2005/10/04

O estado da democracia


A minha geração não foi educada para a política, ou se quisermos foi educada para uma política. Uma política manhosa, calculista, de subordinação ao “chefe”, aos escolhidos, de aceitação passiva das suas determinações. Eu sou da geração que em jovem era amarrada com um cinto cuja fivela era um S e fazia ordem unida às quartas-feiras, para ser chefe de quina ou comandante de castelo. Houve quem se libertasse, e com sacrifício da própria liberdade lutasse por ela. Não fui desses, mas muito cedo percebi a engrenagem em que era obrigado a viver. E de algum modo acomodei-me, à espera que algo acontecesse. Esperei quase quarenta anos, para sentir, em Abril de 1974, a alegria incontida de ver acabar uma era em que não me orgulhava de ter vivido. Embora não tendo sido educado para a política, fiz a minha auto-educação, sobretudo enquanto estudante universitário, ainda que moderado nas minhas opções. Percebi que era profundamente adepto de um sistema diferente daquele em que vivia, mas não me entusiasmava o modelo comunista; era nos países nórdicos, numa social-democracia equilibrada que me revia.

Depois do 25 de Abril decidi (como tantos outros!) que tinha de intervir politicamente, que era obrigado a tal para ajudar o meu país. E não me foi difícil encontrar o partido que me pareceu mais perto de poder concretizar uma ideia para o novo Portugal, ainda que dois se reclamassem praticamente do mesmo ideário. Durante quase ano e meio fui militante a sério, dos que colaram cartazes a meio da noite, ia a comícios e manifestações, tinha autocolantes no automóvel. Na secção da minha residência, em Lisboa, trabalhei a fundo no sector da organização. Não me movia nenhum outro interesse senão o ajudar, o ser útil. Nunca me passou pela cabeça passar a “político” profissional; pelo contrário, até recusei uma ideia de a secção me propor para deputado da Constituinte – o que considerei uma ideia peregrina, que preparação tinha eu para ser deputado?

Um dia, porém, descobri que não era assim que as coisas funcionavam, quando fui envolvido em intrigas que punham em causa, na profissão que exercia, a minha capacidade, para favorecer outros apenas porque no partido tinham mais “poder”. Percebi então que estava enganado, eu não tinha vocação para ser homem de partido, e desvinculei-me.

Não tendo pois actividade partidária, não deixo de ter uma leitura política do que vai acontecendo. E não é uma leitura alegre. Penso que o estado da nossa democracia é preocupante. O que se tem passado a nível de contestação às medidas do governo, com que todos deviam contar (bastava ler o programa eleitoral do partido vencedor) e sobretudo em relação a alguns episódios da campanha para as autárquicas do dia 9 é grave. Afinal, o que queremos nós, portugueses? Erigir estátuas à corrupção e ao compadrio? Afundar-nos no conjunto dos países europeus como incapazes de nos gerir com rigor? Há anos que se pediam reformas – quando se começa, mesmo timidamente, a tentar pôr a cada em ordem, refutamos essa necessidade? Quem pensa que qualquer outro governo poderia proceder de outro modo? Quando haverá o bom senso de perceber que sem um amplo consenso nacional democraticamente aceite será sempre difícil ultrapassar as dificuldades? Claro que esse consenso não se assemelha a uma “União Nacional” do antigamente, mas a soluções que existem e têm existido em outros países. Até entre nós, e com razoáveis resultados, nos anos 80…

2005/10/02

Justificação

O blog Curriculo & Cultura, que como disse foi reactivado, vai obrigar-me a dividir o tempo entre ele e a Memória, e vou ter, sobretudo inicialmente, muito trabalho, por causa dos convites (sempre são trinta e cinco). Talvez por isso seja mais moderado nos meus posts aqui, na Memória, porque darei sempre prioridade aos meus alunos. Até agora estou satisfeito, é sempre excelente iniciar um curso, conhecer pessoas novas, aprender-lhes o nome, perceber como são, em suma, juntá-los à longa galeria dos meus antigos alunos. Nunca teria sido tão feliz se tivesse enveredado por outra profissão. Porque o prometi, aqui fica mais uma vez o link link para Currículo & Cultura.

2005/09/29

Haverá necessidade?


Num pequeno livro que li quando era ainda muito jovem na profissão, encontrei uma verdade que fui comprovando pela vida fora. O livro era de Orlando Ribeiro, penso que se chamava Problemas da Universidade (não estou em casa e não tenho o livro à mão), e a verdade era esta: “Ensinar é o maior subterfúgio para iludir o tempo”. Sempre liguei o ser professor e ter todos os anos contacto com gente mais jovem a um certo optimismo e aceitação de quase tudo a que a juventude adere.

Mas hoje, ao percorrer o campus depois de almoço, deparei com uma daquelas cenas de praxe que, tenho de confessar, não percebo e não aceito. Ainda pensei: será que é mesmo sintoma de velhice? Mas repudiei a ideia. Não, as coisas que os estudantes hoje definiram como básicas para “integrar” os caloiros não são racionais. Já não falo em dignidade, falo em inteligência. Eu não posso aceitar a imbecilidade.

Por isso me pergunto: haverá necessidade?

(Hoje, uma colega enviou-me uma mensagem protestando contra o barulho, contra as praxes que nesta semana impedem muitos docentes de conseguir trabalhar nos gabinetes. Mas que podemos fazer? Proibir? Há, por parte da Associação Académica, genuíno interesse em encontrar uma solução, mas é verdadeiramente impossível controlar centenas de garotos – é o que me apetece chamar-lhes – em roda livre).

2005/09/28

Homenagem: gratidão e respeito


Hoje, a minha Universidade presta homenagem à memória de um dos membros da sua Comissão Instaladora, falecido em Março deste ano – o Professor Joaquim Barbosa Romero, que foi Vice-Reitor e durante algum tempo Reitor em exercício.
Por isso, o seu retrato vai passar a figurar na galeria dos retratos dos Reitores, onde se encontram os Professores Carlos Lloyd Braga, Lúcio Craveiro da Silva, João de Deus Pinheiro, Sérgio Machado Santos e Chaínho Pereira.
É bom que as instituições guardem memória da sua história. O Professor Romero teve um papel importante no arranque da Universidade, e por isso é justa a homenagem de hoje, que perdurará assim ao longo dos tempos.

2005/09/26

O primeiro dia de aulas

Elas e eles aí andam – conduzidos pelos colegas mais velhos, das “Comissões de Praxe” – entoando cânticos, muitas com a cara pintada, quase todos com um distintivo do seu curso. Almoçaram, às centenas, na enorme cantina da Universidade, e, mais tarde, reuniram-se no pavilhão gimno-desportivo, completamente cheio – os caloiros sentados no chão, os “doutores”, quase todos com trajo de gala, nas bancadas. Ouviram as boas vindas do Reitor, do Presidente da Associação Académica e do “Papa” (o Papa é o equivalente minhoto ao “Dux Veteranorum” coimbrão), escutaram pela primeira vez o hino da nossa Academia, e dispuseram-se para uma semana diferente, pensada para a sua integração na Universidade do Minho. Não tenho dúvidas de que vão surgir queixas do barulho que não deixa trabalhar quem está em sossego nos gabinetes, de práticas pouco canónicas da praxe, em suma, queixas quanto à decisão que se tomou nesta casa de, em colaboração com a Associação Académica, proporcionar aos estudantes do 1º ano uma semana inteirinha de actividades de integração.

Sinto-me por vezes dividido em relação a isto. A minha memória não regista nada – nada, mesmo – do meu primeiro dia de aulas na Universidade. E não regista nada porque pouco haveria a recordar. Nos meus tempos, a entrada na Universidade (Lisboa, 1954) não supunha enquadramento, integração, nada: era o salve-se quem puder. Assim, eu nunca fui caloiro, sendo naturalmente caloiro…

Ao observar hoje as centenas de jovens sentados no chão do gimnodesportivo, vi nos seus rostos alegria, talvez um agradecimento por sentirem tão perto a presença dos colegas mais velhos. Talvez até a presença de nós, professores, que estoicamente suportámos um barulho que deve superar o do descolar de um Boeing 747… Eu detesto ver algumas praxes. Não lhes acho graça e por vezes penso-as humilhantes. Serão os meus olhos?

Há uns meses, entrevistando um aluno brilhante do curso de Medicina, o melhor aluno da sua escola secundária, e sondando o que ele pensara das praxes, ouvi o que não esperava – que tinham sido um cimento excelente para a camaradagem do curso, que não achava que prejudicassem quem quer que fosse. Talvez seja verdade e eu esteja enganado. Hoje, repito, pareceu-me genuína a alegria dos jovens. Alegria de que fui privado, há cinquenta anos…