2005/08/02

A avaliação das Universidades


Em dias próximos, houve notícias de estudos centrados na avaliação das Universidades, e, naturalmente, de reacções a esses estudos. Digo naturalmente porque a minha experiência em avaliações diz-me que esse é um dos processos mais complicados de gerir, seja qual for o seu âmbito. Isto em especial se a partir das avaliações se tentarem estabelecer “rankings”.

Hoje, queria apenas deixar uma nota muito breve.

Não se pode dizer, generalizando, que as Universidades receiem ou não queiram ser avaliadas. Penso que, pelo contrário, tem existido a diversos níveis, interno e externo, abertura para a avaliação. Contudo, essa abertura não pode deixar de exigir, como contrapartida, clareza no estabelecimento de indicadores e da lisura de processos de análise. Não basta dizer que “os trabalhos que efectuam comparações de eficiência entre grandes instituições … deve(m) ser lido(s) com algum cuidado” (local de António Granado no Público de ontem, sob o título “Investigadores medem eficiência das Universidades portuguesas”. A verdade é que não há comparação possível de instituições organizacionalmente diferentes, em especial se se usarem apenas dados numéricos. A divulgação desses resultados pode ter (para não dizer claramente que tem) o efeito de para a maior parte dos leitores se tomar como decisiva a informação dada. O que não se afigura justo, quando qualquer avaliação deve ter como meta a objectividade, factor que deve minorar as injustiças…

2005/08/01

A Emissora Nacional


Faz hoje 70 anos nasceu, oficialmente (porque desde há alguns anos se faziam emissões experimentais), a Emissora Nacional de Radiodifusão, que em 1975 passou a RDP (Rádio Difusão Portuguesa), a estação pública de rádio. Nasceu, como era natural na época, sob o signo da política do regime personificado em Salazar, e como resposta a rádios privadas que entretanto já emitiam regularmente – como a Rádio Sonora ou o Rádio Clube Português, no Sul, ou a Sonora Rádio no Porto. A EN é apenas um pouco mais velha do que eu…

Como só em 1957 nasceu a televisão, a minha infância e juventude foi muito marcada pela rádio, como aliás já disse em posts anteriores. Ainda recordo com nitidez as vozes de alguns locutores: Pedro Moutinho, Maria Leonor, Igrejas Caeiro, Alberto Reprezas, Olavo d’Eça Leal… (e do Rádio Clube, como esquecer a Mary – uma voz de oiro num corpo enorme!) Também me lembro dos relatos de desafios de futebol com o Quádrios Raposo (normalmente, o resumo da primeira parte e o relato da segunda…), dos Serões para Trabalhadores aos sábados, e de esperar a hora do almoço de domingo para ouvir o Domingo Sonoro, a revista semanal de actualidades que terminava com os diálogos – do Eça, da Lélé e do Zequinha…

A Emissora Nacional, enquanto “serviço público”, não foi melhor nem pior do que outras instituições no que se referia à reverência pelo regime. Teve como tutor António Ferro – o homem da propaganda – e, imagine-se, um dos seus primeiros directores foi Henrique Galvão, que mais tarde haveria de romper com Salazar e ser rosto da oposição e autor do assalto ao “Santa Maria”, em 1961.

Hoje, transformada em RDP, com as suas várias Antenas, perdeu audiência para outras rádios privadas – a Renascença, a TSF. Mas de qualquer modo merece parabéns; e a minha memória flutuou até ao começo dos anos quarenta, quando comecei a ouvir regulamente rádio e – preferencialmente – a Emissora Nacional…

2005/07/31

Os números chave da Educação na Europa – 2005


A rede de informação sobre a educação na União Europeia, Eurydice, criada em 1980, tem como missão disponibilizar dados acerca das políticas educativas dos diferentes Estados das União, bem como dos relativos à sua estrutura e organização, constituindo por isso uma base de dados importante (a Eurybase) que está sempre disponível na Internet. Em cada país existe uma unidade Eurydice (em Portugal sediada no GIASE (ver aqui).

Foi recentemente divulgado, e já está disponível na Net nas versões francesa e inglesa, o documento Os números chave da Educação na Europa – 2005, um documento extenso, de 392 páginas, do qual pode fazer o download aqui.

Tive conhecimento pelos jornais da saída do documento e vou aproveitar o tempo de férias para o ver com atenção. Por isso não vou comentar já o que a imprensa divulgou – prefiro ir à fonte.
Um bom domingo!

2005/07/29

O IRA e eu…


Será que a Irlanda do Norte vai conhecer uma paz duradoura? A notícia que ontem foi amplamente divulgada e comentada (a CNN deu-lhe um enorme relevo) fez com que a minha memória recuasse mais de 30 anos, quando tive o meu primeiro – e brutal – contacto com o terrorismo tal como o IRA o praticava.

Nos começos de 1973 fui designado pelo então ministro Veiga Simão como coordenador de um grupo de professores que devia participar numa conferência organizada pela OCDE, intitulada “School-based curriculum development”. De passagem, devo dizer que essa conferência teve grande importância na minha decisão de me tornar um estudioso do currículo, o que marcou a minha vida profissional. Ora essa conferência deveria realizar-se na Universidade do Ulster, em Coleraine, na Irlanda do Norte, que vivia nessa altura uma fase intensa de actividade do IRA, em especial em Londonderry, alvo frequente de atentados.

A marcação da conferência para o país foi interpretada como um sinal de confiança e de esperança em melhores dias.

Depois de duas reuniões preparatórias em Paris, constituiu-se um grupo de 6 professores que tomou parte na Conferência, uma das mais longas em que participei, pois durou quinze dias, no mês de Julho. Éramos mais de 200 representantes de muitos países, e a maior parte ficou alojada numa localidade bem ao Norte da Ilha, numa estância balnear chamada Portrush, (se tiver curiosidade, veja aqui) que fica relativamente perto do campus da Universidade.
Quando em Londres embarquei para Belfast, comecei a perceber o que era lidar com o terrorismo. Para além de um interrogatório minucioso para saber o que é que eu ia fazer a Belfast (aeroporto de chegada) a minha pasta foi criteriosamente escrutinada, a ponto de me terem aberto a bolsa do cachimbo (nessa altura fumava cachimbo) e um estojo de canetas… Mas isso não foi nada. Quando o avião aterrou em Belfast, surgiram de repente dois grupos de soldados, com as espingardas em guarda, que formaram duas filas no local onde ia descer a escada do avião (ainda não havia mangas em Belfast). Digo-vos que não foi uma recepção nada agradável… Para Portrush fomos de automóvel, e começou então uma paisagem que breve se tornou familiar: nas localidades, para impedir o estacionamento, havia nas bermas das ruas contentores metálicos; nas estradas, eram frequentes as barreiras para interpelar quem passava, tendo nós, inclusivamente, de mostrar os passaportes.

Na primeira sessão da Conferência, no auditório grande da Universidade, mesmo antes das boas vindas foi feito um anúncio que mais uma vez nos proporcionou alguns calafrios: se soasse o alarme, deveríamos todos deitar-nos no chão e proteger a cabeça…

Ao longo dos dias, talvez nos começássemos a habituar aos contentores, às inspecções frequentes, até porque em Portrush não houvera ainda atentados. Mas até ao fim houve dois momentos que conservo bem na memória. O primeiro: depois do primeiro fim-de-semana, um dos irlandeses presentes na conferência, regressado de Belfast, onde vivia, contava, quase sem sinais de emoção, que a sua secretária tinha siso morta no domingo apanhada numa explosão de um carrão armadilha (apesar dos contentores, ainda aconteciam casos destes). O segundo foi bem mais emocionante, e partilhei-o com alguém que não vejo (ao vivo) há muito tempo, que é hoje uma figura muito conhecida, em especial no seu Porto, o Hélder Pacheco. Estava integrado no grupo que foi a Coleraine, onde aliás teve uma brilhante intervenção mostrando o que estava a fazer com os seus alunos em termos de Educação Visual. Um dia, em conversa com um irlandês (cujo nome não recordo) que era director (“principal”) de uma escola secundária em Londonderry (não no centro da cidade, mas nos arredores), ele desafiou-nos: “Querem ver o que é a nossa vida? Venham comigo este fim de tarde que eu mostro-vos o que é viver com o terrorismo”. E fomos! Se a memória não me atraiçoa, foi também uma colega de um outro país, mas não sei precisar (pode ser que tenha escrito, devo tê-lo, mas os meus arquivos estão longe de estar bem organizados neste momento). Eu creio que agimos com bastante insensatez, como vão ver. De Portrush a Londonderry não se demorará mais de uma hora e meia, duas horas. Chegámos a casa do colega irlandês a tempo de um jantar leve, e depois partimos em direcção á cidade. A escola (e a casa) ficavam no alto, de onde se via a cidade, e ao longe nada faria prever o que se passava lá em baixo. Antes de chegar perto do centro, fomos mandados parar por soldados armados, mostrámos passaportes, a mala do carro foi vistoriada. A uma dada altura, não se podia ir mais além: ele estacionou o carro e convidou-nos s ir a pé. Não se via ninguém nas ruas. Seriam umas 21 horas, mas em Julho anoitece muito tarde naquela latitude. E de repente, numa esquina, ficamos na rua central da cidade. Era um espectáculo confrangedor. De um dos lados da rua os prédios – de três ou quatro andares – estavam completamente esventrados, só tinham as fachadas. Mas o mais assustador foi quando verificámos que um pequeno grupo de soldados, cosidos com as paredes, espingardas aperradas, avançavam em pequenas corridas. O nosso anfitrião explicava, calmamente, que deveria ter sido alguma denúncia de que haveria terroristas escondidos…Confesso que não me senti muito bem, e devo ter-me perguntado por que teria aceite o convite… Ainda demos mais umas voltas, e felizmente, nada aconteceu. Quando reentrei no carro senti um verdadeiro alívio…Recordo que no regresso (chegámos a Portrush bastante tarde, claro) a pequena comunidade lusa nos aguardava com alguma preocupação…

Nunca mais esqueci esse dia. E percebi, conjugando-o com o episódio da morte da secretária do colega nesse fim-de-semana, que os irlandeses se tinham, não direi acomodados, mas tornado relativamente insensíveis ao horror em que eram obrigados a viver. E essa ideia mais vincada ficou quando, no fim da conferência, houve uma festa onde os animadores foram capazes de fazer humor com a situação, para mim trágica, em que viviam.

E eu próprio, ao fim de quinze dias, sentia-me menos preocupado do que no princípio. O que não impediu que chegasse a Londres e me sentisse muito melhor.

Passaram 33 anos sobre estes factos e o IRA desiste da luta armada. Na história conturbada da Irlanda do Norte desde o princípio do século XX, será o 28 de Julho de 2005 uma data memorável?

2005/07/28

Nem de propósito…


Entre as muitas publicações na área da educação que existem nos Estados Unidos, a Educational Leadership, não sendo uma revista de referência é prestigiada e contém sempre alguns artigos de interesse. Ao consultar a sua edição on-line do Verão de 2005 – actualíssima, portanto – verifico que contém um artigo, intitulado “From F to A in 180 days” (que pode ler aqui) no qual se conta o que aconteceu numa escola elementar (até ao 5º ano) do Estado da Florida. Nesse Estado os distritos escolares classificam as escolas de acordo com os resultados dos testes estaduais, usando a mesma escala dos alunos, de A a F – A é o óptimo e F o “fail”, ou seja, a reprovação. Ora essa escola foi a primeira em, 2002, ter um F – por causa dos seus péssimos resultados. No ano seguinte, porém, foi classificada com um A!

Este caso de sucesso foi estudado por um grupo de quatro investigadoras (todas da Universidade da Florida) associadas com os professores da escola, usando a técnica da “survey” e entrevistas seleccionadas. Entre os factores identificados que terão contribuído para o êxito as autoras incluíram a individualização do ensino suportado especialmente por tutorias com grupos reduzidos, a atitude positiva dos professores, que trabalharam sem descanso, uma grande variedade de métodos de instrução. Mas também foi reconhecido o papel dos fortes laços da escola com a Universidade, que dispensou a consultoria essencial para o arranque das actividades. Este ambiente contagiou as crianças e deu-lhes motivação.

Interessante anotar que no artigo se diz claramente que os professores não caíram na tentação de “ensinar para o teste”, mas consideraram o currículo globalmente e com isso deram aos seus alunos oportunidades de aprendizagem muito válidas.

Não é o primeiro estudo do qual tenho conhecimento com resultados aproximados. Mas este é recente e a seu respeito pode haver alguma reflexão útil.