2005/06/27

Um fim-de-semana diferente


Araucária no Buçaco
É bom, de vez em quando, deixar que entre as preocupações do dia a dia se enxertem dias diferentes. Por isso o último fim-de-semana, prolongado com o feriado de S. João, foi aproveitado para uma dessas pausas, perante paisagens diferentes das habituais. Não totalmente desconhecidas nem muito distantes de Braga – mas diferentes. A começar pelos verdes: apesar de tudo, a seca no Minho parece ser menos gravosa do que no centro do país, onde tudo o que é vegetação mostra que tem sede. Mesmo assim, a mata do Buçaco continua ser refrescante e sobretudo repousante. Dou por mim a pensar que desde que a conheço – mais ou menos desde há cinquenta anos – a paisagem não mudou. As árvores centenárias continuam a viver, imponentes, insensíveis às outras mudanças… E assim continuará a ser.

Quando regresso e abro o correio – 348 mensagens… - levo largos minutos a desembaraçar-me de lixo. E de repente, uma mensagem curta enche-me de alegria. O Luís vai voltar: seja no seu anterior blog, “A destreza das Dúvidas”, seja noutro, resolvidas as contrariedades, regressará. Fazia-nos (sei que posso falar no plural) muita falta. Até por isso, o fim de semana foi diferente!

2005/06/24

O santo popular da minha meninice…


… era S. Pedro. Isto porque vivia no Seixal, que tem as suas grandes festividades a 29 de Junho. Nessa altura, adorava a festa, não tanto por ela mas porque havia nos tabuleiros dos vendedores uns suspiros maravilhosos (sempre fui muito guloso…). Via a procissão da varanda da minha casa e gostava.

À medida que ia crescendo, o meu gosto por festas deste tipo desvaneceu-se. Ainda criança tive ocasião de estar no Porto na altura de um S. João (julgo que até já referi isso neste blog), mas depois perdi mesmo todo o entusiasmo.

O Santo António, apesar de ter vivido largos anos em Lisboa, nunca me levou a ver as marchas…

Agora, em Braga, o S. João é a grande festa, mas dela apenas me chegará o eco do foguetório. Não é no entanto assim para a maioria das pessoas, que neste dia, aqui, e no Porto, e em muitas outras localidades, fazem da noite dia até às tantas. Por mim, ficarei em casa: e amanhã, feriado, partirei para três dias de descanso em ambiente calmo. Por isso, durante estes dias estarei ausente da blogosfera.

2005/06/23

As Crónicas na RUM (13)


Estão a decorrer os chamados exames “ad hoc”, ou seja, aqueles exames a que se propõem adultos maiores de 25 anos sem qualificações escolares que lhes permitam aceder, pelas vias normais, à Universidade, procurando a entrada num curso para o qual sintam estar vocacionados.

Estes cursos já existem há bastante tempo, e o actual governo anunciou que vai propor algumas alterações ao sistema. Uma delas é baixar o limite da idade, que passará de 25 para 23 anos; outra é modificar o regime de acesso, até agora bastante centralizado em Lisboa, de onde vêm as provas escritas, dando às Universidades autonomia na gestão dos processos de verificação das capacidades, ou seguindo já a designação mais actual, das competências dos candidatos.

Esta abertura das Universidades a estratos da população que, mau grado não ter tido um percurso escolar normal, conseguiram ao longo da vida obter por si uma formação compatível com as exigências do ensino superior, é louvável. Infelizmente, a taxa de reprovações é alta, mas os que entram acabam muitas vezes por ser bons e até mesmo excelentes alunos. Posso comprová-lo porque já tive como aluna uma senhora nessas condições que teve excelentes resultados.

Por outro lado, nesta fase de reestruturação do nosso ensino superior, devido ao processo de Bolonha, este tipo de oportunidades de dar à população adulta oportunidades de formação de nível universitário é considerado uma das prioridades. De facto, o número de diplomados por escolas superiores em Portugal é muito inferior à média europeia e afasta-se mesmo muito da de países desenvolvidos.

Sabemos que muitos jovens não puderam – e às vezes não quiseram – prosseguir estudos, ficando mesmo longe do final do secundário. Razões de carácter económico, umas vezes; sócio-culturais, outras, afastaram-nos da sequência lógica de estudos.

Mas com a idade e a experiência adquirida no mundo do trabalho, não raras vezes sentem o desejo de regressar ao estudo. O percurso escolar não feito é difícil de retomar e – diga-se com clareza – porventura pouco adequado para o adulto que sentiu o apelo por progredir, sabendo mais, adquirindo mais conhecimento e portanto mais ferramentas para construir a sua vida profissional. Por isso é importante que as portas da Universidade não se fechem se ele ou ela demonstrar que as competências que desenvolveu ao longo dos anos revelam capacidade para vencer os desafios de um curso superior.

Até agora, o que se pede aos candidatos é uma entrevista, uma prova de português e uma prova no âmbito do curso que declara querer seguir (uma prova dita específica).
A taxa de insucesso, como disse atrás, é relativamente elevada, mas como existem casos de sucesso eles justificam que se mantenha este tipo de prova. A Universidade do Minho, procurando ajudar quem tem em vista candidatar-se, pôs há dois anos em vigor um curso para ajuda na preparação do exame que se revelou oportuno e útil.

Antecipo que em futuro próximo haverá desenvolvimentos significativos neste domínio, nomeadamente com a oferta de cursos em regime pós-laboral e mesmo em part-time, o que beneficiaria enormemente quem trabalha e estuda.

Por hoje, é tudo. Até para a semana – e bom São João!

2005/06/22

O meu dia de greve… em 1977



Ora bem, vamos lá recuperar a essência do meu blog: fazer a minha memória flutuar. Ainda que possa ser surpresa depois do que escrevi, vou recuar a 1977 e lembrar que fiz greve… Estava-se no I Governo constitucional e era ministro Sottomayor Cardia, que estava longe de agradar na sua acção. Em Janeiro desse ano eu abandonara o cargo de director de serviços de Estudos que tinha no Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação, regressara à minha Escola (o então Liceu Filipa de Lencastre, em Lisboa) e pouco tempo depois fui convidado para ingressar na Universidade do Minho, como assistente convidado, o que aconteceu em Abril desse ano. Existia então na Universidade a Unidade Científico-Pedagógica de Ciências da Educação, na qual me integrei. Nessa altura, havia apenas um docente doutorado, e por motivos vários, quando se fizeram eleições, fui eleito presidente da Unidade. Entretanto, as relações entre Cardia e os Sindicatos agudizaram-se e foi decretada greve. Sinceramente, não me recordo data certa nem motivos específicos, e não tenho tempo de procurar em papéis que ainda estão desorganizados…

Não sou, nunca fui sindicalizado, e não simpatizo com greves, como já se percebeu. Por isso, nesse dia, como nos outros, fui para o meu gabinete trabalhar. A meio da manhã, recebo um telefonema da secretária do Reitor: do gabinete do Ministro, queriam a lista dos nomes dos professores em greve. Ainda me lembro: reagi como penso deve reagir um touro quando vê o vermelho… E disse à D. Ângela (creio que era ela): “A partir deste momento, considero-me em greve! Arranje outro que lhe dê a informação…”

Achei afrontoso o pedido, achei-o indigno. E por isso – e só por isso – fiz greve nesse dia.

(Não se pode estabelecer paralelo entre este episódio e o estabelecimento dos tais “serviços mínimos”, sejam eles legais ou não – pelos vistos, como sempre acontece quando juristas tocam nos assuntos, uns dizem que sim e outros que não. O que eu nunca poderia aceitar era enviar a lista dos grevistas para o gabinete do Ministro!)

2005/06/20

Esta greve


Sei que muitos dos que me lêem são professores. Terão posições políticas diversas, mas isso não é importante, verdadeiramente. Não sei, também, se estão ou não de acordo com a greve, se foram ou vão ser grevistas ou não. Mas também isso não é importante. O importante, para mim, neste momento, é, por um imperativo de consciência, escrever o que penso sobre esta greve. Com ela, os professores não estão a prejudicar um patrão: estão a prejudicar os alunos. E não posso entender como professores, friamente, se acham no direito de prejudicar os alunos. Infelizmente, tenho de considerar essa atitude pouco ética. Se pensam embaraçar a Ministra, os Secretários de Estado, o Governo, enfim – acredito pouco que embaracem. A opinião pública – quantos pais não se angustiam neste momento – voltar-se-á contra os professores. Os alunos que esperavam ter exames e não os tiveram – como se sentirão? Vão fazê-los mais tarde, quando? Entristece-me profundamente que isto aconteça e apesar do meu optimismo pergunto-me o que querem os portugueses para Portugal, quando os professores, que deviam assumir-se como os mais esclarecidos, são os primeiros a atear o fogo. Para onde vamos?