2005/08/08

Morreu Peter Jennings


Durante praticamente três anos e meio Peter Jennings foi quem me anunciou as grandes notícias que iam acontecendo no mundo (e em particular nos Estados Unidos da América). “Anchor” – ou seja, o principal apresentador das notícias das cinco e meia na ABC – apreciei sempre nele a sobriedade e a seriedade do seu trabalho. Creio que uma certa fidelização que minha Mulher e eu mantivemos em relação à ABC a ele se deveu. Se noutros aspectos procurávamos outras estações emissoras, a informação era sempre lá que a procurávamos. E por arrastamento, foi também a cadeia local de televisão da ABC, a KCRG TV9 de Cedar Rapids, aquela que preferimos durante a nossa estadia em Iowa.
Sabia que Peter Jennings informara há meses os seus espectadores que lhe tinha sido diagnosticado cancro num pulmão. Há pouco, ao sintonizar a CNN, foi dada a notícia que me leva a guardar nesta "Memória" a memória de um grande profissional da informação. Para quem queira saber mais da carreira de Peter Jennings, pode fazê-lo em http://abcnews.go.com/ (por qualquer razão, não consegui o link).

2005/08/06

Naturalmente, Hiroshima


Foi há sessenta anos que a Humanidade percebeu que se encontrara um meio de destruição poderoso e terrível. A guerra na Europa acabara – mas as hostilidades continuavam no Oriente, e o Japão, que infligira uma humilhação aos norte-americanos em Pearl-Harbor em 1941, era agora o alvo a abater. A decisão de usar a bomba atómica, que desde o começo da guerra estava a ser construída, tomada pelo Presidente Truman, foi criticada mesmo por altas personalidades norte-americanas, como o General Eisenhower; por um lado, porque se acreditava que os japoneses iriam ser vencidos sem o recurso à bomba, e por outro porque o seu uso punha em causa um dos princípios que toda a guerra pretende salvaguardar – não causar danos a populações civis. É bem verdade que tal princípio não fora respeitado em todo o conflito, mas o massacre do dia 6 de Agosto de 1945 (mais de 140 000 pessoas mortas na cidade de Hiroshima) excedeu tudo o que até então se fizera.

Não tenho memória de quando e como soube do lançamento da primeira bomba atómica. É curioso, porque me recordo de outros momentos da Grande Guerra de 1939-1945.

Para o futuro ficou o medo das armas atómicas – a sua proliferação por diversos países tornou a bomba atómica um elemento de receio que de algum modo favoreceu a contenção (lembram-se da “guerra fria”?). Mas as guerras continuaram, e continuam. Não me apetece, neste momento, escrever sobre isso. Só quis lembrar a efeméride.

(A propósito! Sabem que faz hoje 115 anos que, nos Estados Unidos, se procedeu à primeira execução através da cadeira eléctrica?)

2005/08/05

A comunicação social que temos


Desde há muito tempo que, com raras excepções, tenho uma desconfiança enorme acerca da comunicação social. Informar com isenção não é fácil, sobretudo quando se escreve para uma sociedade que ainda está longe de ter compreendido o sentido pleno do que é a democracia. Informar tendo respeito pelos outros seria mais fácil mas não é: ainda agora comentei isso num post da Saltapocinhas acerca das entrevistas caricatas a quem é vítima dos fogos. Informar sem envenenar seria excelente. Mas não é. Um exemplo de uma revista que, apesar de tudo, leio aos fins-de-semana: a Sábado de hoje. Uma local sobre a aposentação do Provedor de Justiça, Nascimento Rodrigues (ver aqui a sua biografia) é titulada “Uma boa reforma”.

Nascimento Rodrigues vai receber de aposentação cerca de 4,500.00 €, o que é considerado uma “reforma dourada”…

Fico perplexo. Nascimento Rodrigues trabalhou toda a vida na função pública. Foi técnico superior, deputado, Ministro, exerceu numerosos cargos importantes – incluindo o último, o de Provedor de Justiça. O que recebe como pensão de aposentação, tendo 65 anos, é pouco mais ou menos o que recebem muitos juízes, professores catedráticos, e funcionários de algumas carreiras da saúde. Reforma dourada porquê? Que chamem reforma dourada a quem receba um bónus por trabalhar meia dúzia de anos num serviço, certo! Mas a quem acaba uma carreira e ostenta um currículo como ele?

Devo prevenir que não tenho relações pessoais com Nascimento Rodrigues. Mas irritou-me o veneno.

Marilyn Monroe


Passam hoje 43 anos sobre a morte de Marilyn Monroe. Não sendo um seu admirador (e na altura dava muito mais espaço ao cinema na minha vida do que dou hoje, mesmo incluindo o cinema que me chega pela televisão) a morte de Marilyn, pelas circunstâncias dramáticas em que ocorreu, não me passou desapercebida. No entanto, e como parece óbvio, não me recordaria da data se não fosse para ela lembrado pela comunicação social. Tendo-o sido, a minha memória reconstituiu parte dos meus pensamentos perante a notícia, muito centrados no problema do consumo de estupefacientes, imaginando-os um mal que afectava sobretudo a classes socialmente mais expostas. Mal podia imaginar o que o futuro nos iria reservar em relação aos malefícios das drogas!

Nota: A prometida análise do documento Os números chave da Educação na Europa – 2005 vai demorar um pouco. Há dados interessantíssimos mas é preciso cuidado na análise. E sempre são 392 páginas!

2005/08/03

Recuperar partes do passado


Primeira página do dossier...

Aproveito os primeiros dias de férias – entenda-se, dias em que me dispensei de ir regularmente à Universidade, quase certo que nenhum assunto urgente caia na minha secretária – e resolvo dar uma volta aos meus “papéis”, que persistem em amontoar-se. Vou um pouco mais longe do que arrumar papéis, diga-se: há zonas de estantes e armários, caixas que não toco há muito. O que terei eu guardado nesta? Que desleixo não ter um letreiro…

E dela salta um dossier (perdão: dossié é palavra que nunca escreverei!) do tamanho de um caderno diário dos meus tempos de aluno, formato 22x15, capa de cartão hidráulico castanha. Reconheço-o imediatamente. Sei o que contém. Viajo até aos meus 17 anos. Estou em férias, entre o meu 6º e 7º ano do Liceu (actuais 10º-11º). Uma colega, mesmo ao findar do ano lectivo, emprestara-me um livro “mais ou menos proibido”, Príncipes Élementaires de Philosophie, de Georges Politzer. Quando comecei a lê-lo achei-o de uma grande clareza, e decidi… traduzi-lo! E se bem o pensei, melhor o fiz. Como era hábito, devo ter tido férias em Agosto, indo com os meus pais e irmãos ou para Runa ou para Sesimbra (aqui, a memória falha…), mas em Setembro (que ao tempo era um mês inteirinho de férias para os estudantes) estava em Lisboa. E entre os dias 2 e 19 (é o que consta no dossier, ver acima) traduzi, escrevendo em folhas soltas de caderno diário, todo o livro. Lembro-me que grande parte do trabalho foi feito no Café Monte Carlo, ao Saldanha – já não existe – para onde ia depois do almoço, e onde me deixavam estar quase toda a tarde a escrever a troco da “bica” que tomava. Pergunto-me hoje se terei alguma vez tido consciência que poderia ter eventualmente corrido algum perigo se olhar indiscreto percebesse o que eu estava a fazer, uma vez que em 1953 traduzir um autor comunista não seria o mais aconselhável. Creio que não tive essa consciência.
Ao folhear as 312 páginas escritas quando eu tinha 17 anos, não posso deixar de ter um sentimento estranho de recuperar um tempo de juventude que foi determinante para a minha formação pessoal.

A minha tradução andou depois por várias mãos, e contém algumas anotações de colegas que a leram. Depois… tem repousado, a constituir-se quase como uma relíquia (perdoe-se-me o exagero) do meu passado. Deve por isso constar da minha Memória.

Nota: Por curiosidade, fui ver à Net. O livro de Politzer existe para download aqui.