2005/09/28

Homenagem: gratidão e respeito


Hoje, a minha Universidade presta homenagem à memória de um dos membros da sua Comissão Instaladora, falecido em Março deste ano – o Professor Joaquim Barbosa Romero, que foi Vice-Reitor e durante algum tempo Reitor em exercício.
Por isso, o seu retrato vai passar a figurar na galeria dos retratos dos Reitores, onde se encontram os Professores Carlos Lloyd Braga, Lúcio Craveiro da Silva, João de Deus Pinheiro, Sérgio Machado Santos e Chaínho Pereira.
É bom que as instituições guardem memória da sua história. O Professor Romero teve um papel importante no arranque da Universidade, e por isso é justa a homenagem de hoje, que perdurará assim ao longo dos tempos.

2005/09/26

O primeiro dia de aulas

Elas e eles aí andam – conduzidos pelos colegas mais velhos, das “Comissões de Praxe” – entoando cânticos, muitas com a cara pintada, quase todos com um distintivo do seu curso. Almoçaram, às centenas, na enorme cantina da Universidade, e, mais tarde, reuniram-se no pavilhão gimno-desportivo, completamente cheio – os caloiros sentados no chão, os “doutores”, quase todos com trajo de gala, nas bancadas. Ouviram as boas vindas do Reitor, do Presidente da Associação Académica e do “Papa” (o Papa é o equivalente minhoto ao “Dux Veteranorum” coimbrão), escutaram pela primeira vez o hino da nossa Academia, e dispuseram-se para uma semana diferente, pensada para a sua integração na Universidade do Minho. Não tenho dúvidas de que vão surgir queixas do barulho que não deixa trabalhar quem está em sossego nos gabinetes, de práticas pouco canónicas da praxe, em suma, queixas quanto à decisão que se tomou nesta casa de, em colaboração com a Associação Académica, proporcionar aos estudantes do 1º ano uma semana inteirinha de actividades de integração.

Sinto-me por vezes dividido em relação a isto. A minha memória não regista nada – nada, mesmo – do meu primeiro dia de aulas na Universidade. E não regista nada porque pouco haveria a recordar. Nos meus tempos, a entrada na Universidade (Lisboa, 1954) não supunha enquadramento, integração, nada: era o salve-se quem puder. Assim, eu nunca fui caloiro, sendo naturalmente caloiro…

Ao observar hoje as centenas de jovens sentados no chão do gimnodesportivo, vi nos seus rostos alegria, talvez um agradecimento por sentirem tão perto a presença dos colegas mais velhos. Talvez até a presença de nós, professores, que estoicamente suportámos um barulho que deve superar o do descolar de um Boeing 747… Eu detesto ver algumas praxes. Não lhes acho graça e por vezes penso-as humilhantes. Serão os meus olhos?

Há uns meses, entrevistando um aluno brilhante do curso de Medicina, o melhor aluno da sua escola secundária, e sondando o que ele pensara das praxes, ouvi o que não esperava – que tinham sido um cimento excelente para a camaradagem do curso, que não achava que prejudicassem quem quer que fosse. Talvez seja verdade e eu esteja enganado. Hoje, repito, pareceu-me genuína a alegria dos jovens. Alegria de que fui privado, há cinquenta anos…

2005/09/25

Fim-de-semana


Acredito que para a maior parte das pessoas o fim-de-semana acabe por ter as suas rotinas, mesmo para aquelas que sejam avessas à manutenção de hábitos. Eu, que assumo sem qualquer problema que sou um homem de hábitos, criei sem esforço rotinas de fim-de-semana, como desligar o rádio despertador, mesmo que saiba que quase inevitavelmente vou acordar à mesma hora dos dias ditos de trabalho. Uma outra rotina é dar atenção ao correio que chegou, e que foi visto rapidamente na altura mas deixado no cesto (forma de expressão, porque é de madeira…) até ao sábado seguinte. Finalmente – é por ela que escrevo este post – a minha outra rotina é preparar, essencialmente ao domingo, a semana de trabalho que segue. E aí, claro, pára a rotina, porque nesta altura o meu trabalho é muito mais variado do que quando era só professor e apenas me preocupava com o plano de actividades para os meus alunos.

Mas neste fim-de-semana este trabalho foi bem diferente.

Como disse, comecei as aulas da unidade “Currículo e Cultura” e conheci, na sexta-feira, a quase totalidade dos meus alunos. Como sempre, gostei deste arranque. Não tenho mesmo memória de alguma vez ter começado um curso e não ter tido prazer em fazê-lo. É um grupo numeroso (35 alunos) mas vamos encarar estratégias que consigam ter sessões lectivas com actividade partilhada. A média de idades é 33 anos e meio, com um máximo de 48 e um mínimo de 23 anos. Quanto ao género, 25 senhoras e 10 homens. São praticamente todos profissionais, ligados à educação em uma diversidade de instituições escolares. São provenientes de meio país: desde Lisboa a Bragança, passando por Leiria, Coimbra, Viseu, Ovar, Porto e arredores. Juntam-se estes estudantes a uma pequena maioria do eixo Braga-Guimarães. Deste número de estudantes, também quase todos têm endereço de e-mail e acesso fácil à Internet. Isso era condição indispensável para sugerir a continuação do blog que começara há dois anos, que foi aceite (unanimemente). Dois estudantes têm o seu próprio blog.

Tem sido esse o meu trabalho de fim-de-semana, preparar as coisas para que para a semana arranque tudo como deve ser. Um trabalho agradável.

Parto para este curso com expectativas, como sempre, também. Gosto de ser professor, realizei-me nessa profissão, e embora tenha gosto em outro tipo de trabalhos e até os faça bem (perdoe-se-me a imodéstia) é com os estudantes que me sinto bem, ainda que por vezes estar três horas consecutivas no comando das operações já seja cansativo.

Mas começar o curso fez-me bem. Na altura própria, direi quando o nosso blog, “Currículo & Cultura”, vai arrancar. Para já, se quiser, pode visitá-lo aqui.
A terminar esta reflexão de fim-de-semana, apenas uma nota: as rotinas vão-se substituindo… Por exemplo, há anos era prática corrente almoçar fora aos domingos; hoje, só por excepção saio. Aproveita-se tão bem o tempo na calma de um domingo!

2005/09/23

Os meus últimos alunos


Daqui por umas horas vou dar início à minha última prestação como professor no activo (empreguemos uma expressão técnica…). Leccionarei uma disciplina do mestrado em Estudos da Criança que faz parte dos planos curriculares de duas especializações, Educação Musical e Comunicação Visual e Expressão Plástica. O nome dessa disciplina é “Currículo e Cultura”, e, se elas e eles aceitarem, vai ter o seu blog – continuação do que existia ou um novo. Não sei o que vou sentir, nem logo, ao começar, nem em Dezembro, quando me despedir. Mas tudo isto tem significado. Sobretudo, quando penso que fará em Outubro 46 anos que dei a minha primeira aula…

2005/09/22

A destreza das dúvidas

O blog do Luís foi dos primeiros que me suscitou uma curiosidade continuada e de certeza foi o primeiro no qual comentei. A partilha que o seu Autor fazia (e faz) da sua experiência de doutorando nos Estados Unidos aproximou-me, talvez por (com todas as diferenças) eu ter sido também um “exilado” nos States com o mesmo objectivo. Agora, que sei que o Luís terminou a tarefa, para além dos parabéns que já deixei no seu blog, quero igualmente assinalar, neste meu quase diário de memórias, a alegria que sinto pelo “novo” colega. Vou esperar pela descrição do seu doutoramento – que nos Estados Unidos é coisa séria mas desdramatizada em termos de encenação (o que não quer dizer que não haja, depois, esse momento de encenação), quando se entregam os diplomas.
Recordo o meu doutoramento: numa sala pequena, de seminário, com uma única assistente, uma colega brasileira que me pediu para ir, lá estava eu e o júri de cinco membros, à volta de uma mesa, todos em mangas de camisa, a discutir a tese, durante cerca de duas horas, num acto simples mas profundamente honesto. Para trás, ficavam três anos e meio de trabalho aturado, dois deles a construir a dissertação, sempre apoiado pelos meus dois orientadores, com tarefas marcadas, mas sem haver o mínimo sinal de imposição. Sempre que eu discordava, dizia-o claramente e, como se diz agora, “não havia crise”, teria de se chegar a um consenso. Devo dizer, porque é verdade, que tive colegas que se queixavam amargamente da maneira como eram orientados; não foi o meu caso.
Fiquei sempre preso a esse tempo, lamentando apenas que tivesse sido tão tarde. Nisso, o Luís (e como ele tantos outros) teve a sorte de viver noutros tempos. Que seja feliz na sua vida académica (e não só, claro)!