Nos meus anos dos Estados Unidos habituei-me a respeitar muito a “mother nature”, uma das expressões mais ouvidas na boca dos metereologistas que têm, nas estações de televisão, um papel fundamental (mesmo as estações locais têm o seu laboratório de metereologia assegurando informações essenciais, isto para não falar do Weather Channel, que transmite 24 horas por dia). Na verdade, quem vive em alguns Estados dos EUA têm de ter muita atenção ao tempo. Tufões, tornados, cheias enormes, trovoadas violentíssimas – tudo isso é previsto e divulgado, com conselhos a quem mora nas localidades que vão ser atingidas. Com excepção de tufões, onde vivi experimentei de tudo. O rigor que nessa altura existia (e acredito que hoje seja bem maior) era quase milimétrico: raras vezes falhava. Se o Denny Frary (o “meu” metereologista da KCRG TV9 de Cedar Rapids) me dizia que uma “severe thunderstorm” ia desabar em Iowa City às 9 horas, era mesmo às 9 horas que ela chegava…
Por isso, o que sucedeu em New Orleans não pode nem deve ser atribuído apenas à mãe natureza. Sabia-se que o Katrina era violentíssimo e sabia-se a sua rota (pequenos desvios seriam irrelevantes). Por isso foi dada ordem de evacuação da cidade. Por isso milhares de pessoas saíram e salvaram-se.
Contudo, parece que se sabia, também, que os diques que protegiam a cidade tinham fragilidades e por isso se planeava a sua recuperação. Também se sabia (sem nenhuma dúvida) que New Orleans tinha muitos residentes que, sem ajuda, nunca poderiam por si sair da cidade, porque eram pobres e não tinham automóvel. Ao nada fazer para ajudar na evacuação quem não podia fazê-lo, ao eventualmente subestimar a violência do tufão (mas como, se o seu nível era já de destruição), os homens – e não a mãe natureza – têm de ser culpados.
Há três anos, estive em New Orleans alguns dias e encontrei na cidade velha (o “French Quarter”) dos ambientes mais interessantes dos Estados Unidos, uma mistura da Europa e da América a que os músicos de rua, herdeiros de Louis Amstrong, davam um toque especial. As notícias que chegam dão a ideia de que será possível recuperar essas ruas cheias de casas baixas com varandas e flores. Pelo menos que isso aconteça.
Apenas um último pensamento: se isto foi possível no país mais desenvolvido do planeta, como criticar o que de semelhante acontece em países menos desenvolvidos?

