2005/07/28

Melhorar as escolas


Quem não deseja que a escola melhore? E em todos os aspectos: instalações cuidadas, amplos recursos, professores competentes, alunos mais motivados e por isso aprendendo a “ser”, retomando a feliz expressão que correu mundo em 1972, na sequência da apresentação do Relatório da UNESCO Apprendre à être (infelizmente, muitos capítulos não estão disponíveis).

Recentemente, houve notícias de um estudo em que esteve envolvido Valadares Tavares (p. ex., no Público de sábado passado, sem link possível), que referenciará várias escolas no país nas quais terá havido grande melhoria nos resultados na disciplina de Matemática de um ano para o outro. Sem saber mais do que a notícia, que no entanto reproduz afirmações de responsáveis e avança com uma série de razões para essa feliz inversão, direi que não me surpreende o facto, porque muitas vezes basta uma simples alteração num aspecto da vida da escola para isso fazer toda a diferença. Para os que querem provas irrefutáveis, fruto de investigações tão cuidadas que não sejam criticáveis (coisa na prática impossível, nos domínios da educação, para já…) haverá sempre lugar para contraditar as conclusões do estudo. Não o farei. Penso que é importante que se tenha conhecimento do que acontece mesmo sem ter muita segurança sobre o ”por que” acontece, dadas as muitas variáveis em jogo. Por isso dou grande mérito aos estudos qualitativos que têm servido de base a muitas dissertações de mestrados em educação, na medida em que, se respeitarem as metodologias adequadas, fornecem, não respostas definitivas, mas pistas importantes para mais tarde poderem ser integradas em investigações processualmente mais fundamentadas.

A prática revela por vezes pequenos pormenores que uma teoria não considera e que são factores chave para compreender a mudança. Esses pormenores podem provir do ou dos professores, dos métodos de ensino-aprendizagem usados, do estilo de gestão posto em prática na escola, e também, claro, dos alunos. Compreendê-los é importante; divulgá-los também.

2005/07/27

As “explicações”


Ouvi na TSF e ainda não conferi a notícia que os jornais deram – o Ministério da Educação, pretendendo moralizar, quer impedir que os professores dêem “explicações” aos próprios alunos. Bom: num primeiro momento fiquei admirado. Eu pensava que era saudável que um professor explicasse aos próprios alunos o que eventualmente eles, depois de estudar, não conseguissem compreender. Não é esse um dos papéis do professor? Depois, percebi: o Ministério estava a referir-se às “explicações” (com aspas), aquele tipo de trabalho a que muitos professores se dedicam nas horas… vagas, recebendo em sua casa grupos de alunos aos quais dedicam uma atenção especializada na sua disciplina (normalmente, disciplina “forte” como a Matemática ou a Física) cobrando honorários que, penso (mas não posso ser definitivo), não costumam ser sujeitos a qualquer imposto.

Estas “explicações” são um hábito muito antigo no país. Quando iniciei a minha vida profissional, há muitos anos, dei-me conta que muitos pais, quando iam matricular os filhos no Liceu, passavam logo por um explicador para marcar vez, mesmo que os filhos fossem bons alunos. O que não era tanto hábito – e confesso que não sei se ele hoje é mais generalizado, mas a decisão ministerial sugere-o – era serem os próprios professores os explicadores.

Eu nunca gostei de ser “explicador”, mas também fui. Ainda antes de me licenciar ajudei um colega amigo que ficara para trás a estudar História e Filosofia para fazer o exame (dizia-se nessa altura do 7º ano, mas correspondia ao actual 11º). Depois, muito episodicamente, voltei a “explicar”, nomeadamente quando fiz o estágio, a um excelente aluno que tinha uns desencontros com o professor de Filosofia e queria mais segurança, e a um menos bom, ainda que simpático, que andava ele próprio desencontrado consigo próprio… Recordo-me que nessa altura o valor de uma hora de trabalho andava pelos 40$00 (ainda se lembram do $?!) ou seja, qualquer coisa como 20 cêntimos (€ .20). E, claro, também não paguei qualquer imposto!

Depois disso, nunca mais dei “explicações”, mas penso que expliquei bastante aos meus alunos quando tinham dificuldades. Por vezes com sucesso, outras sem sucesso…

Ora bem. São condenáveis, as “explicações”? Não serão condenáveis, mas descontadas as excepções, constituem um absurdo razoável, resultante da maneira como a escola assume o seu papel (escola, como um todo: professores incluídos). Em princípio, a escola deve providenciar para que os seus alunos aprendam no enquadramento que ela lhe fornece, dispensando apoios exteriores sistemáticos. É o professor que escolhe a estratégia de ensino-aprendizagem que utiliza: nessa estratégia devem estar incluídos os passos para ajudar aqueles alunos mais lentos, com maiores dificuldades. Porque esses precisam mesmo de explicações, mas explicações sem aspas, dadas no momento certo pelo professor certo; as “explicações” (com aspas) até podem colidir com a estratégia seguida e fazer mais mal do que bem. Ah! Mas se for o próprio professor, então tudo faz algum sentido…

Falta dizer que as explicações não são hoje dadas a 20 cêntimos a hora, que muitos pais não as podem pagar; falta dizer que apesar das explicações continuam a registar-se altas taxas de reprovação. O que sugere que os males que afectam a educação são muitos e há muito que fazer para alterar o que está mal. O que começo a duvidar é que os que deviam ser os mais interessados queiram mudar.

Fico por aqui…

2005/07/26

Os "autos-de-fé" de 1974

A reportagem do Público do passado domingo (já se conhecem as restrições de acesso) intitulada «Ministério da Educação mandou destruir livros de “índole fascista” em 1974» despertou logo a minha atenção. Quando se deu o 25 de Abril era Chefe da Divisão de Programas e Métodos da Direcção-Geral do Ensino Secundário e aí me conservei, sem ser “saneado” como muitos temiam na altura, mas, a partir de um certo momento, fortemente condicionado na minha acção, por motivos que neste momento me abstenho de comentar.

Os tempos sequentes ao 25 de Abril não foram fáceis. Se houve sector no qual o desequilíbrio mais se fez notar foi nas escolas e por extensão no próprio Ministério. Toda a autoridade foi posta em causa, e mesmo entre os que genuinamente se sentiam felizes pelo fim de um regime que não deixava saudades havia um sentimento de insegurança que evidentemente minava essa autoridade. A substituição do Director-Geral, ao tempo o Dr. Tavares Emídio, ocorrida pouco tempo depois, tida como inevitável mau grado não se lhe poder apontar, bem pelo contrário, simpatia pelo regime, não alterou significativamente o estado de espírito de quem lá trabalhava, porque o empossado, o Dr. Alfredo Betâmio de Almeida, uma excelente pessoa e com qualidade humanas ímpares, não era a indicada para um lugar que começava a parecer-se mais com um ninho de víboras do que com um redil de cordeiros.

Mantive, entretanto, o pelouro dos estágios pedagógicos, tendo de assistir, sem interferir, na destruição do que estava a ser feito, à abolição dos exames de estado, tudo porque era necessário limpar os laivos de fascismo que existiam no sistema…

Quando tomou posse o segundo governo provisório, em Julho de 1974, julgo que a maioria pensou que Vitorino Magalhães Godinho seria a pessoa certa para Ministro da Educação, e a chamada de Rui Grácio para Secretário de Estado da Orientação Pedagógica representou também muita esperança.

Anteriormente, estivera com Rui Grácio uma ou duas vezes; mas enquanto esteve no Ministério, tivemos bastantes contactos e sustentámos relações de amizade, relativamente distante mas segura.

Nunca tive conhecimento do despacho dado à estampa pelo Público. Foi um despacho interno, para as direcções-gerais, e na minha não houve dele publicidade. Devo dizer, todavia, que não me surpreende totalmente: Rui Grácio era um homem inteligente, de grande lucidez, mas mostrou sempre grande pertinácia em desmontar tudo o que restava do regime anterior, e os livros de exaltação do regime salazarista deveriam parecer-lhe testemunhos perigosos. É evidente que se acha hoje excessivo o auto-de-fé – mas o que não foi excessivo na época?

A História constrói-se com factos – e o despacho de 19 de Outubro de 1974, agora ressuscitado, é um facto. Mas não o descontextualizemos: tínhamos saído há poucos dias do episódio da “maioria silenciosa”, Costa Gomes substituíra Spínola, e de uma maneira geral o país continuava a viver com grande instabilidade. Por outro lado, Rui Grácio nunca dissimulou uma posição política acentuadamente de esquerda; embora ligado ao PS, afastou-se cedo do Partido, crítico dos primeiros governos constitucionais; e uma leitura atenta do seu livro Educação e Processo Democrático em Portugal, de 1981 (edição Livros Horizonte), mostra como foi um dos que consideraram o 25 de Novembro como uma derrota da Revolução.

De qualquer modo, Rui Grácio merece ser recordado como uma notável figura da educação do século XX e não será este facto, agora desenterrado, que lhe roubará o lugar que já tem na história.

Esta nota é escrita sem ter tempo de recorrer ao meu “arquivo”, mas tenho a certeza que dele não consta o tal despacho…

2005/07/25

Vem aí Agosto…


É em Agosto que muitas vezes têm sido publicados muitos diplomas importantes para a educação, e tudo indica que neste ano o mesmo vai acontecer. Não é certamente o mês em que se espere que a maior parte dos interessados esteja muito atenta ao que sai em Diário da República. Agosto é ainda o grande mês de férias para os professores e para as escolas: desde que Setembro passou a ser o mês de abertura de aulas que a alternativa que ele representava deixou de o ser.

Não falando nas alterações à lei de Bases e à decisão – que considero de importância capital – sobre os esquemas do 1º e 2º ciclos do ensino superior, há situações que carecem de ser explicadas, como por exemplo as dos estágios para os alunos dos cursos de formação de professores, os quais, para além de saberem que vão deixar de ter turmas a seu cargo e deixam por isso de receber uma remuneração, nada mais sabem, embora possam supor. O mesmo se passa ao nível das instituições de ensino superior, que têm uma programação que sabem não podem desenvolver e aguardam que algo seja dito. Como os estágios eram regulados por uma portaria, tem de ser publicada uma nova portaria – muito provavelmente em Agosto… Ainda no ano passado, a então senhora Ministra resolve anunciar os célebres cursos de requalificação de licenciados no último dia do mês de Agosto, obrigando as Universidades a terem de decidir em cinco dias sobre um plano feito sobre o joelho, fazendo dos primeiros dias de Setembro um ciclo mais ou menos infernal. Aguardemos…

Tenho em carteira muitas notas sobre assuntos que têm sido objecto de notícias na imprensa, que tentarei, numa semana que penso seja menos exigente em termos de trabalho, partilhar com os meus leitores.

2005/07/21

Eficiência? Qualidade?


Lido muito mal com as esperas e fujo delas sempre que posso. Sou impaciente, é um dos meus defeitos, em relação a coisas miudinhas como essas; pelo contrário, sou capaz de ser paciente em relação a muitas outras coisas. Hoje de manhã, fervi.

Deixaram-me anteontem um aviso para levantar uma carta registada por não estar ninguém em casa à hora da passagem do carteiro. A estação dos correios da minha área, em Braga, é Maximinos – um espaço amplo, que com o novo “look” dos CTT se começa a parecer com uma livraria, dotada de oito balcões, com o novo e saudável melhoramento que é o haver controlo de chegadas por meio de senhas. Cheguei à estação seriam 8 e 25 (abre às 8 e 30) e já estava uma pequena multidão. Quando a porta abriu, um minuto depois da hora (mas enfim…) entraram antes de mim 19 pessoas – tive a senha 20.

Atrás de mim já haveria pelo menos outras tantas, de modo que o espaço, apesar de amplo, ficou bem preenchido.

Dentro de pouco tempo, deu para entender que iam ficar apenas activos três balcões: dois para o atendimento geral e um outro para fins mais específicos. Às 8 e 35 foi chamada a senha 1.

Apreciei, inicialmente com bonomia, e a pouco e pouco com irritação, o que se passava. A maior parte dos clientes (consideremo-nos clientes) tinha o mesmo problema que eu: queriam qualquer coisa que o carteiro não pudera entregar em casa. Na posse do aviso, o ou a empregada (eram dos dois géneros) levantava-se e ia procurar o objecto a que se referia o aviso. Por vezes ficava à vista de toda a gente, vasculhando em caixas cheias de sobrescritos; mas noutras desaparecia, durante largos minutos, vindo depois com um embrulho maior, ou de mãos a abanar para voltar a vasculhar nas caixas… E, num caso, não trouxe mesmo nada e esteve a explicar a uma senhora, creio eu, as razões dessa falta…

Por vezes, passavam outros funcionários, trazendo ou levando coisas, ou simplesmente passando… E perguntava-me: por que estão só dois a atender o público?

Em resumo: fui atendido às 9 e 10. O que significa que estive quarenta minutos à espera. Como nesse tempo cada funcionário deveria ter atendido dez clientes, a busca do objecto a que se referia o aviso durou 4 minutos por pessoa.

Enquanto desperdiçava o meu tempo e ficava cada vez mais impaciente, perguntava-me por que razão há tanta ineficiência naquele serviço. Não haverá maneira de ordenar os objectos postais de modo diverso, que permita uma busca rápida? Tem alguma lógica fazer o empregado do balcão andar a levantar-se constantemente? Não deveria haver balcões específicos para cartas e outro para objectos de maiores dimensões (o que, penso, já aconteceu no passado)?

Eu sei que não se pode comparar, mas não haverá nenhum inventor que queira investir num sistema que leve ao balcão os objectos, como acontece em algumas lavandarias (por exemplo nas 5-à sec, passe a publividade!), nas quais a funcionária digita um número e um sistema automático lhe apresenta, em segundos, a peça limpa?

Quando saí, havia naturalmente muito mais gente do que quando entrei. Já havia alguma contestação. Consegui manter-me calado mas decidi partilhar com os meus eventuais leitores este péssimo começo de dia.

Como se atrevem os CTT a falar em qualidade dos serviços?