me passou pela cabeça passar a “político” profissional; pelo contrário, até recusei uma ideia de a secção me propor para deputado da Constituinte – o que considerei uma ideia peregrina, que preparação tinha eu para ser deputado?

Um dia, porém, descobri que não era assim que as coisas funcionavam, quando fui envolvido em intrigas que punham em causa, na profissão que exercia, a minha capacidade, para favorecer outros apenas porque no partido tinham mais “poder”. Percebi então que estava enganado, eu não tinha vocação para ser homem de partido, e desvinculei-me.

Não tendo pois actividade partidária, não deixo de ter uma leitura política do que vai acontecendo. E não é uma leitura alegre. Penso que o estado da nossa democracia é preocupante. O que se tem passado a nível de contestação às medidas do governo, com que todos deviam contar (bastava ler o programa eleitoral do partido vencedor) e sobretudo em relação a alguns episódios da campanha para as autárquicas do dia 9 é grave. Afinal, o que queremos nós, portugueses? Erigir estátuas à corrupção e ao compadrio? Afundar-nos no conjunto dos países europeus como incapazes de nos gerir com rigor? Há anos que se pediam reformas – quando se começa, mesmo timidamente, a tentar pôr a cada em ordem, refutamos essa necessidade? Quem pensa que qualquer outro governo poderia proceder de outro modo? Quando haverá o bom senso de perceber que sem um amplo consenso nacional democraticamente aceite será sempre difícil ultrapassar as dificuldades? Claro que esse consenso não se assemelha a uma “União Nacional” do antigamente, mas a soluções que existem e têm existido em outros países. Até entre nós, e com razoáveis resultados, nos anos 80…