Quando Kennedy fez o seu discurso de posse, em Janeiro de 1961, sintetizou na frase que encima este texto um lema verdadeiramente exemplar para um imenso país no qual, apesar das enormes diferenças que separam as pessoas (diferenças de toda a ordem: económicas, sociais, culturais, religiosas) há um sentimento nacional muito forte, no qual a bandeira e o hino são os elementos externos visíveis e omnipresentes. Eu era na altura um jovem professor no Liceu da Horta (ilha do Faial), com pouca informação disponível para além da rádio e de dois pequenos jornais locais (o Telégrafo e o Correio da Horta). Só de vez em quando me chegavam de Lisboa alguns jornais, sempre com grande atraso. Recordo-me mesmo assim de ler o relato desse discurso e da impressão que me fez. Esse ano, como muitos se lembram, ficou ligado ao começo real da guerra nas ex-colónias, ao assalto ao Santa Maria, e àquela anedota que consistia em mostrar num papelinho, escrito à mão, o ano (I96I), rodar o papelinho 90 graus e, perante o mesmo ano (I96I) dizer com voz cúmplice: “Agora é que isto vira!” Isto: era a situação, o Salazarismo, a censura… E eu pensava: “o que posso eu fazer pelo meu país?” E nessa altura entrechocavam-se pensamentos complicados: “Ir para Angola já, em força, é fazer algo pela Pátria?” ou “Não seria fazer mais pela Pátria ajudar a nascer em África outros Brasis?”
Ao longo da vida, tenho em muitas ocasiões relembrado esta frase preciosa. Muitas ocasiões, de facto, porque infelizmente, parece que em Portugal o patriotismo se resume a querer que se seja campeão de futebol (ou qualquer outro desporto) mas raramente as pessoas deixam de pensar primeiro em si e só depois na Pátria. Há excepções, claro. Mas excepções.
Tudo isto vem a propósito dos tempos que correm. Portugal está a viver uma crise financeira, ou melhor, económica e financeira, praticamente desde os começos do século. Não sou competente para discorrer sobre as origens da crise mas sou suficientemente competente para perceber que ela existe e as razões por que é difícil sair dela. Não vale a pena argumentar com ideologias. De direita ou de esquerda qualquer pessoa lúcida compreende que o Estado, enquanto tal, se tornou um sorvedouro de dinheiro e um gastador impenitente. Julgo que a embriaguês dos ecus e depois dos euros vindos de Bruxelas turvaram as mentes. Porventura a minha também. Não conseguimos aproveitar bem a cornucópia das benesses, a não ser para conseguir entrar no euro (e ainda bem, apesar de tudo).
Não me interessa culpar ninguém, porque isso não resolve a situação. O que me interessa é exactamente que a situação se resolva. Quando em 2002 me disseram que o país estava de tanga, não acreditei verdadeiramente, mas compreendi que iam ser pedidos sacrifícios e dispus-me a eles. O IVA subiu 2 pontos, e durante dois anos não fui aumentado. Esperei que essa austeridade ajudasse, mas não ajudou: três anos depois, apenas tínhamos conseguido piorar. Há novas eleições, e um partido ganha as eleições com maioria absoluta. Nunca escondeu que vinham aí tempos difíceis. O seu líder faz a promessa de não aumentar impostos. Mas algum tempo depois quebra a promessa – e penso que foi a única que não cumpriu, até agora. Teria sido melhor não a fazer? Não sei. É feio mentir, mas seria muito mau que, na situação actual, o governo não tivesse o apoio de uma maioria absoluta.
E chego ao ponto essencial. A divulgação de medidas concretas para reduzir a despesa do Estado afecta naturalmente todos os que dele dependem. São, evidentemente, medidas duras para a maior parte. Mas alguém acredita que não tenham de ser as necessárias? Repare-se, antes das eleições, os críticos antecipavam que não iria haver coragem de tomar medidas por causa da proximidade das eleições autárquicas – e elas estão a ser tomadas, com os riscos inerentes de perda potencial de votos para o partido de governo. Os mais reputados economistas (ainda anteontem, nos “Prós e Contras”, Medina Carreira, Silva Lopes, Ferreira do Amaral e Santos Silva) praticamente convergem dizendo que ainda é pouco e terão de ser pedidos mais sacrifícios no sector da despesa pública. Vamos meter a cabeça na areia, como a avestruz? O país está doente e precisa de cura. E não ajuda a cura pormo-nos em bicos dos pés e proclamar que temos direitos! E os direitos de Portugal, como Nação? Vamos pô-los de parte?
Temos de ser exigentes connosco próprios, aceitar alguns sacrifícios e – naturalmente – ser implacáveis para com os desvios e as fugas, porque os sacrifícios devem tocar a todos. Não temos tempo a perder porque já se perdeu muito tempo. Isso não se compadece com polícias que prometem não policiar, enfermeiros que não cuidam doentes, em suma trabalhadores que decidem não trabalhar. Isto só acontece porque as pessoas pensam que o Estado nunca vai à falência – mas atenção, porque pode chegar-se a uma situação gravíssima se nada se fizer. Por isso, acho que é tempo de todos meditarmos no lema de Kennedy: “Não perguntes o que o teu país pode fazer por ti; pergunta o que podes tu fazer pelo teu país”.