2005/09/15

O novo ano lectivo


Recomeço a ver, no meu caminho para a Universidade, crianças e adolescentes com os seus “backpacks” a caminho das escolas. No meu tempo usavam-se, felizmente, pastas – teria detestado andar com pesos às costas!

É isso, aí está o novo ano escolar. Com muitas coisas novas. Como vão ser elas postas em prática? Apesar do meu optimismo, tenho algumas dúvidas no êxito de algumas delas. Mexer na educação é necessário mas é sempre perigoso. Há um princípio que em todas as situações de mudanças educacionais deve ser respeitado: é necessário que os professores compreendam essa mudança e a aceitem. Eu sei que é um princípio que à partida não tem sentido porque nunca todos os professores estarão de acordo em relação às inovações. Ah! Mas existe um outro princípio, elementar, que explica que as mudanças levam tempo a surtir efeito. Não se muda de um dia para o outro; é preciso mudar lentamente, ter paciência, persistir, convencer. Em alguns aspectos, estou convencido que haverá sucesso; noutros será difícil. Como tem sido referido por muitos, há mais concordâncias que discordâncias em relação ao que tem sido proposto, mas há também consciência que em muitos casos as variáveis locais vão interferir no processo.

Por outro lado, serão todas as coisas novas coisas boas? Uma vez mais creio que são no plano das intenções; levantam-se-me algumas dúvidas no plano da realidade. Também aqui, esperar para ver.

2005/09/11

11 de Setembro

A memória do 11 de Setembro (não é preciso dizer o ano) é recente. Estava em Lisboa nesse dia (chegara ao fim da manhã) e depois do almoço a minha filha informou que na Internet vira que tinha havido um desastre com um avião em New York. Ainda não eram duas da tarde. Liguei a televisão e sintonizei a CNN. A tempo de ver, em directo, o impacto do segundo avião na torre ainda incólume. Depois, o desmoronar dos dois edifícios. As pessoas mergulhando no espaço para fugir a outra forma de morte. Horrível. Depois, foi toda a tarde a dividir a atenção entre a televisão e a rádio. Tínhamos combinado ir jantar fora – mas não havia vontade para tal.

Como toda a gente, fiquei chocado com a amplitude da tragédia e preocupado com as consequências. Disse-se na altura que nesse dia todos fomos “americanos”. Senti certamente mais do que outros pelo facto de ter vivido nos Estados Unidos e ter excelentes recordações desse grande país. Mas tinha (e com razão) muitas dúvidas sobre o que faria a administração Bush. Na altura, foi razoável; mas iria manifestar-se mais tarde completamente desajustada.

O “nine eleven”, como abreviadamente os norte-americanos o designam, teve consequências pessoais. Estava a contar passar o ano sabático de 2001-2002 nos Estados Unidos, mas as sequelas do ataque obrigaram a alterar planos. E em vez de passar seis meses, como planeara, apenas estive um mês e alguns dias.

Quatro anos depois, apenas recordo a emoção do próprio dia e não me apetece – literalmente – tecer comentários sobre o que sucedeu depois.

A dimensão das turmas


Num dos meus posts anteriores veio à discussão o problema da dimensão das turmas nas escolas (e, também, a sua constituição). Na minha vida de professor encontrei os mais variados exemplos. Quando comecei, no final dos anos 50, começo dos 60 do século passado, não era raro as turmas terem mais de 40 alunos. Também com mais de 40 alunos eram constituídas as turmas da Escola do Magistério de Viseu entre 1961 e 1963. Experimentei mais ou menos por essa altura ter uma turma de 6 (!) alunos em Lamego e 11 na Horta, mas eram turmas de História e Filosofia do último ano do curso complementar. Em liceus (perdoem-me a linguagem de “antigamente”, mas foi em liceus que ensinei, não em escolas secundárias…) nunca tive menos de 30 e tal alunos. No ensino superior, já nos anos 70, 80, cheguei a ter uma turma de 60 alunos, em cursos de complemento, mas em licenciaturas seriam sempre mais de 30. Em mestrados foram sempre menos: raramente as turmas ultrapassaram os 15 alunos. Também experimentei – mas nunca gostei! – a leccionação individual (vulgo “explicação”).

Há quem pense e defenda que a melhor educação é a educação individual – no fundo, a educação dos príncipes e das princesas, que com tutores e aias se preparavam para a vida. No limite, o melhor ensino seria mesmo assim: um professor para um aluno. Como isso se revelou impossível a escola surgiu como instituição necessária e desde tempos que provavelmente nunca serão datados ela tem funcionado com uma filosofia de educação partilhada, naturalmente em sociedade, porque essa é a maneira de o homem viver.

Não discuto, pois, o ensino em classe. Porém, reconheço que é necessário ter sempre em consideração o aluno-pessoa-com-características-únicas. O que complica muito a acção do professor, sobretudo se a classe (turma) for muito numerosa.

As turmas devem ser heterogéneas. Contrariamente a uma ideia expandida, não há benefício real em organizar turmas de acordo com características comuns. Há estudos que documentam casos de turmas heterogéneas – com alunos mais e menos dotados – nas quais ambos tiram partido dessa situação. Como é evidente, não quero desvalorizar as dificuldades em gerir classes com um número excessivo de alunos com necessidades especiais, sejam quais forem as razões (intelectuais, sensoriais, sociais – ou seja, comportamentais). Teoricamente, a inclusão total é uma ideia meritória; como passá-la à prática, não me parece, nem é, fácil. Seria aconselhável, por isso, que a constituição das turmas pesasse muito bem as situações divergentes existentes e agisse de acordo com o conselho de psicólogos experientes.

O problema da dimensão das turmas tem naturalmente sido objecto de investigações, que como muitas vezes acontece em educação não conduzem a resultados semelhantes. Nesse caso, há técnicas que procuram, a partir do conjunto de investigações produzidas, usando critérios estatísticos apropriados, encontrar uma tendência dominante. Considerando que os professores são qualificados e sabem usar as metodologias mais adequadas aos seus alunos, só existem diferenças relativamente significativas quanto aos resultados escolares se a dimensão da turma for inferior a 20 alunos. Em turmas de dimensão superior, até 30 ou mesmo mais, não existem diferenças nos resultados.

Temos no entanto de ter em atenção o que se disse: “considerando que os professores são qualificados e sabem usar as metodologias mais adequadas aos seus alunos”… Um mau professor terá naturalmente maus resultados mesmo com turmas de 15 alunos; um bom professor pode ter excelentes resultados com turmas muito maiores.

2005/09/09

O inglês no 1º ciclo


Aplaudi a iniciativa do Governo em funções mal a conheci, e ao aperceber-me que ela se vai concretizar com muito mais amplitude do que a esperada (ouvi referir que 75% dos alunos do 3º e 4º ano iriam participar do programa), fico muito satisfeito. Há muito tempo que preconizava medidas que dessem ao inglês um estatuto privilegiado nos currículos, em especial nos das primeiras idades. O inglês é o esperanto que não vingou. É a língua em que o mundo se entende. Por isso é preciso saber inglês.

Claro que não podemos esquecer que o português é falado por mais de duzentos milhões de pessoas espalhadas por todo o mundo. Orgulhamo-nos dos nossos poetas e escritores (mas é preciso traduzi-los para que sejam conhecidos). Temos de aceitar que mesmo com 200 milhões de falantes o português continua a ser uma língua minoritária. Por isso é importante que exista uma espécie de segunda língua que nunca se pensou institucionalizar, como por exemplo fizeram com êxito os países nórdicos. Suecos, Noruegueses, Finlandeses e Dinamarqueses falam na generalidade (não na totalidade) o inglês com fluência porque aprendem a sua língua e ao mesmo tempo o inglês, que tem sido chave para o sucesso.

Mesmo que possam existir alguns problemas no desenvolvimento do processo agora encetado entre nós, o seu arranque é promissor. Só lamento que se continue a dizer que o inglês é extra-curricular… sobretudo por provir do próprio Ministério da Educação, que tem obrigação de saber do que fala (ou escreve, ou diz). Mas face ao interesse da medida e ao seu aparente êxito, até perdoo o erro!

2005/09/08

Memória de férias (6 – Nota final)


Amanhã deixo o Vimeiro, rumo a Lisboa – e de algum modo, acabo as minhas férias. Pensei, há pouco, que estas são mesmo as minhas últimas férias como “trabalhador”… Para o ano, se cá estiver, o tempo de férias será necessariamente diferente. Até pode saber melhor. Mas será diferente.

É estranho anteciparmos o que não sabemos vai ser. Como é estranho compreendermos que aquilo que por vezes dizíamos sem pensar por vezes acontece… Quem nunca disse, meio brincar, quando está ainda na força da vida, “estou a ficar velho!”? Porque lhe custou a pegar numa mala mais pesada, porque se cansou a correr… Eu disse muitas vezes. Mas agora, que… (bom, não gosto de dizer que “sou velho”, mas em termos clássicos é isso mesmo), já não uso essa expressão, porque ela corresponde à verdade. Não digo, mas penso. Porquê?

Vou começar o último ano lectivo da minha vida como professor. É a lei que manda: permitirá que um octogenário seja candidato a Presidente da República (como tudo indica vai acontecer*), mas impede que um septuagenário dê aulas na Universidade… Curiosamente, não me sinto velho para tal e seria muito estimulante viver a mudança que se adivinha com Bolonha. Vou preparar a minha unidade curricular (agora é assim que se deve dizer) “Currículo e Cultura” para o mestrado em Estudos da Criança, especialidades em Educação Musical e Comunicação Visual e Expressão Plástica. Tal como nos anos passados vamos certamente ter um blog. Veremos como reagem os alunos ao meu desafio… Vou já formatar a unidade nos termos definidos para os novos cursos, prevendo horas de trabalho para diferentes tarefas de modo a que os créditos reflictam esse mesmo trabalho. E tenho a certeza que nessa altura não pensarei, sequer, que vou ser obrigado a deixar de fazer o que sempre gostei (e penso que sei fazer razoavelmente).

E este é o último post de “Memória de férias”.

* Quando foi escrito este post não havia ainda a certeza que Mário Soares seria candidato.

2005.08.28